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Hackers do bem

Quem, de cara, associou a primeira palavra do título a criminosos digitais precisa rever seus conceitos. Eles podem ser aliados da cidadania


A turma do LabHacker: recolhimento de lixo eletrônico
A turma do LabHacker, no Rio Grande do Sul: recolhimento de lixo eletrônico para reciclagem. Foto: Divulgação

No Japão, pouco depois da tragédia de Fukushima, em março de 2011, um pequeno artefato permitiu que as pessoas comuns pudessem medir os níveis de radiação na sua vizinhança. Naquele momento, logo após o vazamento, nem o governo conseguia informar a população com a rapidez necessária sobre as condições ambientais, nem havia medidores Geiger suficientes à venda no mercado local. Foi então que membros do Tokyo Hackerspace resolveram criar um dispositivo, no estilo Faça Você Mesmo (Do It Yourself), que qualquer pessoa com alguma habilidade em eletrônica poderia reproduzir em casa, para que a população pudesse ter informação confiável sobre a contaminação radiativa de forma independente.

O principal preceito da chamada ética kacker é que toda a informação deve ser livre, para permitir a plena exploração, criativa e autônoma, das potencialidades da tecnologia

À primeira vista, pode parecer estranho que a palavra hacker esteja ligada a uma iniciativa com a perspectiva cidadã, pois geralmente o termo é associado à invasão de computadores, em ataques a grandes sistemas e roubos de senhas. Mas existe outra conotação que nada tem de negativo ou ilegal, muito ao contrário. Dentro dessa visão, hacker é uma pessoa que gosta de explorar a fundo a tecnologia, não se contentando em ser apenas um usuário. Dedica-se a descobrir como cada dispositivo funciona e pode até subverter sua finalidade original ou inventar novas soluções técnicas para diversos tipos de problemas. Além disso, segue alguns preceitos que fazem parte da chamada ética hacker. O principal deles é que toda a informação deve ser livre, para permitir a plena exploração, criativa e autônoma, das potencialidades da tecnologia.

Para garantir que esse conhecimento avance, trabalha-se de forma colaborativa, seja de modo presencial ou à distância. Então, com a abertura e a colaboração, os projetos podem sempre ser aperfeiçoados ou customizados, além de amplamente disseminados. O caso do Tokyo Hackerspace é bem ilustrativo dessa dinâmica: quando decidiram criar um equipamento para monitorar a radiação, o objetivo era levar essa informação, de difícil acesso e preocupante, para a população diretamente atingida. Para isso, primeiro compartilharam o projeto que estavam desenvolvendo na internet. Assim, receberam ajuda de outros hackers do mundo todo e puderam chegar mais rápido ao resultado. Ao mesmo tempo, criaram um artefato aberto (hardware aberto), facilmente reproduzível e sem restrições de propriedade intelectual. Então, foi possível gerar uma rede de monitoramento da radiação mais abrangente e eficiente que a oficial.

Na mesma linha, aqui no Brasil, existe o projeto Monitora Cerrado, do Calango Hacker Clube, de Brasília, para medir o nível de umidade na capital federal. O arquiteto Otávio Carneiro, um dos membros do espaço, explica que a ideia de criar um equipamento para medir esse índice de forma autônoma surgiu pela necessidade de se ter dados confiáveis sobre um fator bastante crítico para a população local. Isto porque, dependendo da variação da umidade, as condições ambientais podem se tornar bastante insalubres e comprometer diversas atividades, chegando até mesmo a implicar na suspensão de algumas delas, como aulas nas escolas. Porém, infelizmente, nem sempre há interesse em divulgar corretamente esses dados, daí a necessidade de se buscar uma forma independente de medi-los.

O Geiger, medidor japonês de radiação criado por membros do Tokyo Hackerspace: qualquer pessoa com alguma habilidade em eletrônica pode reproduzir em casa. Foto: Divulgação
O Geiger, medidor de radiação criado por por membros do Tokyo Hackerspace: qualquer pessoa com alguma habilidade em eletrônica pode reproduzir o equipamento em casa. Foto: Divulgação

O Monitora Cerrado começou a ser pensado em 2011, por inspiração na experiência do Japão, mas saiu mesmo do papel este ano, quando foi retomado já com nova tecnologia que facilitou sua implantação. Atualmente, existem oito estações de monitoramento da umidade, em pontos diferentes da região, como Vila Planalto, Altiplano, Águas Claras e Sobradinho, entre outros. Os dados ficam disponíveis online e podem ser consultados em tempo real. Da mesma forma que o do Japão, esse projeto segue os princípios de software e hardware abertos, isto é, toda a documentação está disponível para quem quiser reproduzi-lo.

E acredite se quiser: hackers também estão na universidade! Na cidade de Santiago, no Rio Grande do Sul, existe o Laboratório Hacker, que funciona dentro da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). O grupo surgiu numa disciplina de ciência da computação, em um projeto de reciclagem de lixo eletrônico, como conta o estudante Roger Godoy, um dos participantes.  Anualmente, eles fazem uma campanha de recolhimento de lixo eletrônico no município de Santiago e arredores. Em uma das vezes, chegaram a coletar dois caminhões com equipamentos descartados. Parte desse montante é transformada em objetos de decoração, em parceria com alunos do curso de arquitetura. Outra parte é recondicionada e redistribuída em bom estado de funcionamento. E o que não puder ser aproveitado é direcionado ao setor especializado da prefeitura local. Uma boa maneira de diminuir o impacto ambiental dos resíduos eletrônicos, utilizando o conhecimento técnico dos alunos.

Como se vê, hackers nem sempre correspondem àquela imagem de ameaça à segurança de dados. Há quem prefira diferenciar: hackers são os que gostam de desvendar a tecnologia e crackers são os que usam esse conhecimento para cometer crimes. Vale, então, prestar mais atenção quando se ouvir falar de uma ação hacker: pode ser que seja alguma coisa bem útil e interessante.


Escrito por Bia Martins

Jornalista por formação e pesquisadora por vocação. Trabalha com projetos de comunicação para a internet desde 1995. Doutora em Ciências da Comunicação, atualmente pesquisa iniciativas relacionadas à produção colaborativa, cultura hacker e ciência cidadã. É autora do livro “Autoria em Rede: os novos processos autorais através das redes eletrônicas”, publicado pela editora Mauad, em 2014.

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