Diário da Covid-19: óbitos ressaltam a desigualdade no Rio de Janeiro

Taxa de mortalidade em bairros da cidade com renda mais baixa chega a ser cinco vezes maior

Por Agostinho Vieira | ODS 3 • Publicada em 29 de junho de 2020 - 09:34 • Atualizada em 30 de junho de 2020 - 08:24

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Moradores caminham pelas vielas da Rocinha. A favela tem uma das maiores taxas de mortalidade da cidade. Foto Fabio Teixeira/NurPhoto

Quando começamos a ouvir falar dele, o coronavírus parecia uma praga mundial e democrática. Do príncipe Charles, da família real britânica, até o ator Tom Hanks, passando pelo tenor Plácido Domingo, a cantora Preta Gil e o governador Wilson Witzel, todos foram atingidos. Afinal de contas, não existe remédio, vacina, e ninguém está imune.  O tempo mostrou que todos estão na mesma guerra, certamente, mas lutando com armas diferentes. No Rio de Janeiro, por exemplo, a lista dos bairros com mais registros da doença é encabeçada por Copacabana e Barra da Tijuca, regiões com renda mais alta  e um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) elevado. Já na lista dos bairros com mais mortos destacam-se regiões mais pobres, como Campo Grande, Bangu, Santa Cruz e Paciência.

Para cada morte no Leblon, são registradas cinco em Campo Grande. A taxa de mortalidade do bairro da Zona Sul com IDH de 0,967 (quando mais próximo de 1 maior o desenvolvimento humano) é de 6,9%, contra 15,28% do bairro da Zona Oeste. A renda per capita no Leblon, segundo a Fundação Getúlio Vargas, é de R$ 4.702,00, já em Campo Grande fica em R$ 737. Até sábado, dia 27, haviam morrido em Campo Grande 320 pessoas. No Leblon foram 63. Não por acaso, mais da metade dos óbitos de Campo Grande era de pessoas negras ou pardas, precisamente 172. No Leblon foram 9 negros ou pardos.

A discrepância nas taxas de mortalidade da cidade pode ser ainda maior quando se consideram as regiões de favela. Na Rocinha, com rende per capita de R$ 408, ela chega a 21,85%. Ou seja, para cada grupo de 100 moradores infectados, cerca de 22 morrem. Já na vizinha São Conrado, a taxa cai para 4,14%. De cada 100, 4 morrem. Alguns metros de distância podem representar a diferença entre a vida e a morte. O problema é que, na verdade, não são metros, são léguas de distância em itens fundamentais como renda, acesso à saúde de qualidade, transporte digno, educação, habitação…

Um estudo divulgado recentemente pelas pesquisadoras Luiza Nassif Pires, do Levy Economics Institute, Laura Carvalho, da USP, e Laura Lima Xavier, da Havard Medical School, mostra que a desigualdade no Brasil é tanta e tão antiga que chega a estar entranhada no corpo das vítimas. Segundo elas, as chances de um brasileiro pobre, que tenha apenas o ensino fundamental, ser infectado pelo coronavírus é muito maior do que a de um indivíduo que tenha feito o ensino médio ou um curso superior. A proporção de pessoas com um ou mais fatores de risco, as chamadas comorbidades, chega a 54% entre os que têm apenas o ensino fundamental, contra 28% do ensino médio e 34% do superior. Entre os mais pobres, a presença de dois ou mais fatores de risco é três vezes maior do que entre aqueles que frequentaram o ensino médio. Os fatores de risco ou pré-condições incluem, entre outras, as doenças cardiovasculares, diabetes, doenças pulmonares crônicas, hipertensão e doenças renais.

Um passeio pelo Painel Rio COVID-19, da prefeitura do Rio, comprova bem a tese das pesquisadoras. A taxa de letalidade na Maré, por exemplo, chega a 23,96%. Em Paciência, bairro com uma renda per capita de R$ 428, segundo a FGV, é de 21,86%. Na Cidade de Deus é de 19,5% e no Complexo do Alemão chega a impressionantes 45%. É verdade que muitos dos registros de casos e mortes na cidade não são feitos exatamente nos bairros correspondentes, especialmente quando se trata de favelas e comunidades pobres, mas estes são os dados oficiais.

Em março, no início da pandemia, em entrevista ao #Colabora, o médico sanitarista Valcler Rangel, da Fiocruz, já alertava para esse problema. Ele defendia que houvesse equidade nas medidas de prevenção e controle do coronavírus, tratando de forma diferente as pessoas e os locais que são diferentes: “Muitas das medidas que estão sendo adotadas ou recomendadas, todas elas corretas, não são acessíveis a essas populações que vivem nas favelas do Rio ou de São Paulo, por exemplo. Limpar as mãos com álcool gel, usar lenço de papel, isolar os doentes em um dos cômodos das casas… Como fazer quarentena em casas que possuem apenas um cômodo, com vários moradores vivendo ali e onde muitas vezes não há sequer um banheiro?”, perguntava o doutor Valcler.

Em países como os Estados Unidos e o Brasil, campeões de casos e mortes no mundo pela covid-19, é quase impossível não falar de desigualdade social e racismo. Por aqui, segundo o IBGE, 75% dos mais pobres são negros. Nos EUA, embora 18% da população do país seja negra, 52% dos casos e 58% das mortes são de pacientes negros, segundo um relatório da amfAR, fundação para pesquisa da Aids, publicado em maio. No Brasil, os dados do Ministério da Saúde só passaram a incluir os dados sobre cor no dia 11 de abril, graças à pressão da Coalizão Negra por Direitos, um grupo de 150 entidades. No painel da prefeitura do Rio quase 50% dos casos aparecem como raça ou cor ignorados.

No entanto, uma reportagem da Agência Pública revelou que há uma morte para cada três brasileiros negros hospitalizados por covid-19, enquanto entre brancos a proporção é de uma morte a cada 4,4 internações. Valcler Rangel, da Fiocruz, lembra que várias outras doenças virais ainda estão fortemente presentes no Brasil, especialmente nas favelas, como a Dengue, a Chikungunya, a Zika e o próprio Sarampo. O que complica ainda mais a situação. A Rocinha, localizada na Zona Sul do Rio, com mais de 100 mil moradores, ainda é uma das campeãs em registros de tuberculose no Brasil. Segundo a OMS, são mais de 300 casos para cada 100 mil habitantes, um índice 11 vezes mais alto do que a média nacional. Um indicador a mais da desigualdade reinante e das nossas comorbidades sociais.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Ainda na Infoglobo, empresa que administra os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, exerceu por oito anos a função de diretor executivo de Negócios. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. Atualmente é Editor Chefe do Projeto #Colabora.

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