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Furacão Maria muda a vida de chef José

Após sua atuação em Porto Rico, o premiado chef espanhol José Andrés virou referência na ajuda a vítimas de desastres naturais


O chef José Andrés: especialista em cozinhar em meio ao caos
O chef José Andrés: especialista em cozinhar em meio ao caos. Foto: Blair Getz Mezibov/Divulgação

Duas estrelas Michelin em um restaurante em Washington DC. Mais de 20 outras concorridas casas no portfólio em diferentes estados americanos e na Cidade do México. Pioneiro em levar aos Estados Unidos o conceito de tapas espanholas. Programas de televisão e livros no currículo. Diversos prêmios de crítica e reconhecimento de público. Aos 48 anos, o chef espanhol das Astúrias naturalizado americano José Andrés é o que os americanos chamam de celebrity chef. Como outros cozinheiros premiados, inclusive no Brasil, há alguns anos ele arruma tempo para participar de organizações sem fins lucrativos que tentam diminuir o desperdício de alimentos, treinar e qualificar pessoas na área de gastronomia, encontrar soluções para cozinhas mais seguras e menos poluentes em países em desenvolvimento. Em 2012, criou sua própria instituição sem fins lucrativos, a World Central Kitchen, baseada em Washington DC. Em 20 de setembro de 2017, chegou Maria. E o futuro de José mudou.

Em Porto Rico, dezenas de chefs e centenas de voluntários serviram mais de três milhões de refeições e alimentaram mais pessoas do que qualquer outra organização humanitária em ação na ilha

Destrutivo como poucos, o furacão Maria aterrissou de forma devastadora na ilha de Porto Rico, estado livre associado aos EUA. Hoje, após quase quatro meses, metade da população de 3,4 milhões de habitantes ainda está sem energia elétrica. Maria foi embora e cinco dias depois chegaram José e sua World Central Kitchen. O chef havia estado semanas antes em Houston, no Texas, cozinhando para vítimas das enchentes causadas pelo furacão Harvey. Era uma ação limitada, como outras que tiveram a participação de José Andrés no passado, sempre em parceria com agências humanitárias e outras organizações sem fins lucrativos. A decisão de seguir para Porto Rico com a World Central Kitchen mudou as regras do jogo.

O chef oferece comida e conversa com crianças na comunidade de Loiza, em Porto Rico, em meio a uma cenário de destruição.
O chef oferece comida e conversa com crianças numa comunidade de Loiza, em Porto Rico: cenário de destruição. Foto: Reprodução/Facebook

Hoje, a instituição é procurada por organizações não-governamentais que querem aprender como cozinhar em meio ao caos e distribuir comida para milhares de pessoas. “Agora não podemos recuar”, disse o chef ao Washington Post. “Acho que fizemos um bom trabalho. Não fomos perfeitos, mas fizemos um bom trabalho. Não posso dizer ‘Agora estou fechando’. Seria um desserviço. Nós mostramos como o trabalho pode ser feito melhor, mais rápido, de maneira mais acessível e ainda ajudando a economia local no processo”. Em Porto Rico, dezenas de chefs e centenas de voluntários serviram mais de três milhões de refeições e alimentaram mais pessoas do que qualquer outra organização humanitária em ação na ilha.

O incansável trabalho de José Andrés o deixou desidratado, com dez quilos a menos e foi considerado o mais eficaz no apoio às vítimas nestes quatro primeiros meses pós-furacão:
“O rosto público do esforço em Porto Rico”, disse o jornal The New York Times. Andrés, um time de mais de 20 chefs (alguns residentes em Porto Rico) e 500 voluntários instalaram cozinhas em diferentes pontos da ilha e começaram a cozinhar para pessoas que estavam sem eletricidade, sem água, sem comida. Uma frota de dez food trucks locais (pagos pela World Central Kitchen) e um helicóptero emprestado por uma empresa de alimentos, Goya Foods, distribuíram refeições em todos os 78 municípios de Porto Rico.

José Andrés poderia ter também um restaurante no Trump International Hotel de DC. Mas cancelou a negociação quando o então candidato a presidente começou a depreciar mexicanos

José Andrés começou improvisando uma cozinha com alguns chefs locais, que também foram os primeiros a doar alimentos que tinham em estoque. O próprio José tem um restaurante na ilha, Mi Casa, no luxuoso hotel Dorado Beach Ritz-Carlton Reserve (o resort e o restaurante estão fechados desde o furacão). Logo depois, o chef conseguiu autorização para ocupar a cozinha do Coliseo, arena coberta de shows em San Juan, a capital. Ali instalou a principal linha de produção. Funcionários de diversos restaurantes do seu ThinkFoodGroup, incluindo chefs executivos de casas premiadas, vieram do continente e reforçaram o time de voluntários.

O projeto começou a chamar a atenção e a receber doações de pessoas físicas e de empresas. Com mais dinheiro e alimentos, eles puderam abrir outras cozinhas em lugares diversos (chegaram a operar 18 unidades, a maioria em escolas) e preparar mais refeições (frias e quentes). Até hoje, algumas cozinhas ainda funcionam em pontos mais remotos da ilha, onde são preparadas refeições quentes. A receita da paella criada por José com os ingredientes disponíveis (com carne de porco e sem frutos do mar, por exemplo) foi batizada de paella Maria. No mês de dezembro, simultaneamente ao trabalho em Porto Rico, a World Central Kitchen, novamente com José Andrés à frente, voou para a Califórnia onde, junto com a LA Kitchen, preparou refeições para os bombeiros que trabalhavam no combate aos incêndios no sul do estado e para as pessoas que tiveram que sair de suas casas.

Crianças na cantina de uma escola no Haiti, que conta com o apoio da World Central Kitchen. Foto: Facebook
Crianças na cantina de uma escola no Haiti, que conta com o apoio da World Central Kitchen. Foto: Facebook

A World Central Kitchen é o trabalho filantrópico de José Andrés de maior repercussão, mas
não o único. O chef também participa da L.A. Kitchen, que tem como objetivo recuperar alimentos que seriam descartados e qualificar pessoas que estão desempregadas para novas funções. Ele também atua na DC Central Kitchen, que combate a fome na capital americana, e na Global Alliance for Clean Cookstoves, uma parceria público-privada liderada pelas Nações Unidas para tentar aumentar a segurança das cozinhas e combater mudanças climáticas com fogões mais limpos e seguros, e menos tóxicos, em países em desenvolvimento.

Ajuda humanitária não estava nos objetivos iniciais da World Central Kitchen. A organização foi criada para pensar soluções que ajudassem a combater a fome e a pobreza, como criar cozinhas mais eficientes, sem desperdício de alimentos; combater fogões tóxicos, promovendo a troca de carvão por gás; treinar pessoas, fortalecer negócios locais e gerar emprego. A ideia surgiu depois do terremoto de 2010 no Haiti, quando José Andrés viajou pelo país com outras organizações sem fins lucrativos para promover a instalação de cozinhas em locais que não causassem acidentes e a conversão de fogões a carvão em fogões a gás. Hoje, a World Central Kitchen tem uma escola de culinária em Port-au-Prince.

José Andrés mostra a haitianos como se cozinha em um fogão movido a energia solar. Foto: World Central Kitchen/ Divulgação

Logo depois da viagem pelo Haiti, José Andrés passou a fazer parte da Global Alliance for Clean Cookstoves. Nesta época, ele já integrava a DC Central Kitchen. Daí surgiu a ideia de fundar uma organização internacional, voltada para educação, saúde, emprego e empreendedorismo, sempre tendo a comida como base. A instituição constrói cozinhas em escolas, instala fogões seguros em cozinhas já existentes, cria escolas de culinária para formar profissionais que trabalhem com as comunidades locais. Tudo isso é feito, por exemplo, no Haiti. Agora a organização pretende usar o conhecimento adquirido em Porto Rico para se reestruturar, ampliar a rede de chefs e se preparar para a próxima temporada de furacões no Atlântico Norte, que começa em meados do ano.

A World Central Kitchen reúne 140 chefs em todo mundo, alguns famosos como José Andrés, que hoje é tão conhecido por seus pratos criativos de tempero espanhol servidos em restaurantes badalados quanto por seu trabalho voluntário. Entre seus prêmios estão o de Outstanding Chef, da prestigiosa James Bear Foundation, e também o de Outstanding American by Choice, entregue por Barack Obama.

Entre seus restaurantes, que fazem parte do ThinkFoodGroup, o Minibar de Washington DC é uma das três casas da capital com duas estrelas Michelin. O chef, que começou sua carreira trabalhando com Ferran Adrià no mítico El Bulli, estava em Porto Rico quando recebeu a notícia de que a casa manteve as estrelas na edição deste ano do guia. Quatro outros  restaurantes seus na capital americana, sua base no país, têm o selo Bib Gourmand (para restaurantes de boa relação custo x benefício), também do Guia Michelin. José Andrés poderia ter também um restaurante no Trump International Hotel de DC. Mas cancelou a negociação quando o então candidato a presidente começou a depreciar mexicanos. Atualmente, está sendo processado na Justiça americana por quebra de cláusula contratual.


Escrito por Carla Lencastre

Carla Lencastre

Jornalista carioca, escreve sobre estilo de vida, turismo e viagens para diversas publicações impressas e websites brasileiros. Editou durante 11 anos a revista e o site de viagens do jornal "O Globo". Anda pelo mundo desde sempre, a passeio e a trabalho. Gosta de visitar novos lugares, de revisitar velhos conhecidos, de contar uma boa história para estimular os outros a sair por aí e de pensar em como o turismo é importante do ponto de vista econômico.

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