Enfermeira salvava filhos de pacientes com hanseníase de exílio familiar

Para driblar política que levava crianças para educandário sem contato com os pais, Dédima transformou sua casa de três cômodos em abrigo

Por Letícia Lopes | ODS 3 • Publicada em 11 de maio de 2021 - 07:53 • Atualizada em 18 de maio de 2021 - 09:30

Dona Dodô, 79 anos, ex-interna da Colônia Tavares de Macedo: irmã enfermeira impediu filha de ser levada para educandário (Foto: Letícia Lopes)

Dona Dodô, 79 anos, ex-interna da Colônia Tavares de Macedo: irmã enfermeira impediu filha de ser levada para educandário (Foto: Letícia Lopes)

Para driblar política que levava crianças para educandário sem contato com os pais, Dédima transformou sua casa de três cômodos em abrigo

Por Letícia Lopes | ODS 3 • Publicada em 11 de maio de 2021 - 07:53 • Atualizada em 18 de maio de 2021 - 09:30

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A Reta Velha é um dos bairros limítrofes entre Itaboraí e o município vizinho, Tanguá, na Região Metropolitana do Rio. Visto pelo mapa, o bairro até parece ter sido planejado, com ruas e avenidas de traçado paralelo. Mas o chão de terra batida e as casas simples, são cenário do abandono do poder público, que se reflete na falta de serviços básicos e na violência imposta pela presença do crime organizado. Do alto do Hospital Tavares de Macedo, do outro lado da Avenida Vinte e Dois de Maio, uma das principais vias da cidade e que separa as duas regiões, é possível ter uma visão geral do bairro vizinho. A comunidade se construiu ao longo dos anos como uma espécie de satélite do antigo hospital-colônia que internava compulsoriamente doentes de hanseníase.

Tive que arrumar uma casa fora da colônia para o parto porque senão levariam minha filha para o educandário. A minha irmã, que era enfermeira, foi quem cuidou de mim e pegou a neném. Todo mundo deixava as crianças na casa dos amigos para não ir para o educandário e várias ficaram na casa dela

Dolores Maciel da Silva
Ex-interna da Colônia Tavares de Macedo

No bairro, parentes e egressos do “leprosário” acabaram se instalando e construindo a vida. É lá que a casa de uma importante personagem da história do hospital resiste à ação do tempo há mais de cinco décadas. A residência de apenas três cômodos chegou a ser abrigo de mais de cinquenta crianças, filhos e filhas de pacientes da Colônia Tavares de Macedo, resgatados por uma enfermeira da instituição antes que fossem levados à força para o Educandário Vista Alegre, em São Gonçalo, e provavelmente nunca voltassem a ter contato com seus pais e mães.

Assista ao nosso webdocumentário “Dona Santinha”, sobre a política de isolamento compulsório

Dédima Pinto Braga nasceu em Mantenópolis, uma pequena cidade, hoje com cerca de 15 mil habitantes, na divisa entre o Espírito Santo e Minas Gerais. A mudança para o Rio de Janeiro aconteceu quando seu marido adoeceu e foi diagnosticado com hanseníase. Oreste Ferreira Braga foi internado na Tavares de Macedo e a esposa passou a atuar como uma espécie de enfermeira na colônia para ficar próxima do companheiro. Ao longo do tempo, o quarto, sala e cozinha no bairro da Reta que a mãe dividia com os quatro filhos passou a ser compartilhado também com as crianças que nasciam nos limites da colônia — ou até fora dela, porque Dédima também auxiliava mães a darem à luz a seus bebês do lado de fora numa tentativa de livrar as crianças da política de combate à doença.

 Durante quatro décadas, a política de combate da hanseníase no Brasil consistia em internar os portadores da doença à força e separá-los da família, inclusive de seus filhos recém-nascidos. As colônias de leprosos ou leprosários reforçaram o preconceito contra uma doença que deixa de ser transmissível ao ser tratada e tem cura para a maioria das pessoas. Série de reportagens de Letícia Lopes no #Colabora conta que, os sobreviventes lembram ainda hoje as dores da separação e muitos filhos cobram reparação do Estado na Justiça.   

Leia todas as reportagens da série Hanseníase: internação à força e filhos separados dos pais

— Eu tive a minha caçula em uma casa, tive que arrumar uma casa fora da colônia para o parto porque senão levariam ela para o educandário. Os hospitais por aí afora não aceitavam a gente porque sabiam que a gente era daqui. A minha irmã, que era enfermeira aqui dentro, é que cuidou de mim e pegou a neném. Todo mundo deixava as crianças na casa dos amigos para não ir para o educandário e várias ficaram na casa dela. Perderam muita criança assim, porque levavam para o educandário e sumiam com os meninos. Tem várias que foram roubadas — lembra Dolores Maciel da Silva, aos 79 anos.

Dona Dodô, como é chamada pela família e amigos, é irmã de Dédima. Ela e o marido já eram pais de duas meninas quando chegaram à Itaboraí. Com a doença em estágio mais avançado, só Dolores foi internada. Silvino Martins da Silva tinha os sinais da hanseníase em partes não visíveis do corpo e passou a se tratar escondido das autoridades enquanto trabalhava na Baixada Fluminense para ajudar nas despesas da casa da cunhada, onde passaram a morar as três filhas do casal, Ana Cleide, Cleima e Cleumene, a caçula nascida no Rio.

— Foi ela que fez o parto da maioria das crianças que não chegaram a ir para o educandário. Se você chegar ali na colônia e falar “Dona Dédima”, olha… Eu nunca vi ninguém falar mal dela, sabe? A casa dela era sempre cheia, muita criança, e, se chegasse uma de fora e não tivesse roupa, ela cortava lençol e fazia blusinha, shortinho. Ela tirava da própria boca para dar para a gente. Ajudou muita gente, muita criança — recorda Cleima Maciel da Silva, que passou mais de dez anos na casa da tia, sem contato com a mãe, interna da Tavares de Macedo.

Dédima (centro) com a mãe, na cadeira de rodas, e as colegas enfermeiras: abrigo para que filhos de pessoas com hanseníase não fossem para longe dos pais (Foto: Arquivo Pessoal)
Dédima (centro) com a mãe, sentada, e as colegas enfermeiras: abrigo para que filhos de pessoas com hanseníase não fossem para longe dos pais (Foto: Arquivo Pessoal)

Para colocar comida na mesa e alimentar os filhos de sangue e do coração, Dédima trazia sobras da colônia e também contava com a ajuda dos filhos já adultos, que trabalhavam e ajudavam nas despesas da casa, além do cuidado com os mais novos e as crianças que iam chegando.

— Um dos meus primos é muito revoltado. Lembra de ver titia agradecendo a Deus pela vida que levava, apesar de tudo. Fritava um ovo para dividir com todo mundo, comendo feijão com farinha. Mas ela agradecia mesmo assim, sabe? Lembro que ela espremia uma laranja em um litro d’água, para poder fazer “suco” que rendesse para todo mundo. E que suco gostoso, sabe? Era o suco mais gostoso do mundo — lembra Cleima, em meio a uma risada emocionada — Hoje a gente se encontra e lembra daquela época. Um ajudava o outro. Mas ela lutava muito, sofria muito para alimentar a gente. Trazia pão da colônia, comida que sobrava: era um dia após o outro.

A vida de dificuldades e sacrifícios fez Dédima partir cedo, com pouco mais de 50 anos. A enfermeira sofria de problemas cardíacos, e a falta de dinheiro impossibilitou que seus medicamentos fossem comprados. Depois da morte da matriarca, os filhos assumiram o cuidado da casa e das crianças.

— Lembro que ela parecia triste, uma pessoa muito triste. Falava pouco, mas daquele jeitinho muito devagarinho, muito calminho, você não via o tom de voz aumentar. Eu tinha dez anos quando ela faleceu. Naquela semana, não tinha dinheiro para comprar o remédio dela, e fazia seis meses que o marido dela tinha morrido. Ele caiu de cima de um telhado dentro da colônia e bateu com a cabeça. Chegou a ser internado, mas não teve jeito — conta Cleima. — Acho que ela morreu cedo por conta disso, muita luta. Tenho um orgulho danado dela.

Perguntas e respostas sobre a hanseníase (ARTE: FERNANDO ALVARUS)
Perguntas e respostas sobre a hanseníase (ARTE: FERNANDO ALVARUS)

 

Letícia Lopes

Jornalista formada pela UFF, com passagens pelos jornais O Globo e Extra, BandNews FM e O São Gonçalo. Gosta de rua, de gente e de dias de outono

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