O apetite por energia do streaming em tempos de covid-19

Netflix no computador e no smartphone: o consumo de energia global da plataforma aumentou em 84% em 2019 (Foto: Omer Evren Atalay/Anadolu Agency/AFP)

Confinamento provoca aumento no consumo de filmes e séries online através de plataformas que já bateram recordes no ano passado

Por José Eduardo Mendonça | ODS 7 • Publicada em 13 de abril de 2020 - 08:18 • Atualizada em 16 de abril de 2020 - 11:05

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Netflix no computador e no smartphone: o consumo de energia global da plataforma aumentou em 84% em 2019 (Foto: Omer Evren Atalay/Anadolu Agency/AFP)

Muito de nossas vidas são cada vez mais compartilhadas online, mas poucos de nós pensamos no enorme impacto ambiental de todos os dados que passam por nossos computadores ou smartphones. A questão vai muito além do que pesquisar, mandar e-mails ou navegar nas mídias sociais. De acordo com relatório do Netflix, o consumo de energia global da plataforma aumentou em 84% em 2019, chegando a 415 mil terawats-hora, o bastante para alimentar 40 mil lares típicos americanos por um ano. Tanto o Netflix quanto gigantes como Google e Amazon adotam a utilização de quantidade crescente de energia renovável, mas o mesmo não se dá no mercado com um todo, que continua a ser movido por energia gerada por combustíveis fósseis.

Ainda não há cálculos de exatamente quanto a busca por essas plataformas de streaming aumentou durante a pandemia de covid-19 e o consequente confinamento ou isolamento da população. Na Espanha, o número de horas diante da televisão passou de cinco horas e meio diárias por pessoal – um patamar nunca alcançado nos últimos anos: a maior parte pelo consumo de filmes e séries em plataformas de streaming. “A situação de confinamento está se traduzindo em um notório aumento nas horas em que estamos conectados às telas, e as plataformas de streaming têm sido os grandes beneficiários”, afirma Elena Neira, professora de Ciências da Informação e Comunicação da Universidade Aberta da Catalunha.

Nos Estados Unidos, a WarnerMedia, proprietária da HBO, analisou quantos de seus assinantes estão gastando mais tempo assistindo filmes e programas de TV nas últimas semanas. Enquanto a indústria da televisão como um todo viu um aumento de 20% – na segunda quinzena de março – em comparação com o mês anterior, a porcentagem de pessoas que assistem séries de TV aumentou 65%, enquanto a exibição de filmes aumentou 70% na HBO Now. Embora não revelassem números, a Netflix e a Disney Plus confirmaram aumento significativo no consumo de seus produtos a partir de 14 de março, quando o isolamento social realmente começou nos Estados Unidos.

A disparada de demanda por streaming em um momento que o uso da banda larga é fundamental para a transmissão de dados sobre a pandemia fez com que Netflix, Amazon Prime Video, Disney Plus, YouTube e outras plataformas de vídeo tivessem que se comprometer a reduzir a qualidade do streaming na Europa, a pedido da União Europeia. Os provedores de serviços de Internet em diferentes partes do mundo pediram à Netflix para começar a reduzir a qualidade do streaming imediatamente.

Consumo insaciável

Torna-se cada vez mais urgente que a sociedade confronte o fato de que estamos queimando enormes quantidade de energia com o uso de energia para o streaming de séries e filmes, jogos online ou assistentes de voz como o Alexa ou o Siri  – e considerar a estrutura de tecnologia por trás destes serviços.

Como os serviços aparecem como que por mágica em nossos aparelhos, quase nunca pensamos na energia que torna isso possível. – ou sobre as emissões, poluição térmica e outros efeito colaterais do nosso consumo. Invisíveis para nos, os data centers funcionam servindo nossos hábitos de streaming.

O Netflix teve um crescimento de assinantes  em 8.33 milhões apenas no quarto trimestre de 2019. A Apple lançou recentemente seu canal de conteúdo. A Disney entrou no mercado com força total para enfrentar a concorrência. Acrescente a isso, um bilhão de horas por dia do Youtube.  Mais assistentes visuais e sistemas de GPS, sensores nas ruas e cripto moedas. E, logo, conectividade do G5, cirurgias remotas ou carros autônomos.  

YouTube, um bilhão de horas por dia de consumo: apetite insaciável por vídeos (Foto: Altan Gocher/NurPhoto/AFP)
YouTube, um bilhão de horas por dia de consumo: apetite insaciável por vídeos (Foto: Altan Gocher/NurPhoto/AFP)

Os data centers que processam e armazenam dados de nossas atividades online já respondem por 1% do uso global de eletricidade, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Isto é quase a mesma quantidade que um país como a Austrália consome em um ano. Mas, com as sociedades se tornando cada vez mais digitalizadas, este percentual pode chegar a 8% do total da demanda mundial até 2030,  criando a preocupação de que isto irá significar mais queima de combustíveis fósseis. 

O apetite irreversível e aparentemente insaciável do mundo desenvolvido por streaming já indicava que os números deveriam subir – antes mesmo da pandemia da covid-19. Na verdade, a transferência global de dados e a infraestrutura necessária para apoiá-la ultrapassou a indústria aeroespacial (2.5% do total) em termos de emissões de carbono. O que suscita a questão: o que irá acontecer quando centenas de milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento começarem a adotar este hábito?

Além disso, cerca de apenas 6% de todos os dados criados estão em uso hoje, de acordo com a Hewlett Packard. Isto significa que 94% estão estacionados em um “aterro” digital, com uma enorme pegada de carbono.

E aqueles que acham que, ao deletar e-mails, eles desaparecem, provavelmente estão errados Cópias múltiplas de mesmo e-mails, de uma década atrás, estão armazenados em servidores no mundo. E a energia serve para mantê-las vivas. A soma de todos os dados do mundo em 2018 foi de 33 zetabytes (um zetabyte é igual a um trilhão de gigabytes), mas, em 2025 poderá ter crescido cinco vezes, chegando a 175 zetabytes, de acordo com a International Data Corp. Não há ainda cálculos de como a pandemia e seu consequente impulso no consumo de streaming fará esse número aumentar.

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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