Diário da Covid-19: Um 1º de Maio repleto de ameaças ao emprego e à vida

Em Instambul, manifestantes usando máscaras para proteção contra a covid-19 lutam com a polícia turca durante um comício do Dia do Trabalhador. Foto Bulent Kilic/AFP

Já são 3,3 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no mundo, com 234 mil mortes e milhares de desempregados

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 1 de maio de 2020 - 11:24 • Atualizada em 1 de maio de 2020 - 15:46

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Em Instambul, manifestantes usando máscaras para proteção contra a covid-19 lutam com a polícia turca durante um comício do Dia do Trabalhador. Foto Bulent Kilic/AFP

O Dia do Trabalhador é uma data que remonta aos tempos das lutas trabalhistas – estimuladas pela 2ª Internacional Socialista – nas duas últimas décadas do século XIX. Nestes 140 anos de celebração, nunca houve um 1º de maio tão ameaçador para o trabalhador mundial e brasileiro. A pandemia da covid-19 trouxe desafios épicos para a humanidade. A conjugação de uma emergência sanitária com uma emergência econômica de tamanha proporção é um fato inédito para todos e faz do 1º de maio de 2020 um dia para não ser comemorado. Já são 3,3 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no mundo, com 234 mil mortes. Ainda não há estatísticas disponíveis sobre o número de desempregados e nem dados consolidados sobre o provável aumento da pobreza e da fome. Mas não há dúvida de que as condições de vida vão piorar para todas as pessoas, em especial, para as camadas com menor inserção produtiva e com menor acesso aos direitos sociais, exatamente aquelas que deveriam (mas não podem) estar nas ruas empunhando as bandeiras dos direitos humanos no Dia do Trabalhador.

O trabalho é a fonte de toda a riqueza de uma nação

Adam Smith (1723-1790)
Economista

Panorama nacional

O Ministério da Saúde divulgou os números atualizados na tarde da quinta-feira, dia 30 de abril de 2020, e o volume de pessoas infectadas atingiu 85.380 casos, o número de vítimas fatais chegou a 5.901 óbitos, com uma taxa de letalidade de 6,9% no Brasil.

A variação diária do número de pessoas infectadas foi recorde absoluto no dia 30/04, com 7.218 novos casos (a segunda maior variação diária do mundo, atrás apenas dos EUA) e a variação absoluta de mortes atingiu o terceiro maior valor diário, chegando a 435 óbitos (a terceira maior variação global, atrás apenas dos EUA e Reino Unido). Mesmo sabendo que existem muitas subnotificações, o Brasil ultrapassou a China em número de casos e caminha para ultrapassar o Irã e a Alemanha em número de mortes. O Brasil continua avançando em ritmo forte e pode assumir o 2º lugar no ranking global, pois a atual semana, desgraçadamente, está apresentando uma aceleração do surto pandêmico em relação à semana anterior.

O gráfico abaixo mostra a evolução do número de casos no Brasil nas 4 quinzenas dos meses de março e abril de 2020. No dia 01 de março havia somente 2 casos da covid-19 no Brasil e passou para 200 casos no dia 15 de março, um aumento de 100 vezes (ou 35,9% ao dia). O número de casos passou para 5,7 mil em 31/03, um aumento de 24,4 vezes na segunda quinzena de março (ou 23,8% ao dia). No dia 15 de abril o número de casos chegou a 28,3 mil, um aumento de 5 vezes na primeira quinzena de abril (ou 11,3% ao dia). No dia 30/04 o número de casos no Brasil chegou a 85,4 mil, um aumento de 3 vezes na 2ª quinzena de abril (ou 7,6% ao dia).

Portanto, o número absoluto de casos está crescendo muito, mas a variação relativa está diminuindo nas quinzenas. Contudo, dentro da última quinzena há uma mudança preocupante pois os dados da última semana mostram uma aceleração em relação à semana anterior. Até o dia 03 de maio vamos poder retomar à análise semanal para ver se realmente o Brasil vai dar um repique na aceleração do surto e/ou se trata do efeito da aplicação de mais testes que reduzem as subnotificações.

O gráfico abaixo mostra a evolução do número de mortes no Brasil pela covid-19, nas últimas 3 quinzenas. A primeira morte no Brasil aconteceu no dia 17 de março e o número cresceu rapidamente até 201 mortes no dia 31/03, um aumento de 201 vezes (ou 46,1% ao dia). O número de mortes atingiu a cifra de 1,73 mil no dia 15 de abril, um aumento de 8,6 vezes na primeira quinzena de abril (ou 15,5% ao dia). No dia 30/04 o número de mortes no Brasil chegou a 5,9 mil, um aumento de 3,4 vezes na 2ª quinzena de abril (ou 8,5% ao dia).

Portanto, o número absoluto de mortes está crescendo ainda de forma mais acelerada do que o número de casos, mas a variação relativa está diminuindo nas quinzenas. Contudo, do mesmo modo que no gráfico anterior, dentro da última quinzena há uma mudança preocupante pois os dados da última semana mostram uma aceleração em relação à semana anterior. É muito preocupante se for uma tendência real de aumento.

O panorama global

No dia 30 de abril, a pandemia global ultrapassou a marca de 3,3 milhões de casos e de 234 mil mortes. A taxa de letalidade ficou em 7,1%.

O gráfico abaixo mostra a evolução do número de casos no mundo nas 4 quinzenas dos meses de março e abril de 2020. No dia 01 de março havia 88,6 mil pessoas infectadas pela covid-19 no mundo e passou para 170 mil casos no dia 15 de março, um aumento de quase duas vezes (ou 4,6% ao dia). O número de casos passou para 935 mil em 31/03, um aumento de 4,7 vezes na segunda quinzena de março (ou 10,9% ao dia). No dia 15 de abril o número de casos chegou a mais de 2 milhões de pessoas infectadas, um aumento de 2,4 vezes na primeira quinzena de abril (ou 6,1% ao dia). No dia 30/04 o número de casos no mundo chegou a 3,3 milhões, um aumento de 1,6 vezes na 2ª quinzena de abril (ou 3,2% ao dia).

Portanto, o número absoluto de casos está crescendo muito, mas a variação percentual está diminuindo ao longo das quinzenas. Parece que o pico da pandemia global já passou e o mundo começou a descer a curva. O modelo estatístico da Universidade de Singapura prevê o fim da pandemia global – com 97% – para o dia 31 de maio e o fim – com 99% – em 18 de junho de 2020.

O gráfico abaixo mostra a evolução do número de mortes no mundo pela covid-19, nas últimas 4 quinzenas. Havia 3 mil mortes no mundo no dia 01 de março e passou para 6,5 mil, um aumento de 2,2 vezes (ou 5,3% ao dia). No dia 31 de março a quantidade de mortes atingiu 42,3 mil em 31 de março, um aumento de 5,9 vezes (ou 12,6% ao dia) na segunda quinzena de março. Entre os dias 01 e 15 de abril o número de mortes passou de 47,2 mil para 138,5 mil mortes, um crescimento de 2,9 vezes (ou 7,2% ao ano). Por fim, na última quinzena o número de mortes chegou a 234 mil no dia 30 de abri, um aumento de 1,7 vezes (ou 3,6% ao dia).

Assim, a despeito do elevado número absoluto de mortes, o ritmo da mortalidade está diminuindo e parece que o pico (o ponto máximo) da variação diária de óbitos já foi ultrapassado e o mundo já está descendo a curva. Parece que em algum momento nos próximos dois ou três meses o número de mortes vai diminuir para um nível próximo de zero.

Quando será o fim da pandemia no Brasil?

É difícil responder a esta pergunta, pois o Brasil é muito grande e heterogêneo e a pandemia tem ritmo diferenciado nas diversas regiões, estados e municípios. Contudo, a Universidade de Singapura (US) fez um modelo estatístico que pretende monitorar o ritmo da pandemia e prever o seu fim. A cada dia eles vão incorporando os novos dados e o modelo estabelece a data final com as margens de segurança de 97% e 99%.

Com dados até o dia 27/04 o modelo apontava o fim da pandemia no Brasil, com 97%, no dia 01 de junho e com 99% no dia 12 de junho. Com dados até o dia 28/04, o modelo apontava o fim no dia 06 de junho (com 97%) e no dia 18 de junho (com 99%). E com dados até o dia 29/04, o modelo indicava o fim da pandemia no Brasil para o dia 11 de junho (com 97%) e em 24/06 (com 99%).

Ou seja, ao invés de achatar a curva como seria necessário, o que o modelo estatístico da US tem mostrado, ao atualizar os dados, é que a curva da pandemia no Brasil tem elevado a altura e alargado a base da curva. Isto quer dizer que estamos no pior dos mundos, pois o surto pandêmico está em expansão e o fim deste horrível drama está cada vez mais distante.

A pandemia e o pandemônio econômico no Dia do Trabalhador no Brasil

O trabalhador brasileiro não tem nada a comemorar no dia 1º de maio de 2020 e tem muito a perder com a emergência sanitária e a emergência econômica. Olhando para os dados oficiais, o Brasil caminha para ser o segundo país mais atingido pela pandemia da covid-19 (atrás apenas dos Estados Unidos). Mas se considerarmos que existe uma imensa subnotificação, na realidade, provavelmente, o Brasil já pode ser o segundo país mais atingido pelo surto pandêmico. E pelas estimativas do FMI, o Brasil vai ter a sua maior recessão da história.

Indubitavelmente, os números de vítimas da pandemia e do pandemônio se avolumam. Desta forma, a maior parte da população brasileira vai passar o Dia do Trabalhador com medo de perder não só o emprego, mas, principalmente, perder a vida.

O IBGE, divulgou no dia 30/04, os dados da PNAD Contínua para o emprego no país, no trimestre encerrado em março de 2020. Como a pandemia influiu pouco na dinâmica do mercado de trabalho em janeiro e fevereiro e só afetou parcialmente os números de março, o dados da PNAD Contínua de janeiro a março não refletem a dramaticidade da situação da força de trabalho brasileira, que, evidentemente, se agravou enormemente a partir do mês de abril.

De qualquer forma os números do IBGE já mostram a gravidade da situação. A taxa de desocupação (que mede o desemprego aberto) ficou em 12,2%, com 12,9 milhões de pessoas procurando trabalho. E a taxa de subutilização (que mede o “desemprego” mais amplo) ficou em 24,4%, representando 27,6 milhões de pessoas subutilizadas, conforme o gráfico abaixo. Este número é maior, por exemplo, do que toda a população ocupada da Espanha (isto é, o Brasil está jogando fora o potencial produtivo de uma Espanha que tem dentro de si).

As informações da PNAD Contínua também fornecem dados da população total e da população ocupada. A tabela abaixo compara o 1º trimestre de 2015 com o 1º trimestre de 2020. Nota-se que em 2015 a população total brasileira era de 202,2 milhões de habitantes, com 91,6 milhões de pessoas ocupadas (representando 45,3% do total) e 110,7 milhões de pessoas não ocupadas (54,7% do total). Cinco anos depois, a população total passou para 210,5 milhões de habitantes, com 92,2 milhões de pessoas ocupadas (43,8%) e 118,3 milhões de pessoas não ocupadas (56,2%).

População  brasileira total por ocupação (em mil), 1º trimestre de 2015 e de 2020

Categorias 1º tri 2015 % 1º tri 2020 %
População total 202.209 100,0 210.474 100,0
População ocupada 91.555 45,3 92.223 43,8
População não ocupada 110.654 54,7 118.251 56,2

Fonte: IBGE https://sidra.ibge.gov.br/home/pnadcm

Portanto, os indicadores do mercado de trabalho pioraram pois houve uma redução do percentual da população ocupada de 45,3% no 1º trimestre de 2015, para 43,8% no 1º trimestre de 2020. E além disto, temos que considerar que destes 92,2 milhões de trabalhadores, 39,9% (ou 36,8 milhões de pessoas) são trabalhadores informais que estão fora do sistema de proteção social. E, evidentemente, são os mais vulneráveis aos efeitos negativos da covid-19 em termos de saúde e de economia. E a única certeza que há, na atual conjuntura, é que o quadro do emprego vai piorar muito no trimestre de abril a junho de 2020.

Frase do Dia 01 de maio de 2020

“O trabalho é a fonte de toda a riqueza de uma nação”

Adam Smith (1723-1790)

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professor e pesquisador independente. Currículo Lattes em http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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