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De Mauá a JBS e Odebrecht, a relação entre famílias poderosas e políticos

Livro conta a história do capitalismo brasileiros a partir dos clãs que dominam maiores empresas do Brasil


Joesley Batista presidente do conselho de administraÁ„o da JBS Foto: Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press
Joesley Batista presidente do conselho de administração da JBS. Foto: Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press

Os brasileiros encaram hoje, perplexos, as gravações obtidas nas delações premiadas dos donos da JBS, que envolvem o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves, entre muitos outros políticos, ou se decepcionam com a naturalização da propina revelada nos vídeos dos depoimentos na Operação Lava-Jato. Mas a História mostra que do Barão de Mauá ao clã Odebrecht, as famílias mais poderosas e ricas do Brasil desde sempre mantiveram relação estreita com os governos, aponta o livro “Os donos do capital: a trajetória das principais famílias empresariais do capitalismo brasileiro” (editora Autografia), uma coletânea de dez artigos organizada por Pedro Campos, professor do Departamento de História e Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e Rafael Brandão, professor de História da Universidade Federal Fluminense.

Os salões dos Guinle

Um exemplo está no artigo do historiador Cezar Honorato sobre a família Guinle:  “A preocupação da família em tecer laços políticos sólidos pode ser atestada, também, quando Jorginho Guinle, filho de Carlos, ofereceu um almoço a Amaral Peixoto e Alzirinha Vargas em Los Angeles com o chefão da Warner Brothers e várias outras figuras ilustres de Hollywood, num total de 116 pessoas, em 1953.”

Diferentemente das famílias abastadas do exterior, os negócios aqui vieram da escravatura, o que concede a eles um perfil autoritário, truculento, e com total desprezo pela democracia

Pedro Campos

Mas abrir os salões para a classe política era apenas uma faceta dessa relação, cujo objetivo resvala – quase invariavelmente – no interesse econômico. “Parte dessa estratégia de negócios era articulada nos salões dos clubes da elite carioca, em conjunto com outros empresários, o jet set, escondendo, por trás do glamour, grandes negócios. O mesmo podemos dizer da necessidade de articulação com a imprensa, ajudando a constituir uma imagem favorável (empreendedorismo, filantropia, desprendimento etc.) que amplificava seus projetos existentes e os futuros”, escreve ainda Honorato. E prossegue: As inúmeras doações realizadas a museus e clubes esportivos, por exemplo, foram fundamentais para a construção de um imaginário onde se destacava a imagem de uma família de filantropos que não queria somente enriquecer e ostentar a sua riqueza, mas também contribuir para a cultura brasileira.”

Barão de Mauá se dizia abolicionista, mas mantinha escravos em suas empresas (Reprodução)
Barão de Mauá se dizia abolicionista, mas mantinha escravos em suas empresas (Reprodução)

Empreiteiras e ditadura

O livro analisa a trajetória das famílias mais poderosas do país. Além de Barão de Mauá,  Guinle e Odebrecht, estão Klabin-Lafer, Gerdau-Johannpeter, Bouças, Camargo, Andrade, Moreira Sales, Setúbal, Villela, Sarney e Marinho.  Os clãs estão separados por áreas.  Ao examinar o segmento de bancos, foram pinçadas as famílias Villela, Setúbal e Moreira Salles, que deram origem ao atual Banco Itaú. No setor das empreiteiras, foram destacadas a Camargo Corrêa, a Andrade Gutierrez e a Odebrecht, por serem os cases mais emblemáticos da área. Na indústria o enfoque foi para a Gerdau-Johannpeter, do ramo da siderurgia, e a família Klabin, de papel e celulose.

Campos, também autor de “Estranhas catedrais”, prêmio Jabuti no gênero pesquisa econômica em 2015, em que é destrinchada a relação das empreiteiras com a ditadura, seguiu nesta área no novo livro. Ele mostra, por exemplo, como a situação da  Odebrecht evoluiu, desde que a companhia se envolveu nas obras ligadas a grandes projetos políticos, a partir da ditadura: “Foi em torno das demandas, incentivos e políticas estatais que os grupos das famílias Camargo, Andrade e Odebrecht se desenvolveram e se fortaleceram, assumindo o seu porte monopolista. Assim, se a ditadura constituiu um momento decisivo para ascensão dessas construtoras como grandes grupos empresariais, a manutenção de seu poder se deve justamente ao vínculo, presença e controle que esse capital monopolista detém sobre o Estado brasileiro no período posterior à ditadura, até os dias atuais”, escreve Campos.

Origem na escravidão

“Durante as pesquisas, notamos alguns padrões de comportamento e traços da classe dominante. Diferentemente das famílias abastadas do exterior, os negócios aqui vieram da escravatura, o que concede a eles um perfil autoritário, truculento, e com total desprezo pela democracia”, pontua Campos. Outro ponto em comum é a forte concentração de renda. “Eles são bem posicionados, têm contatos com os grandes capitalistas e costumam ter livre trânsito no jet-set, inclusive internacional”, explica o autor.

Campos lembra que, nos Estados Unidos, é comum as famílias doarem arquivos de suas empresas e documentos familiares para institutos de pesquisas ou para acervos de instituições que levam seus nomes. Um bom exemplo são os Rockefeller. No Brasil, no entanto, este é um mundo distante da população.

As classes dominantes veem o Brasil como o país das áreas de serviço, dos elevadores privativos

Pedro Campos

“A ideia do livro vem nesta linha, e tem a intenção de dar a conhecer como essas famílias e suas fortunas foram formadas e as características dos seus negócios. Queremos demonstrar a origem da nossa burguesia. Pegamos as famílias do Sudeste e alguns exemplos de outros locais, para mostrar casos regionais, como os da família Sarney, que foi ramificando a sua atuação, formando uma verdadeira oligarquia, na região”, afirma Campos, lembrando que o clã de José Ribamar Sarney tem negócios variados, mas,  graças à atuação na área da comunicação e da política, ganhou projeção e poder em todo o estado.

Presidente da empreiteira, Marcelo Odebrecht durante depoimento (Foto AFP PHOTO / Heuler Andrey )
O empreiteiro Marcelo Odebrecht, durante depoimento (Foto AFP / Heuler Andrey )

Os empresários e a queda de Jango

Curiosidades e revelações estão no livro. O Barão de Mauá, por exemplo,  era simpático à causa abolicionista, mas mantinha escravos em suas empresas. Os autores também se aprofundam na participação de empreiteiros e banqueiros, no Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (Ipês), onde se reuniram para tramar a queda do presidente João Goulart. A criação do instituto aconteceu já em 1961, com a meta de defender os interesses dos poderosos que se preocupavam com a situação econômica do país, com o que julgavam despreparo do governo, que, na opinião deles, estava sob a influência dos comunistas.

Vargas e os Klabin-Lafer

Outra trajetória que reafirma a ligação das maiores famílias capitalistas aos governos é a do grupo Klabin-Lafer, que se aproximou de Getúlio Vargas para conseguir acumular o capital social necessário para seus interesses político-empresariais, explica a obra. “Para se fortalecer politicamente, era imprescindível atuar amplamente em muitas instituições da vida social, articulando sua ação de classe com os espaços sociais de construção do poder político do período.  A conjuntura política e econômica que emergiu, durante a Segunda Guerra, criou as condições para que o grupo fosse favorecido pelo apoio governamental, interessado em incentivar a formação de indústrias de base. A fábrica de celulose e papel chamada de Indústrias Klabin do Paraná de Celulose, em cuja construção o grupo estava investindo, supriria parcialmente a demanda de pasta de madeira e papel imprensa tanto para agências do Estado-governo quanto para as classes empresariais ligadas aos setores jornalístico e editorial.”

Depois desse mergulho no universo das famílias mais poderosas do país, o organizador  da obra se convenceu que vem da classe dominante grande parte das mazelas nacionais. Para ele, a visão estreita da burguesia brasileira mostra o quanto “eles são segregadores”. O fato de terem construído suas fortunas a partir do trabalho escravo, da opressão, como aponta o livro, trouxe ao longo dos anos o ranço do preconceito contra os menos favorecidos. “Eles veem o Brasil como o país das áreas de serviço, dos elevadores privativos”, lamenta Campos.


Escrito por Denise Assis

É jornalista e passou pela Veja, Isto É, Jornal do Brasil, O Globo,
e O Dia. É autora dos livros: "Propaganda e cinema a Serviço do Golpe" e "Imaculada". Também é idealizadora da coleção "Elas São de Morte" e autora de "Vende-se vestido de noiva", lançada pela Editora Rocco. Foi assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da CNV, e assessora-pesquisadora da Comissão da Verdade do Rio. Também coordenou os trabalhos de elucidação da explosão da bomba da OAB.

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3 Comentários

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  1. A autora pôs o dedo na ferida, e apertou …(seria uma boa se a professora aí acima – Maria Aparecida Honorio Pinato – fosse seguida por seus colegas de magistério. Antes de mais nada, precisamos conhecer nossa história e desmistificar o que preciso for. Excelente esta resenha. parabéns!!!)

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