‘Me sinto em Chernobyl’, diz brasileiro, no epicentro do coronavírus

Mauro Hart é abordado pelo segurança do supermercado em busca de algum sintoma de contaminação. Foto Arquivo Pessoal

Brasileiro que vive em Wuhan, na China, conta os dias de angústia, solidão e medo em meio à epidemia que assusta o planeta

Por Agostinho Vieira | ODS 3 • Publicada em 5 de fevereiro de 2020 - 22:53 • Atualizada em 12 de março de 2020 - 14:50

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Mauro Hart é abordado pelo segurança do supermercado em busca de algum sintoma de contaminação. Foto Arquivo Pessoal

“Rogo a Deus que me proteja, que me mantenha vivo, longe desse vírus. Vou fazer a minha parte, ficar isolado na minha bolha. Seja o que Deus quiser”. Foi assim que Mauro Hart, brasileiro que vive há cinco anos em Wuhan, na China, epicentro da contaminação pelo coronavírus, terminou o áudio enviado por WhatsApp para o amigo Orfeu, no Brasil. A mensagem é de 25 de janeiro, dia do Ano Novo chinês, o ano do rato. Não dá para dizer que Mauro viva como um roedor, acuado em seu apartamento, pelo contrário, ele até enfrenta a situação com bravura. Mas é natural que sinta medo do que pode acontecer. Na próxima sexta-feira, dia 7 de fevereiro, no entanto, ele sairá da sua bolha chinesa para entrar em uma bolha nacional. Ele é um dos cerca de 40 passageiros que embarcam no sábado, dia 9, em um voo da FAB, direto de Wuhan para Anápolis, em Goiás, onde ficarão em quarentena.

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Mauro encara com serenidade essa nova aventura: “Ficar na quarentena em Anápolis será muito mais tranquilo do que ficar isolado em Wuhan, dentro de um apartamento, sabendo que lá fora é uma área de alto risco”, explicou em entrevista ao Projeto #Colabora. O piloto descreve Wuhan quase como uma cidade fantasma. Da janela do seu apartamento ele vê a outrora engarrafada ponte sobre o rio Yang-Tsé completamente vazia: “Estamos ilhados, o clima é tenso. Não dá para se locomover. O aeroporto está fechado, os trens não funcionam, o metrô, os ônibus, tudo está parado. Só alguns táxis ainda circulam. Tudo está fechado: bares, restaurantes, shoppings. Apenas os mercados estão abertos, mas já faltam legumes, frutas, verduras e outros produtos. Os serviços essenciais, como o fornecimento de água, luz e gás, seguem normalmente. Também é possível ver alguns garis limpando as ruas, mas é só isso”.

Profissionais de saúde chineses nas ruas de Wuhan. Foto Arquivo Pessoal
Profissionais de saúde chineses nas ruas de Wuhan. Foto Arquivo Pessoal

Mauro Hart é piloto de Boeing 737 e trabalha em uma companhia aérea chinesa, que faz voos regionais e internacionais. Sua carreira inclui passagens pela FAB, pela Varig, pela Webjet e até por uma empresa de Taiwan, onde passou seis anos e escreveu o livro “Piloto Expatriado”, contando as suas experiências e as dos colegas de outros países. Quando enviou a mensagem para o amigo, no dia 25 de janeiro, Hart tinha acabado de vir do supermercado. Fez compras para passar um mês em casa, sem precisar sair novamente. Viver sozinho, aliás, não é exatamente uma novidade para Mauro. Por conta das viagens constantes, isso acaba acontecendo com alguma frequência. O tempo ocioso ele preenche lendo livros, conversando com a família, com os amigos no Brasil e cozinhando.

O problema está do lado de fora. Segundo o piloto, o povo de Wuhan está sendo rejeitado no resto da China, em outras cidades e em vários hotéis. Eles são identificados pelo sotaque ou pelos documentos de identidade. Todos vivem com medo: “Me sinto como se estivesse em Chernobyl. Parece que estou no meio de uma guerra biológica”, contou ao amigo. O número de mortos na China por conta do coronavírus já passou de 400 e o total de infectados supera os vinte mil.

A outrora engarrafada ponte sobre o rio Yang-Tsé agora completamente vazia. Foto Arquivo Pessoal
A outrora engarrafada ponte sobre o rio Yang-Tsé agora completamente vazia. Foto Arquivo Pessoal

Apesar de todo o sofrimento, Mauro Hart já sabe o que vai fazer no futuro, quando tudo estiver normalizado: voltar para Wuhan e para o seu trabalho na companhia aérea: “Vou voltar a trabalhar aqui. Confio no poder de recuperação do povo chinês. É realmente impressionante. Eles são muito focados e vão superar toda essa dor, tenho certeza disso”. Enquanto isso não acontece, o piloto já trabalha nos rascunhos do seu próximo livro. O tema? É óbvio: um brasileiro no centro da epidemia de coronavírus

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Ainda na Infoglobo, empresa que administra os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, exerceu por oito anos a função de diretor executivo de Negócios. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. Atualmente é Editor Chefe do Projeto #Colabora.

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