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Por uma lei Rodrigo Caio

A sociedade brasileira nunca esteve tão distante da generosa (e muito criticada!) atitude do jogador

Rodrigo Caio deu exemplo de ética e generosidade: a caminho de virar vilão numa sociedade toda torta. Foto: Thomás Santos/AGIF

Fosse ensaiada à exaustão, a cena não sairia tão perfeita. O primeiro tempo da semifinal do Campeonato Paulista se aproximava do fim quando o atacante Jô, do Corinthians, o goleiro Renan Ribeiro e o zagueiro Rodrigo Caio embolaram-se num lance que terminou num pisão no camisa 1 tricolor. O juiz Luiz Flavio de Oliveira deu cartão amarelo ao artilheiro – mas foi corrigido pelo defensor, que explicou ter sido ele a atingir (involuntariamente, por óbvio) o companheiro. O árbitro cancelou a punição e, num breve aplauso, celebrou a atitude do jovem tricolor.

A trama continuou impecável ao fim da partida (vencida pelo Corinthians por 2 a 0, praticamente eliminando os rivais). Os repórteres cercaram Rodrigo Caio, que deu de ombros. “Nada demais, fiz só o que deveria fazer”, encerrou, chateado com a derrota. O zagueiro de 23 anos, medalha de ouro nas Olimpíadas do Rio e habitué nas convocações de Tite para a seleção brasileira, despiu-se com perfeição da fantasia de herói da ética – mas está a caminho de virar vilão numa sociedade toda torta.

No campo e na cidade, negros e mulheres apanham e morrem, a bala voa, o pau quebra. O dito brasileiro cordial jaz em companhia da mula sem cabeça e da nota de três reais no exílio da ficção

O país em torno do Morumbi se empenha na lógica inversa, a do egoísmo, da vantagem a qualquer custo, da exclusão inegociável. O flerte com a intolerância – filhote do direitismo de salão tão bem definido por Chico Buarque – alimenta a violência grande, média e pequena, do trânsito às conversas via internet, da convivência no espaço público à aceitação das liberdades individuais. No campo e na cidade, negros e mulheres apanham e morrem, a bala voa, o pau quebra. O dito brasileiro cordial jaz em companhia da mula sem cabeça e da nota de três reais no exílio da ficção.

Gerson no comercial de cigarro: lei da vantagem vigora no futebol e fora dele. Foto: reprodução

O personagem nefasto desfila até na festa da alegria. No último Carnaval, dois acidentes com carros alegóricos produziram feridos graves (tem gente internada até hoje), mas o espetáculo da Sapucaí só parou no momento em que o Salgueiro recusou-se a entrar, até a passarela ser limpa do óleo deixado pela escola anterior, a Vila Isabel. Seres humanos feridos não interrompem o show, mas uma pista escorregadia paralisa tudo. Afinal, essencial é a nota 10.

No dia a dia, as autoridades da segurança pouco se constrangem com crianças mortas a tiros dentro da escola, tampouco diante de jovens assassinados em assaltos banais. A elite do funcionalismo fluminense garante seus gordos salários com liminares e pressão dos poderosos – enquanto os resto dos servidores precisa tourear atrasos cruéis.

Pode não parecer a olho nu, mas tudo faz parte do mesmo jogo. E o futebol, traço tão intenso na alma verde-amarela, virou espelho da sociedade. Nossos boleiros são vistos com desconfiança mundo afora pelo pouco profissionalismo, expresso no folclore da saudade de casa, e, em campo, costumam simular faltas, provocar adversários, encenar atitudes pouco gentis no protocolo do esporte. Neymar, talento supremo do país, viciou-se em zombar de oponentes e investir num teatro acrobático, esborrachando-se Europa afora, para fazer parecer mais violentas as muitas faltas que sofre. Craque sim – fingidor também.

Por aqui, mata-se a caminho e em volta dos estádios, ambientes não recomendáveis a pessoas de bem. Em fevereiro, pouco antes de Flamengo x Botafogo pelo Campeonato Carioca, um torcedor alvinegro foi assassinado na entrada do Engenhão, outros oito ficaram feridos – e houve o jogo, normalmente. Sequer foi a primeira vez que a teimosia do tem-de-ter-futebol-de-qualquer-maneira prevaleceu. Na verdade, é a regra.

Rodrigo Caio disputa lance com Jô, o atacante do Corinthians que ele impediu que levasse cartão amarelo injustamente. Foto: Marcello Zambrana/AGIF

Como a postura dos cartolas, sempre em busca de vantagens pessoais e do poder a qualquer custo. Você aí talvez tenha esquecido, mas o presidente da CBF, Marco Polo del Nero, segue confinado em seu próprio país, com medo das autoridades americanas, descobridoras da endêmica bandalheira do planeta bola. Mas o homem não se constrange e, à distância segura do aeroporto, mantém a pose de manda-chuva.

Na verdade, vigora, no esporte e fora dele, a Lei de Gerson, a do “importante é levar vantagem em tudo, certo?”, frase dita pelo tricampeão do mundo num comercial de cigarro (sim, crianças, houve um tempo em que passava esse tipo de anúncio na televisão – e encenado por atletas). Virou emblema de postura comum no Brasil desde Cabral – o Pedro Álvares, não o presidiário de Bangu 8 –, constrangedora para os que praticam o bem, a generosidade, pensam no coletivo etc.

(Supercraque da era de ouro do futebol brasileiro, Gerson renega a lei e a mensagem subliminar que a propaganda consagrou. Garante apenas ter lido o texto combinado num roteiro, sem jamais imaginar tal repercussão.)

Diante de tanta controvérsia, vai ser difícil acontecer algo semelhante à bela cena do Morumbi

O reclame foi ao ar em 1976, 41 anos antes do gesto de Rodrigo Caio, mas o Brasil mudou menos do que deveria nesse tempo todo. Para o zagueiro, como se diz hoje em dia, não prestou. Recebeu críticas de alguns colegas, como Maicon, do mesmo São Paulo – “É melhor chorar a mãe do adversário do que a minha”, teve a desfaçatez de assumir em entrevista coletiva no dia seguinte. Virou alvo do ceticismo de técnicos e jornalistas esportivos. Passou a ser observado com desconfiança pela torcida, como todas as outras, sedenta pela vitória a qualquer preço.

Mas ninguém foi mais tristemente brasileiro que Rogério Ceni, maior ídolo da história do São Paulo, e atualmente técnico do time – logo, chefe de Rodrigo Caio. Na entrevista depois da derrota, o ex-goleiro encenou com denodo o papel de ético, chamando o comandado de “gentleman” e “menino bom”. Na intimidade do vestiário, despiu a máscara da hipocrisia e criticou pesadamente a atitude, cobrando o jogador por ter impedido o cartão amarelo a Jô (que, aliás, tiraria o atacante da partida de volta da semifinal). Companheiros de equipe endossaram a cobrança do treinador.

O presidente do São Paulo, Cesar Augusto de Barros e Silva, o Leco, até saiu em socorro do jogador. “A gente sabe que a dignidade e a retidão devem estar dentro de cada um de nós e, quando são feitas, devem ser aprovadas e aplaudidas”, exaltou. Foi pouco. Diante de tanta controvérsia, vai ser difícil acontecer algo semelhante à bela cena do Morumbi. Diante do bafafá que se criou, nem seu autor, nem qualquer outro jogador, terá coragem de repeti-la.

O futebol e o Brasil precisam de uma Lei Rodrigo Caio – para ontem.

Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Foi comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”.

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Um Comentário

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  1. É triste saber que o “jeitinho brasileiro” se consolida entre as novas gerações também. a atitude desse jogador deveria ser considerado como um ato comum de educação mais se tornou algo extraordinário aos olhos de quem soube. Espero que artigos como este alcancem o maior número possível de cidadãos dispostos a deixar de lado todas as vantagens do dia a dia e passem a perseguir a ética.

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