Tales estudava de manhã e, na parte da tarde, ficava aos cuidados da avó, nos dias em que a mãe Anne Carinne Forte Lombardi, professora de Educação Física do Ensino Fundamental, dava aula. A avó, Divina Campos Forte, de 74 anos, mora com eles. Esse, aliás, é um dos motivos pelos quais a família tem seguido o isolamento rigorosamente. “A gente pensa em pelo menos dar uma volta no bairro para espairecer, mas sair mesmo, não saímos”, conta Anne que é contra o retorno das aulas, principalmente, por causa da mãe idosa. “Se Tales vai para a aula e eu tenho que trabalhar na escola, minha mãe vai ficar mais suscetível a pegar a covid-19”.
A ausência da escola, para Tales, se mostra mais em ações do que em palavras, como explica a mãe do garoto, Anne, em conversa por telefone com a reportagem do Lição de Casa. Ela não sabe se Tales não fala sobre a escola por não se lembrar ou porque, costumeiramente, não é muito de falar. “Se ele falou três vezes [da escola] foi muito, [nesse período]”, conta a mãe. Até o ano passado, o menino estudava em um colégio particular, à espera de uma vaga na rede municipal. “Ele se lembra mais da escola antiga”, diz Anne. Quando perguntado sobre o que mais sente falta, Tales foi rápido: “de ir para o recreio”. Por ter chegado recentemente à escola, o garoto se confunde com os nomes dos colegas de sala.
Logo após a suspensão das aulas, a escola de Tales criou uma página no Facebook para enviar atividades às famílias dos alunos. Em junho, adotaram a plataforma online Google Classroom. Por um erro de cadastro nos dados de Tales, a família ficou impedida de acessar, problema que só foi solucionado em agosto. A realização das atividades propostas pela escola não foi tarefa simples. Muitas vezes o menino dizia que não queria fazer ou dava início, mas não terminava, relatou Anne. A mãe notou o filho mais triste e desobediente.
A mudança de ambientes – e de autoridade, que foi transferida da professora dele para os pais, ambos também educadores – tem sido um desafio na casa. “É difícil, porque aqui é totalmente diferente, então ele não tem o estímulo que tinha na escola”, afirma a mãe. O menino não entende que os pais agora têm a função de organizar as atividades escolares dele também. Alexandre Shinji Imamura, pai de Tales, e Anne estão trabalhando de casa, dando aulas para os alunos deles. Já são mais de 180 dias sem aulas presenciais. Para preencher o vazio da quarentena, jogos no celular também fazem parte do novo cotidiano – ora com o pai, ora sozinho.
Para Anne, falta diálogo entre gestores e comunidade escolar e os protocolos anunciados não condizem com a realidade do ensino público. “Não há estrutura, falta funcionário. De nenhum jeito há como voltar. Sem a vacina, não tem como”, fala, exemplificando um dos itens, que exige que os panos de limpeza sejam passados a ferro depois de usados. “A escola sequer dispõe de um ferro de passar”, comenta.
Municípios da região metropolitana, como o ABC Paulista, já bateram o martelo de que aulas presenciais só ocorrerão em 2021. Na capital, a prefeitura informou que a decisão sobre a educação infantil – e também sobre o ensino fundamental – só vai ser tomada em novembro. Renata Pietropaolo, professora da Educação Infantil na rede municipal de São Paulo, pondera sobre o lado pedagógico de retomar as aulas sob fortes restrições. “Não sabemos qual o papel da Educação Infantil num contexto em que não pode haver acolhimento com toque e colo”, diz, complementando que o aprendizado nessa fase se pauta na interação e experiência com si mesmo, com o outro e com o ambiente.
*Lição de Casa