Cintura Fina: a saga da travesti perseguida por policiais e amada por prostitutas

Cintura Fina era alvo de perseguições policiais, defendia-se com astúcia dos abusos e agressões e se tornou figurinha carimbada nas delegacias da cidade. (Foto: Divulgação)

Descontruindo clichês, biografia escrita por Luiz Morando conta história de ícone LGBT+ que defendia com unhas e navalhas os menos afortunados entre os anos 50 e 80, em Belo Horizonte.

Por Agnes Reitz | ODS 16ODS 5 • Publicada em 31 de janeiro de 2021 - 15:38 • Atualizada em 11 de fevereiro de 2021 - 16:23

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Cintura Fina era alvo de perseguições policiais, defendia-se com astúcia dos abusos e agressões e se tornou figurinha carimbada nas delegacias da cidade. (Foto: Divulgação)

Em um período no qual questões de gênero ainda não eram discutidas, Cintura Fina debochava do conservadorismo belorizontino entre as décadas de 50 e 80, desfilando como queria à luz do dia pelas ruas da capital mineira. Nascida no Ceará em 1933, chegou à cidade aos 20 anos, onde passou a maior parte da vida. A travesti era alvo de perseguições policiais, defendia-se com astúcia dos abusos e agressões usando uma afiada navalha e se tornou figurinha carimbada nas delegacias da cidade por não levar desaforos para casa. Chegou, inclusive, a dar aulas de como manusear a lâmina, em uma época em que o desamparo deixava a autodefesa como único recurso para as populações marginalizadas. A travesti teve suas memórias resgatadas pelo professor e pesquisador LGBTQIA+ Luiz Morando na biografia: “Enverga, Mas Não Quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte”.

Para o escritor, Cintura Fina estava completamente à frente do seu tempo, marcado por uma sociedade que via qualquer coisa desviada das normas tradicionais como um verdadeiro escândalo. “Em 1953, em sua primeira detenção policial na cidade, ela foi levada para a delegacia vestida com traje feminino, maquiada, sobrancelhas pinçadas, unhas esmaltadas, cabelos cortados ao modo feminino. Era ousadia suficiente aos olhos da população e da imprensa, que viam isso como excentricidade e rompimento de regras sociais”. Mesmo desinformada dos recentes conceitos de transgeneridade, Cintura Fina não admitia que questionassem sua identidade de gênero e em depoimento a um delegado em 1964, afirmou: “Eu sou mulher e nasci mesmo foi para os homens”.

Em 1953, em sua primeira detenção policial na cidade, ela foi levada para a delegacia vestida com traje feminino, maquiada, sobrancelhas pinçadas, unhas esmaltadas, cabelos cortados ao modo feminino. Era ousadia suficiente aos olhos da população e da imprensa

Luiz Morando
Professor e pesquisador

O projeto que reúne desde informações obtidas em arquivos da imprensa até inquéritos policiais e entrevistas, humaniza a figura de Cintura Fina e traz a personalidade para além dos discursos preconceituosos da época. De acordo com o autor, Cintura Fina foi a primeira travesti a ganhar notoriedade em Belo Horizonte, se estabelecendo abertamente sobre sua travestilidade e resistindo em meio ao conservadorismo mineiro da época. Portanto, era necessário o reposicionamento de sua imagem além de todos os elementos negativos sobrepostos a ela. “O Brasil não tem uma tradição de preservação e cuidado da memória de grupos sociais. O segmento LGBTQIA+ sempre esteve fora desse foco, apagado por uma perspectiva hegemônica que o considera marginal e subalterno. Executar esse projeto ajuda a naturalizar a percepção de que sempre existimos, sempre estivemos presentes, sempre tentamos nos organizar socialmente, de que não somos solitários, incapazes ou minoritários como aquela perspectiva sempre representou”, reitera.

Negra, nordestina e travesti: a trajetória de Cintura Fina
Cintura Fina era vista como uma figura criminosa, perigosa e traiçoeira pela imprensa da época. Para a população mais vulnerável, no entanto, era uma protetora (Foto: Divulgação)

Um dos pontos que chama a atenção é o fato de Cintura Fina ter deixado Belo Horizonte para viver em Uberaba, no Triângulo Mineiro, onde permaneceu por 15 anos até morrer, em 1995, aos 62 anos de idade.

Dos tabloides para os livros, e dos livros para a TV

Nos jornais, Cintura Fina era sempre rebaixada e constantemente retratada de forma pejorativa. Naquela época, gays, lésbicas e travestis eram comumente tratados por termos como: anormal, invertido, pederasta, tarado, pervertido, afeminado. Além dessas expressões, ela era também era vista como uma figura criminosa, perigosa e traiçoeira, e adjetivos como marginal, delinquente, desordeiro, vadio e malandro também eram frequentemente vistos nos jornais.

Porém, paralelo a essa imagem agressiva descrita pela mídia, estavam as opiniões da população marginalizada que era protegida por ela. Inúmeros relatos da época relatam a solidariedade de Cintura Fina que lutava em defesa das populações mais vulneráveis socialmente, em especial as prostitutas. A travesti oferecia proteção a essas mulheres contra seus parceiros e clientes. Nos arredores dos bairros Bonfim e Lagoinha, em Belo Horizonte, era considerada acolhedora, bondosa, gentil e protetora. A dualidade das personalidades de Cintura Fina, uma descrita pelos jornais e outra por pessoas que a conheciam, refletem os estigmas preconceituosos que a população trans precisa lidar até os dias atuais.

Negra, nordestina e travesti: a trajetória de Cintura Fina
Especialista em memória LGBTQIA+, Luiz Morando, autor do livro ‘Enverga, mas não quebra’, é mestre em Literatura Brasileira e doutor em Literatura Comparada. (Foto: Divulgação)

Se ainda hoje a população transgênero é altamente excluída do mercado de trabalho, nos anos 50 a situação conseguia ser ainda pior. Por muito tempo, Cintura Fina precisou encontrar na prostituição meios de obter renda, até aprender o ofício de alfaiate anos depois. A travesti não teve ruas com seu nome, nem filmes sobre sua vida, mas foi retratada com notoriedade ao ser interpretada por Matheus Nachtergaele na minissérie Hilda Furacão, baseada no livro de mesmo nome de Roberto Drummond, escrita por Glória Perez e dirigida por Wolf Maia em 1998. A personagem, apesar de ser retratada em cima de clichês, foi um divisor de águas na carreira do ator que estava na TV pela segunda vez.

A biografia de Cintura Fina faz parte também de um projeto ainda maior do professor Luiz Morando, com o objetivo de resgatar as memórias e vivências de personalidades LGBTQIA+ da cidade de Belo Horizonte. O livro recém lançado já está esgotado, porém encontra-se disponível para reservas no site da Editora: O Sexo da Palavra.

Agnes Reitz

Agnes Reitz é jornalista pela Universidade Federal de São João del-Rei, mulher trans e apaixonada por tecnologia.

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