Professores da UFGD elaboram cartilha em guarani sobre covid-19

Iniciativa tem por objetivo tornar acessíveis informações sobre a pandemia na região da Grande Dourados (MS) onde moram 16 mil indígenas

Por UFGD Jornalismo | ods3ods4 • Publicada em 1 de maio de 2020 - 08:49 • Atualizada em 1 de maio de 2020 - 12:30

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Cartilha Koronavíru: O texto em guarani com orientações sanitárias e também tradições de cuidados indígenas (Reprodução)

Um dos grandes desafios em tempos de pandemia é a difusão da informação, de forma homogênea, aos diferentes públicos de um território continental, como é o Brasil. Com realidades tão distintas em suas variadas regiões, o País necessita do empenho de todos os setores da sociedade para que ninguém fique desassistido ou sem saber como proceder frente à covid-19. A doença, causada pelo novo coronavírus, já começou a se manifestar até nas comunidades mais remotas e sensíveis, como aldeias indígenas e grupos quilombolas.

Em Dourados, docentes da Faculdade Intercultural Indígena (FAIND) da UFGD, cientes do cenário vulnerável em que se encontra a grande população indígena do Cone Sul de Mato Grosso do Sul, se uniram a professores da educação básica nas aldeias e desenvolveram um material escrito em guarani e kaiowá, contendo todas as informações necessárias sobre a epidemia – desde a contextualização sobre o vírus até a prevenção e o atendimento na rede pública de saúde.

Um dos responsáveis pela publicação, o professor Neimar Machado de Souza, da FAIND, conta que houve solicitação por parte dos educadores indígenas das escolas de Dourados pela parceria: o resultado foi a elaboração de uma cartilha de 20 páginas, colorida e ilustrada, intitulada “Koronavíru”. O docente, doutor em Educação, explica que, primeiramente, foi realizada uma conversa entre os professores indígenas e os integrantes mais velhos da comunidade, para que fossem explicados o que é a covid-19 e quais os cuidados vêm sendo recomendados pelas autoridades de saúde. Em seguida, os mais idosos contribuíram retratando as orientações na língua guarani, de acordo com o vocabulário e as expressões coloquiais.

Além das orientações sanitárias indicadas pelas autoridades mundiais de saúde, como distanciamento social, assepsia das mãos, etiqueta respiratória, cuidados com a higiene, entre outras possíveis de serem seguidas nas aldeias – já que parte dessa população não dispõe sequer de acesso à água – os pesquisadores abordaram na cartilha os aspectos ritualísticos tradicionais, muito presentes na rotina dos povos indígenas e essenciais para a garantia da preservação de suas etnias. “Após essa primeira fase, os professores indígenas passaram a dialogar com os mais velhos também sobre os cuidados tradicionais de saúde aplicados na aldeia em casos de quadros gripais e insuficiência respiratória, características da covid-19, além de registrar suas concepções sobre o adoecimento”, relata o professor Neimar.

Ele enfatiza que as comunidades indígenas tradicionalmente fazem o uso regular de plantas medicinais na prevenção ao adoecimento e também vêm empregando algumas delas durante a pandemia. “É importante reforçar que as plantas são utilizadas em rituais, seguindo um modo de preparo adequado, sob orientação de anciãos e especialistas indígenas”, afirma.

Capa da cartilha Koronavíru: objetivo da UFGD é alcançar todas as comunidades indígenas do Cone Sul do estado de Mato Grosso do Sul (Reprodução)
Capa da cartilha Koronavíru: objetivo da UFGD é alcançar todas as comunidades indígenas do Cone Sul do estado de Mato Grosso do Sul (Reprodução)

Por enquanto, a cartilha vem sendo distribuída virtualmente, por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens, difundida pelos professores das escolas indígenas a seus alunos, familiares e amigos, uma verdadeira rede de comunicação: hoje, a educação indígena no município conta com sete escolas municipais que atendem aproximadamente 3,6 mil alunos, e uma escola estadual com mais de 400 estudantes indígenas, num total de 260 professores e 300 funcionários administrativos.

Leia todas as reportagens da série #100diasdebalbúrdiafederal

“A divulgação impressa é mais onerosa. Solicitamos orçamento e aguardamos a resposta de apoiadores. Também pretendemos difundir as informações via rádios comunitárias e carros de som dentro das aldeias, pois alguns moradores não são alfabetizados. Já temos o levantamento destes custos e quem desejar apoiar as atividades como voluntário será muito bem-vindo”, afirma o professor da UFGD, que recentemente teve o projeto selecionado em edital do Comitê Operativo de Emergência (COE) da Universidade, iniciativa que prevê auxílio financeiro para as ações de enfrentamento à covid-19.

Parceria antiga entre academia e indígenas

Coordenadora do Setor de Educação Escolar Indígena da Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Dourados, a professora Teodora de Souza participou da elaboração do material e garante que a cartilha será muito útil para todas as idades e contextos, por ser de fácil leitura e compreensão das imagens. Atualmente, a população indígena na cidade é de cerca de 16 mil pessoas, grande parte vivendo nas aldeias Jaguapiru e Bororó. Metade dessa comunidade é formada por adultos e idosos, estes últimos, integrantes do grupo de risco mais impactado pela covid-19.

A professora Teodora explica que a UFGD vem trabalhando com as comunidades indígenas quase desde sua criação, em 2005. “A Universidade já é parceira da educação escolar indígena no que tange às formações continuadas para professores, desde 2013, por meio da FAIND. Recentemente, também forneceu máscaras, luvas e 100 litros de álcool para a Sesai em Dourados, para ajudar os postos de saúde das aldeias. Essa parceria é muito importante, pois os profissionais da UFGD envolvidos no processo de prevenção e solidariedade, além de contribuírem com a população indígena, que é mais vulnerável, protegem também a sociedade não-índia”, diz a coordenadora da Semed, que é da etnia Guarani, moradora na aldeia Jaguapiru e falante da língua nativa.

Além de profissionais da UFGD, participaram da elaboração da cartilha professores indígenas e não-indígenas da Semed e do Setor de Educação Escolar Indígena de Dourados. O material está disponível para quem quiser veicular online e também imprimir e divulgar por conta própria (o arquivo está ao fim da matéria).

De acordo com o professor Neimar, alguns órgãos externos ao município já demonstraram interesse em expandir a distribuição da cartilha para outras aldeias do Cone Sul, como a Prefeitura de Ponta Porã e a Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), que farão a divulgação nas comunidades Lima Campo e Kokue’i. Também a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) – Polo Dourados e a Fundação Nacional do Índio (Funai) já dispõem de arquivo do material.

Em curto prazo, o docente diz que a ideia é realizar a cartilha também na língua terena, para a qual está em busca de tradutores, já que a macrorregião da Grande Dourados conta com expressiva população dessa etnia. Ainda, há o planejamento para a elaboração de um folder com o resumo das orientações de combate à pandemia, um gibi voltado ao público infantil e um vídeo informativo.

A série #100diasdebalbúrdiafederal terminou, mas o #Colabora vai continuar publicando reportagens para deixar sempre bem claro que pesquisa não é balbúrdia.

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