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Rede de solidariedade envolve Manaus

Parentes de pacientes infectados com a covid-19 saem depois de longas horas de espera na fila para reabastecer seus tanques de oxigênio na empresa Carboxi, em Manaus. Foto Marcio James/AFP. 19 de janeiro de 2020

Moradores falam do caos na cidade, que sofre com a falta de oxigênio, e de como estão lidando com a grave situação causada pelo descaso público

Por Carla Lencastre | ODS 3 • Publicada em 22 de janeiro de 2021 - 09:19 • Atualizada em 23 de março de 2021 - 23:04

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Parentes de pacientes infectados com a covid-19 saem depois de longas horas de espera na fila para reabastecer seus tanques de oxigênio na empresa Carboxi, em Manaus. Foto Marcio James/AFP. 19 de janeiro de 2020

No início do ano o Brasil tomou conhecimento de algo que os moradores de Manaus já sabiam desde o final de 2020: o sistema de saúde público entrara em colapso. Há relatos de que o caos na capital do Amazonas, e no interior do estado, está levando pessoas com covid-19 a uma morte horrível por asfixia, em casa e em hospitais. Artistas, empresários, influenciadores digitais, entre outros, se mobilizam em ações solidárias em Manaus para fazer com que doações cheguem a quem precisa de ajuda para respirar. Moradores falam em filas de madrugada debaixo de chuva diante de empresas que vendem oxigênio, estacionamentos de hospitais lotados de parentes de pacientes guardando cilindros, profissionais de saúde sem EPIs (equipamentos de proteção individual) ou medicamentos básicos para enfrentar o pior momento da doença no Amazonas.

Quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia, eu estava em Manaus no meio de uma viagem de trabalho pela Amazônia. Depois de ver as cenas dramáticas da capital neste início de ano, entrei em contato com algumas das pessoas que encontrei em março passado para saber como elas estavam e como lidavam com a situação. Uma delas é Nega Rai, influenciadora digital com quase 60 mil seguidores no Instagram, que conheci na tradicional feira dominical da Avenida Eduardo Ribeiro, no centro histórico da capital.

Na era pré-pandemia a feira era um dos melhores programas de domingo. Muitos manauaras iam lá para um café da manhã mais demorado nas barracas que espalhavam mesas pelo asfalto para servir café do Amazonas moído na hora, biscoitos de castanha e o clássico regional x-caboquinho, um pão ou tapioca com queijo coalho e tucumã, às vezes também com pacovã (como é chamada a banana-da-terra). Para quem vem de fora, era um ótimo endereço para conhecer produtos locais, de mel e sabonetes artesanais até biojoias de design sofisticado.

Nega Rai: "Meu público está todo se movendo e tentando ajudar". Foto Carla Lencastre. Março/2020
Nega Rai: “Meu público está todo se movendo e tentando ajudar”. Foto Carla Lencastre. Março/2020

Nascida na periferia de Manaus e “sem expectativa de nada”, como diz em uma de suas postagens, Nega Rai estava fazendo uma reportagem em vídeo sobre os produtos regionais da feira para o então recém-lançado Portal da Nega. Enquanto me dava dicas sobre artesãos locais, contou que os vídeos seriam exibidos na IGTV do Instagram e mostrariam cultura, gastronomia e moda de Manaus. Aquela foi a última reportagem feita por Nega na rua:

“Com a pandemia, a primeira coisa que fiz foi suspender as reportagens mostrando a cidade. Fiquei em casa e passei a me concentrar na cozinha. Consegui criar conteúdo de gastronomia e foi interessante. Mas agora a situação está bastante complicada e estou pegando pesado na divulgação das ações dos voluntários. Meu público está todo se movendo e tentando ajudar”.

A combinação de isolamento social e receitas fez o número de seguidores de Nega dobrar ao longo destes mais de dez meses de pandemia. Agora ela usa a influência digital para promover o trabalho de quem está na linha de frente e arrecadar doações:

“Não posso ir para a fila comprar oxigênio como algumas pessoas estão fazendo porque meu filho de 4 anos teve sintomas recentes de covid-19 e meu marido é de grupo de risco. Mas faço a minha parte divulgando as vaquinhas, as pequenas ajudas de cada um. Tem gente se organizando, por exemplo, para levar comida para os parentes dos pacientes que ficam do lado de fora do hospital esperando informações e tomando conta dos cilindros de oxigênio. Há hospital público recusando paciente porque a família não pode arcar com o custo do oxigênio. As empresas em Manaus estão vendendo caro, há filas enormes. Quem tem dinheiro, compra. Não entendo como só o governo não consegue. Agora só se fala de oxigênio, mas nos hospitais falta tudo, até EPIs para os profissionais de saúde. Na primeira onda ao menos as pessoas conseguiam ser atendidas nos hospitais. Hoje há lista de espera por leito inclusive nos particulares. No interior é ainda mais caótico. A população está sofrendo demais”

Para quem quiser colaborar com dinheiro ou divulgando, Nega indica o projeto Mais Amor Manaus. A prestação de contas é feita no próprio Instagram.

Outra influenciadora digital de Manaus, a confeiteira Gaby Harb, com mais de 100 mil seguidores no Instagram, é uma das pessoas que vai de madrugada para a fila de oxigênio. As imagens que ela posta sobre o drama da vida real dos manauaras são de partir o coração.

“A situação é crítica e o interior está completamente desabastecido. Quem tem abastecido os hospitais são os grupos de ajuda, formados por empresários e pessoas comuns. Todo dia morre gente por falta de oxigênio; somos informados diretamente pelos próprios profissionais de saúde. Estou indo diariamente às empresas, passo a madrugada inteira na fila. Está chovendo muito na cidade, o que dificulta ainda mais. Mas não consigo ficar em casa vendo tanto absurdo. Quando a gente consegue oxigênio é para três ou quatro horas no máximo. A sensação é de enxugar gelo. São muitos os pedidos de socorro. Não há EPIs o suficiente, nem medicamentos. Hospitais em Manaus estão sem sedativo. É revoltante.”

Gabi Harb: "A situação é crítica e o interior está completamente desabastecido". Foto Arquivo Pessoal
Gabi Harb: “A situação é crítica e o interior está completamente desabastecido”. Foto Arquivo Pessoal

Gaby conta que tem amigos da área de saúde trabalhando na linha de frente do tratamento da covid-19. No final do ano passado ela soube por eles que o excesso de trabalho estava fazendo com que alguns profissionais ficassem mais de 12 horas seguidas sem comer.

“Ainda não faltava oxigênio, mas a situação nos hospitais estava piorando. Usei minha rede social para pedir ajuda e levar comida para 400 profissionais de saúde. Fizemos lasanha e um guisado de carne com arroz ou macarrão e uma verdurinha e começamos a distribuir como forma de agradecimento. Usei a estrutura dos bufês com os quais costumo trabalhar, que também cederam funcionários. Junto com outras cinco pessoas criamos um Pix e começamos a aceitar doações para fazer uma ‘noite do hambúrguer’. Depois a situação piorou muito, a campanha local virou nacional e agora corremos contra o tempo para conseguir oxigênio. Começamos a pegar cilindros vazios nos hospitais e levar em nossos carros para encher nas empresas. Nos últimos dias descobrimos que, além de oxigênio, falta tudo nos hospitais. EPIs, oxímetros, medicamentos…. Compramos de dois em dois dias e prestamos contas no Instagram Ana Eliza Por Aí. Agradeço por ter amigos que pensam da mesma maneira, porque não conseguiria fazer tudo sozinha. Estou muito cansada fisicamente, mas o cansaço mental é muito maior. Nunca vou me esquecer como é ver a realidade de frente.”

Naquele mesmo domingo na feira da Eduardo Ribeiro em que encontrei Nega Rai, também me encantei com o bonito trabalho da designer de biojoias Renata Sampaio. Ao longo de 2020 Renata viu morrer artesãos colegas de feira e do Shopping do Artesanato Djalma Batista, outro tradicional endereço de Manaus para quem procura produtos regionais:

“A situação em Manaus está péssima, mas é importante dizer que o sistema de saúde já não era bom. Se houvesse um acidente de grandes proporções, por exemplo, os hospitais já ficariam lotados. Imagina em uma pandemia. Quem tem condições compra oxigênio e faz sua própria UTI em casa. Nos hospitais falta oxigênio para os pacientes e o básico para os profissionais de saúde, como luvas. Cada um ajuda como pode, mesmo que seja levando comida para os parentes dos pacientes. Muita gente está passando a noite nos estacionamentos dos hospitais com cilindros de oxigênio para o caso de o paciente precisar.”

Para quem vende acessórios para visitantes de outros estados e países, a vida de Renata não anda fácil. Ela chama atenção para o estigma que pode marcar por um tempo a cidade para qual a atividade turística é muito importante economicamente:

“Vivo do turismo, e vai levar um tempo até as pessoas perderem o medo de vir até Manaus. Artesanato nunca foi prioridade para ninguém, mas hoje está ainda mais complicado.”

Durante a pandemia Renata começou a ensaiar um e-commerce pelo Instagram e está entregando em todo o Brasil pelos Correios. Dica de quem viu o trabalho dela ao vivo: são lindos os anéis, brincos e colares em marchetaria, feitos com madeiras da Amazônia.

Em Manaus me hospedei no então recém-inaugurado Juma Ópera, hotel boutique em frente ao magnífico Teatro Amazonas. Quase um ano depois conversei novamente com o gerente geral, Rodrigo Dezan Cunha, que saiu de São Paulo para abrir o hotel e continua na cidade.

“O impacto da segunda onda da covid-19 está sendo mais forte devido à falta de suprimentos básicos, como oxigênio. Optamos por fazer doações diretas ao Governo do Estado, na sede da Central de Medicamentos do Amazonas e no galpão da Gerência de Patrimônio da Secretaria Estadual de Saúde. Felizmente não tivemos nenhum caso grave entre os funcionários, e os protocolos que adotamos têm se mostrado eficientes para proteger a equipe e os hóspedes.”

Entre os muitos novos procedimentos estão a suspensão das visitas organizadas pelo Juma Ópera a comunidades indígenas ou ribeirinhas, ainda mais vulneráveis ao coronavírus.

Renata Sampaio: "A situação em Manaus está péssima, mas é importante dizer que o sistema de saúde já não era bom". Foto Carla Lencastre
Renata Sampaio: “A situação em Manaus está péssima, mas é importante dizer que o sistema de saúde já não era bom”. Foto Carla Lencastre. Março/2020

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 25 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por mais de uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve como freelance para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca de mar e bar. Gosta de dias nublados. Ama viajar. Está no Instagram e no Twitter em @CarlaLencastre 

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