Geosmina, a musa às avessas do verão carioca

Foto aérea de poluição no Guandu: geosmina volta a trazer cor escura e cheiro ruim à água dos cariocas (Foto: Trata Brasil/ Mário Moscatelli)

Insegurança hídrica volta a assombrar moradores do Rio: cariocas sofrem com água com odor e gosto ruins, e pescadores denunciam o sumiço dos peixes

Por Liana Melo | ODS 6 • Publicada em 3 de fevereiro de 2021 - 09:13 • Atualizada em 9 de fevereiro de 2021 - 09:30

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Foto aérea de poluição no Guandu: geosmina volta a trazer cor escura e cheiro ruim à água dos cariocas (Foto: Trata Brasil/ Mário Moscatelli)

Ela voltou impondo seu gosto e odor ruins. A geosmina, já conhecida dos cariocas desde o ano passado, parece estar virando moda no Rio de Janeiro. É o segundo verão consecutivo que a substância orgânica produzida por algas, que se proliferam mais no calor e na presença de esgoto, tem invadido, sorrateiramente, a casa dos clientes da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) e sai torneira abaixo. Foi no final de janeiro que começaram a ocorrer os primeiros indícios de água turva, gosto de terra e reclamação de moradores de diversos bairros da região do Grande Rio.

Não tem como fugir do saneamento das bacias destes dos rios Poços, Ipiranga e Queimados. E é uma obra que demora. Ainda que a estatal começasse a obra hoje, o que não vai ocorrer, vamos conviver com quatro a cinco anos de insegurança

Paulo Canedo
professor da Coppe/ UFRJ

Será que a geosmina virou uma espécie de musa às avessas do verão carioca? “Até que a Cedae tome juízo e, pelo visto, a empresa não quer aprender com os erros do passado, teremos a volta da geosmina nos verões do Rio de Janeiro”. O diagnóstico desanimador é do professsor e engenheiro Paulo Canedo, coordenador da Coordenadoria de Programas em Engenharia da Pós-Graduação da Coppe/ UFRJ. A geosmina é apenas o efeito aparente da poluição do rio Guandu, a principal fonte de abastecimento da região Metropolitana do Rio de Janeiro.

A crise cíclica no abastecimento durante a presença da geosmina é fruto de outra crise, a do saneamento. Sem tratamento de água e esgoto, as bacias dos rios Poços, Ipiranga e Queimados continuarão desaguando no Guandu com alta carga de poluentes a pouco mais de 50 metros do local onde a água da Estação de Tratamento e Abastecimento do Guandu (ETA), em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, é captada. Cerca de nove milhões de pessoas, que vivem na cidade do Rio de Janeiro e mais sete cidades da região Metropolitana, dependem do Guandu para garantir sua segurança hídrica.

“Não tem como fugir do saneamento das bacias dos rios Poços, Ipiranga e Queimados. E é uma obra que demora. Ainda que a estatal começasse a obra hoje, o que não vai ocorrer, vamos conviver com quatro a cinco anos de insegurança”, analisa Canedo, comentando que “enquanto não tiver tratamento de água e esgoto nos três rios, não teremos segurança hídrica”.

Como não é possível esperar de quatro a cinco anos para o sumiço da geosmina, a Cedae, defende Canedo, deveria, no mínimo, adotar uma política de transparência mais eficiente e, sobretudo, uma “comunicação mais respeitosa com o consumidor”. Já tendo sido considerada a “joia da coroa” de uma série de privatizações de empresas públicas de água e esgoto, como chegou a referir-se o presidente do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), a Cedae deverá ser colocada à venda logo que o edital da empresa ficar pronto. A concessão da estatal já despertou o interesse de 15 empresas

Marcada por gestões duvidosas e indicações políticas, a Cedae – que era dirigida por apadrinhados do Pastor Everaldo, durante o governo Wilson Witzel – e a crise de abastecimento chegaram a virar caso de polícia no verão de 2020. À época, o Ministério Público Federal (MPF) foi à Justiça intimar a Cedae a apresentar laudos que comprovasse a qualidade da água. É que a empresa relutou a admitir a presença de geosmina na água.

Ainda que a geosmina não signifique um risco à saúde pública, como chama a atenção Canedo, beber uma água turva e fedorenta não é aceitável. A presença de quantidades elevadas de cinobactérias produzindo geosmina é um sinal claro de que o manancial está degradado. E de onde vem essa degradação? De anos e anos de desordem urbana e ocupação irregular do solo no entorno da Bacia do Guandu. Só os municípios de Nova Iguaçu e Queimados chegam a despejar, todos os dias, cerca de 56 milhões de litros de matéria orgânica através da trinca de rios, Poços, Queimados e Ipiranga. Volume capaz de encher o equivalente a 22 piscinas olímpicas só de esgoto, o que transforma o local numa gigante latrina.

Geosmina é um gás. Foto Vitor Ambrozioni
Às margens do rio Poços, a espuma tóxica surgiu após os pescadores fazerem uma barreira para conter o esgoto (Foto: Vitor Ambrozioni)

Enquanto os moradores diversos bairros da região do Grande Rio reclamam do odor e do gosto ruins da água, os pescadores denunciam o sumiço dos peixes. No último dia 12 de janeiro, a Associação dos Pescadores do Guandu (Pesguandu), encaminhou ofício à Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo de Nova Iguaçu, pedindo socorro. No documento, a entidade, que representa 46 pescadores, solicita , entre outras reivindicações, que o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) faça a dragagem dos rios Poços, Queimados, Ipiranga e Cabuçu. O objetivo é recuperar o dique que um dia existiu ali e, assim, mitigar o impactos sobre o corpo hídrico, batizado pelos próprios moradores de “Lagoão”.

Os pescadores da comunidade de Todos os Santos alegam que não conseguem retirar dos rios os 100 quilos de tilápia que costumavam pescar diariamente. “Alguns pescadores estão tentando a vida na construção civil para garantir o sustento da família”, denuncia Vitor Ambrozioni, presidente da Pesguandu, chamando a atenção para o fato de a entidade estar há 12 meses tentando abrir o diálogo com o Inea para discutir o problema. Enquanto aguardam o OK do Inea para sentar à mesa e conversar, os pescadores estão se virando com outros serviços para não morrerem de fome.

 

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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