Instituições se unem para projeto enfrentar pandemia em favelas do Rio

Testagem em posto na comunidade: Fiocruz vai coordenar projeto para fazer diagnóstico precoce e acompanhamento clínico através da telemedicina (Foto: Peter Ilicciev)

Fiocruz, ONGs e associações comunitárias de Manguinhos e da Maré lançam iniciativa para testar e tratar pacientes com covid-19

Por Agência Fiocruz de Notícias | ODS 10ODS 3 • Publicada em 20 de agosto de 2020 - 09:32 • Atualizada em 23 de agosto de 2020 - 16:31

Compartilhe

Testagem em posto na comunidade: Fiocruz vai coordenar projeto para fazer diagnóstico precoce e acompanhamento clínico através da telemedicina (Foto: Peter Ilicciev)

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Conselho Comunitário de Manguinhos, Redes da Maré, Dados do Bem, SAS Brasil e União Rio, lançou, nesta quarta (19/08), projeto para viabilizar o atendimento integral em saúde nas favelas e vai contribuir para o enfrentamento da pandemia de Covid-19 na Maré e em Manguinhos (RJ). O Conexão Saúde: de olho na Covid, nome que foi dado à iniciativa, conta com o apoio da gestão municipal, por meio das unidades de saúde da Área Programática local, e inclui desde a orientação e o apoio à população local, até a telemedicina, testagem molecular, rastreamento de contactantes e produção de mapas de risco dentro das comunidades.

Segundo os especialistas envolvidos, essas ações, implementadas de forma estruturada, constituem uma proposta de vigilância ativa que poderia ser considerada um modelo para o enfrentamento da pandemia em favelas e dos territórios populares. “A partir do envolvimento de diversos parceiros, estamos conseguindo integrar a atenção básica, de maneira sistêmica, ao enfrentamento da pandemia na região, oferecendo uma cadeia completa de atendimento, desde a possibilidade de um diagnóstico precoce e acompanhamento clínico, até a testagem molecular e o rastreamento de contactantes”, explica Valcler Rangel, coordenador do projeto pela Fiocruz.

De acordo com Rangel, uma segunda etapa do projeto prevê que ele possa ser replicado em outras favelas e periferias como um modelo de intervenção para emergências em saúde pública já testado em nível local, sendo uma contribuição complementar ao que já vem sendo feito pelos poderes públicos, com o objetivo de atingir a integralidade e equidade em saúde e assistência social, em sintonia com os princípios estruturantes do Sistema Único de Saúde (SUS). “Começamos em duas favelas próximas: Manguinhos, 38 mil moradores, nossa vizinha; e Complexo da Maré, o maior do Rio, com 130 mil moradores. As comunidades faveladas precisam de atenção especial porque os índices de letalidade são maiores do que em outras áreas”, afirmou Valcler Rangel.

Agentes de saúde em posto na Maré: parceria com associações comunitárias para projeto contra a pandemia (Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz)
Agentes de saúde em posto na Maré: parceria com associações comunitárias para projeto contra a pandemia (Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz)

A expectativa é que a iniciativa possa deixar um legado nos territórios onde seja implementada, com bases técnicas para o desenvolvimento de ações de Vigilância Ativa em Saúde, a construção de expertise para estratégias de distanciamento social em favelas, consolidação de modelos de comunicação voltado para emergências em saúde e ações de teleatendimento em psicologia e medicina adequado às condições de populações vulnerabilizadas.

Clique para acompanhar a cobertura completa do #Colabora sobre a pandemia do coronavírus

Além do processamento das amostras, a Fiocruz atuará na coordenação do projeto e será responsável pela capacitação dos profissionais envolvidos, logística das etapas, doação de insumos para coleta e transporte das amostras para seus laboratórios. A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, explicou que a iniciativa se soma às estruturas de saúde que já existem. “É impossível pensar qualquer projeto nesta área sem uma forte articulação com o Sistema Único de Saúde. Deve ser vista como uma iniciativa de dentro do sistema. Como uma articulação de contribuição da sociedade civil com iniciativas do setor privado e, sobretudo, com a presença dos articuladores, das lideranças comunitárias”, destacou Nísia.

O médico Dráuzio Varella, representante da iniciativa Todos pela Saúde, participou do lançamento virtual e destacou a importância da liderança da Fiocruz no projeto por trazer credibilidade e também o conhecimento dos locais, já que a fundação atua nestas regiões há tempos. “Eu estou interessado neste trabalho e na maneira como isso pode ser repetido no Brasil afora, não apenas durante esta pandemia, mas em outras situações de saúde que temos no país”, destacou o médico.

Leia todas as reportagens da série #100diasdebalbúrdiafederal

A médica pneumologista Margareth Dalcomo, pesquisadora da Fiocruz, também acredita que este modelo possa ser exportado. Ela desenvolve trabalho com pesquisas e tratamento de tuberculose que, muitas vezes, só foi possível com a ajuda das lideranças locais. “Este projeto traz, sobretudo, o reconhecimento de que as lideranças comunitárias são muito importantes, são fundamentais para que tenhamos acesso às comunidades. Elas são legítimas representantes das pessoas e dos problemas que são mais prevalentes nestas comunidades”, afirmou Margareth Dalcomo.

Esquema de funcionamento do projeto Conexão Saúde (Arte: Fiocruz)
Esquema de funcionamento do projeto Conexão Saúde (Arte: Fiocruz)

Representantes das comunidades também participaram do lançamento virtual. “A pandemia distribuiu de forma desigual os riscos à saúde, porque boa parte das favelas sofre com deficiência no abastecimento de água. Vivemos aqui em Manguinhos quase dez dias sem água em meio à pandemia. E isso era muito crucial para garantir o cuidado e a higiene para combater o risco de contaminação. E também a emergência sanitária, com a falta de saneamento e habitação adequada e saudável, trouxe riscos maiores ainda”, afirmou Patrícia Evangelista, do Conselho Comunitário de Manguinhos.

A coordenadora das Redes Maré, Eliana Souza Silva, destacou que, muitas vezes, o cumprimento dos protocolos preconizados para a questão do coronavírus pode ser difícil para uma população em situação de vulnerabilidade. Por isso, existe a necessidade de pensar em estratégias adequadas para cada território. ““A testagem é muito importante para a gente tentar isolar as pessoas que precisam e criar as alternativas comunitárias para isso”, ressaltou Eliana.

A articulação de todos os parceiros envolvidos foi uma ação do União Rio, responsável por integrar esforços e expertises para a viabilidade do projeto: SAS Brasil, com a experiência de acompanhamento por telemedicina; Dados do Bem, com um aplicativo que permite a avaliação de sinais clínicos e epidemiológicos para testagem molecular, além de mapeamento de distribuição do vírus; Fiocruz, que coloca à disposição sua capacidade de produção e processamento de testes; e a Redes da Maré e o Conselho Comunitários de Manguinhos, responsáveis por toda a mobilização local. O Conexão Saúde: de olho na Covid recebeu cerca de R$ 1,6 milhões do Todos pela Saúde, iniciativa liderada pelo Itaú Unibanco que vem financiamento uma série de ações para o enfrentamento da pandemia.

A série #100diasdebalbúrdiafederal terminou, mas o #Colabora vai continuar publicando reportagens para deixar sempre bem claro que pesquisa não é balbúrdia.

Agência Fiocruz de Notícias

A Agência Fiocruz de Notícias (AFN) é um veículo da Coordenadoria de Comunicação Social da Fiocruz (CCS), com conteúdo produzido por equipe própria e também composto por textos colaborativos de assessores de comunicação das unidades da Fiocruz.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *