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Ex-pastor busca tirar o estereótipo de que o ensino religioso é ‘chato’

Com música e poesia, Serjão desenvolve projetos pedagógicos para cumprir a carga horária semanal na escola


Sérgio Luiz Fonseca Cruz desenvolve projetos pedagógicos para cumprir a carga horária semanal na escola / Foto: Fernanda Baldioti

“Hoje, estou aqui para problematizar: o que vocês acham da atitude de um governador, que é ligado à bancada evangélica, descer de um helicóptero vibrando após a execução de uma pessoa, mesmo sendo ela o bandido?” Essa foi uma das provocações que Sérgio Luiz Fonseca Cruz, professor de ensino religioso do Colégio Estadual Hilário Ribeiro, em Niterói, fez a 23 alunos presentes em uma aula especial no mês da Consciência Negra. Presbiteriano, formado em Teologia, psicólogo e músico, Serjão, como é conhecido, usa seu jeito brincalhão e uma linguagem bem acessível para tentar tirar o estereótipo de que o ensino religioso é uma disciplina “chata”. 

“Tive uma professora de religião no meu ginásio que dava uma aula muito chata. Quando passei no concurso, pensei que a última coisa que eu queria na vida era dar aula como ela. No primeiro dia, pedi pros alunos colocarem num papel o que eles achavam do ensino religioso. Fui lendo as respostas em voz alta e me lembro que um deles respondeu que ‘achava uma palhaçada’ e fui logo dizendo ‘Não sou palhaço’’, diverte-se Serjão.

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Brincadeira à parte, ele conta que busca trabalhar com os alunos questões relacionadas a respeito, a diferenças e a crises sociais. Como não conseguiu formar uma turma sequer em 2019, já que a disciplina é de matrícula facultativa, ele ficou a cargo de desenvolver projetos pedagógicos para cumprir a carga horária semanal na escola. 

“Faço o meu trabalho da forma que me permitem fazer: se dão mais espaço, a gente trabalha mais, se dão menos, a gente trabalha menos. Se perguntar aos alunos se eles querem assistir a aulas de português ou de matemática, eles também não querem. Tento ajudá-los a construir um olhar respeitoso para com as diferenças. Fiz o projeto Prole Preta, no qual trabalho com poesia, leitura de rap, exploro a questão do negro, da mulher…”, explica.  

Ex-pastor, Serjão é professor de ensino religioso desde 2014, quando foi aprovado no concurso. Apesar de oficialmente o Estado do Rio adotar o modelo confessional, ele diz que faz questão de tratar a sala de aula como um lugar plural:

“A escola é laica, e quando fiz o concurso pensei ‘Alguém ter que ocupar esse espaço. Que seja eu, que eu tenho formação e estou preparado para isso’. Nunca fiz proselitismo ou abri a Bíblia para dar aula. Também não devemos ver o professor como dono de todo o saber que despeja conteúdo nas cabecinhas vazias dos alunos. Eles trazem muita coisa também. E essa troca é muito rica”, afirmando que sua fé transcende a questão institucional: “Oro todo dia, leio a Bíblia em casa, mas não chuto santa e respeito às diferenças”. 

Sérgio defende a importância da disciplina como canal de transmitir valores importantes aos alunos e de estimular os jovens a ter uma percepção crítica da sociedade e do tempo que eles vivem:

“A religião é uma realidade na vida do ser humano. Vemos a influência religiosa na vida do país, nos atentados de 11 de setembro…É importante estudar este fenômeno”.

Gosto das aulas do Serjão. Nos ajuda a quebrar tabus porque, em casa, não temos muito conhecimento sobre as outras religiões

Gabriela
Aluna

A turma do segundo ano do ensino médio que assistiu à aula de Serjão tem uma formação bem eclética no que diz respeito à religião. O #Colabora conversou com Barbara Duarte, de 18 anos, frequentadora da umbanda e de centros ciganos, e com Gabriela*, de 17 anos, que é agnóstica. 

“Gosto das aulas do Serjão. Nos ajuda a quebrar tabus porque, em casa, não temos muito conhecimento sobre as outras religiões. As famílias, em geral, são fechadas em religiões específicas. É bem raro ter diversidade. A minha é protestante, então todas as discussões são muito limitadas aos conceitos do cristianismo”, afirma Gabriela.

Barbara já sofreu na pele o preconceito e acredita que a disciplina possa ajudar a diminuir os estereótipos:

“Já me chamaram de macumbeira. É normal, eu não ligo. O que pesa mesmo é quando atrelam a gente ao diabo e não buscam entender o que é a nossa religião”.

*Usamos um nome fictício para preservar a aluna

Essa reportagem foi financiada pelo Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e do Itaú Social que tem o objetivo de fomentar a produção de material jornalístico de qualidade sobre temas relevantes da educação pública brasileira.


Escrito por Fernanda Baldioti

Jornalista, com mestrado em Comunicação pela Uerj, trabalhou nos jornais "O Globo" e "Extra" e foi estagiária da rádio "CBN". Há dez anos, trabalha com foco em internet. Foi editora-assistente do site da "Revista Ela", onde se especializou nas áreas de moda, beleza, gastronomia, decoração e comportamento. Também atuou em outras editorias cobrindo política, economia, esportes e cidade.

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