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Palco (que toma) partido

O confronto de Claudio Botelho com plateia em Belo Horizonte visto sob a luz de 'Roda viva', canção de Chico Buarque que está mais atual do que nunca


Montagem de 1968 de "Roda Viva"
Montagem de 1968 de “Roda Viva”

O ator e diretor Claudio Botelho diz que gosta de improvisar, usando cacos (falas inexistentes no texto original do espetáculo), mas, ao enfiar um “Fora Dilma! Fora Lula!” durante uma récita de “Todos os Musicais de Chico Buarque”, num teatro em Belo Horizonte, no último fim de semana, a plateia não reagiu do jeito que ele esperava. Talvez estimulado pelo título do livro “Os Reis dos Musicais”, que a jornalista e escritora Tânia Carvalho escreveu sobre a dupla que formou com Charles Möeller, Botelho reagiu e agiu como um monarca. Desastrado e autoritário. Onde já se viu provocar um público basicamente composto de fãs de Chico Buarque?
Patologicamente vaidoso, na opinião de vários atores, Botelho participava há dois anos e meio do musical mas pareceu não ter aprendido nada com Chico, prestando mais atenção em si próprio do que nas letras que cantava. Num país já dividido pela crise política, o racha aumentou, nas redes sociais e na imprensa. O jornal “O Globo” defendeu Botelho e só publicou seu lado na história, citando-o como a primeira vítima do impeachment. Mais sensato, o colunista da “Folha de S.Paulo” Bernardo Mello Franco escreveu que  “o chilique de Botelho expõe uma face da nova direita verde-amarela que muita gente (e boa parte da mídia) prefere fingir que não vê“. Já Nathalí Macedo, no  “DCM”,  afirmou “que Botelho levou a sério demais a máxima de que é o ator quem faz o espetáculo, e não o personagem. Resolveu, sob este pretexto, destilar a própria alienação num teatro lotado – lotado, aliás, de espectadores que pagaram até R$100 para assistirem a um musical de Chico Buarque de Holanda”.

O destempero que fez a plateia vaiar, responder com gritos de “Não vai ter golpe” e abandonar o teatro, continuou no camarim. Um áudio que vazou na rede mostra Botelho, aos gritos,  esbravejando com os colegas chamando os espectadores de bandidos, neofascistas e filhos da puta. “São escrotos, são petistas, são o que há de pior no Brasil”.
Nas mídias sociais as opiniões colocaram mais uma vez uns contra os outros. Uma moça postou no Facebook que os petistas são tão ou mais autoritários do que os militares. Outra ponderou que Botelho foi infeliz ao se manifestar durante o espetáculo, especialmente em Belo Horizonte, onde o PT ganhou as eleições.
“Você tocou na ferida que está aberta”, tentou acalmá-lo no camarim a atriz Soraya Ravenle, a mais serena naquela hora tumultuada. “Não posso ser peitado por um negro, um filho da puta. A casa é minha. Em 67 os militares pararam Roda Viva. Hoje os petistas pararam Roda Viva”, respondia cada vez mais exaltado Claudio Botelho. Alguém da equipe gravou a conversa dos dois, que pode ser ouvida no blog Mídia Ninja. Com paciência, Ravenle rebatia: “Porque eu te amo eu vou falar uma coisa que você não vai gostar. Aqui é um espetáculo com um grupo de pessoas. Não é só você que está com a cara ali”. Ouviu então do diretor que podia sair se quisesse e que os bandidos conseguiram encerrar um espetáculo. Na realidade quem encerrou de vez o espetáculo foi Chico Buarque que, através de sua assessoria, suspendeu sua autorização para o musical prosseguir.
Foi cantando com Cláudia Netto que Botelho estreou em 1990 na montagem de “Hello, Gershwin”, dirigido por Marco Nanini. Sete anos depois associou-se a Charles Möeller. São 36 montagens até agora – muitas grandes sucessos como “O Violinista no Tealhado”, Cole Porter e o atual Chico Buarque. Outras, não tanto, mas todas respaldadas por um marketing perfeito. Na classe artística o cantor e diretor não é uma pessoa querida. Falam de seu temperamento exacerbado e mal educado.
O que me vem à cabeça ao ouvir as palavras duras de Botelho é a história de “Roda Viva”, que ele cita na discussão. É como ela estivesse sempre no centro de um tiroteiro. A música ficou em terceiro lugar no Festival da TV Record. Mas fez sucesso mesmo numa peça homônima escrita por Chico em apenas 25 dias e encenada por José Celso Martinez Corrêa em 1968. A estreia no Rio de Janeiro já provocou muita discussão. O personagem principal, Ben Silver, era um ídolo inventado e colocado no topo pela publicidade. A encenação agressiva e provocadora de Zé Celso, com a concordância de Chico, livrou o compositor da imagem de bom moço que o acompanhava desde “A Banda”.
Mas o Brasil se radicalizava e o AI-5 aconteceria em dezembro daquele ano. Quando “Roda Viva” estreou em São Paulo a situação chegou ao extremo. No final da encenação, o Teatro Galpão foi invadido por cerca de 20 homens armados de cassetetes e soco inglês escondidos por luvas. Os atores foram agredidos e o cenário destruído. Em Porto Alegre as agressões continuaram e a peça foi encerrada no dia três de outubro. Para sempre.
A lembrança permaneceu na gravação da música, com Chico acompanhado do MPB-4, e no livro lançado pela Editora Sabiá, dos escritores Rubem Braga e Fernando Sabino. Zé Celso quis remontá-la mas ouviu um não do autor. Chico foi taxativo. Achava que as deficiências do texto estavam mais evidentes com o tempo. Nem o livro ele permitiu que fosse reeditado. Mas a linda letra permaneceu, cantada até hoje e mais atual do que nunca:

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá


Escrito por Maria Lucia Rangel

Chegou a pensar em ser artista plástica - cursou a Escola de Belas Artes - , mas logo se rendeu ao seu destino manifesto. Primeiro na redação do jornal Última Hora (foi uma das muitas crias de Samuel Wainer), depois no legendário Caderno B do Jornal do Brasil, onde entrevistou toda a fauna de Ipanema nos anos 70. De lá para a TV Globo foi um pulo. Foi repórter, editora e editora de cultura da Rede Globo. Trabalhou depois no Jornal da Tarde, O Dia e Folha de S.P. Hoje, colabora para diversas revistas. Foi pesquisadora e editora dos cancioneiros de Vinicius de Moraes e Tom Jobim e do livro “Mata Atlântica”, de Tom. Organizou o livro “Machado de Assis por Otto Lara Resende” e escreveu – com Tino Freitas – o livro “Aula de Samba”.

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