Diário da Covid-19: Brasil vive rápida expansão da pandemia e lenta vacinação

Funcionários municipais do SOS Funeral retiram o corpo de Adamor Mendonça Maciel, de 75 anos, de sua casa em Manaus, em meio ao caos da pandemia. Foto Michael Dantas/AFP

Proporção de mortes no Rio de Janeiro supera a de Manaus e é dez vezes maior do que a média global

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 24 de janeiro de 2021 - 11:14 • Atualizada em 11 de fevereiro de 2021 - 16:25

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Funcionários municipais do SOS Funeral retiram o corpo de Adamor Mendonça Maciel, de 75 anos, de sua casa em Manaus, em meio ao caos da pandemia. Foto Michael Dantas/AFP

O Brasil e o mundo estão vivendo um momento crítico da pandemia do novo coronavírus. Os primeiros 23 dias de janeiro de 2021 registram recordes globais do número de  infectados, com 668 mil casos diários (7,3% superior à média de dezembro) e 13,1 mil óbitos a cada 24 horas (17% a mais do que a média diária de dezembro).

No território nacional, o número de casos diários está acima de 50 mil e o número de mortes acima de 1.000 a cada 24 horas. O coeficiente de mortalidade brasileiro ultrapassou a marca de 1.000 óbitos por milhão de habitantes (ou 1 morte para cada 1 mil brasileiros). Todos os estados brasileiros possuem coeficientes de incidência e de mortalidade acima da média global. Manaus e a cidade do Rio de Janeiro são as capitais com maior proporção de mortes, sendo que, incrivelmente, a “Cidade Maravilhosa” possui coeficiente acumulado de mortalidade mais elevado do que o da capital do Amazonas.

O Brasil perdeu o controle sobre a transmissão comunitária do vírus, não conseguiu nem achatar e muito menos eliminar e a curva epidemiológica de casos da covid-19. Agora, a única esperança é a vacinação em massa para imunizar a maioria absoluta da população. A notícia boa é que a vacinação começou no dia 17/01 em São Paulo e no dia 18/01 em várias outras cidades brasileiras. Contudo, o fato preocupante é que não só o Brasil começou um pouco tarde a vacinação, como começou de forma muito lenta, desorganizada e com um forte viés político.

De fato, das cinco vacinas já aprovadas no mundo, o Brasil conseguiu fazer acordos, de maneira limitada, em dois casos: a vacina CoronaVac – desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan – e a vacina da Oxford/AstraZeneca – em parceria com a Fiocruz e produzida no Instituto Serum, na Índia. Mas por conta do negacionismo, de disputas políticas internas e em decorrência de erros da diplomacia brasileira em relação aos parceiros do grupo BRICS (China, Índia e Rússia), o Brasil não tem conseguido garantir um fornecimento adequado de insumos e vacinas para o plano nacional de imunização.

O Ministério da Saúde e o governo Federal cometeram muitos erros durante todo o período da pandemia e especialmente falhas no abastecimento de vacinas e de material básico para a imunização. O fato amplamente reconhecido é que o presidente da República tem dado um mau exemplo, pois não é muito favorável ao uso de máscaras faciais, não é fã de medidas preventivas de isolamento social, não se envergonha de propagandear o tratamento precoce da covid-19 via “kit cloroquina” não recomendado pela Anvisa, assim como não se cansa de lançar dúvidas sobre a eficácia das vacinas. Por conta disto, uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou erros em série do governo no combate ao novo coronavírus. Consequentemente, pesquisa do Instituto Datafolha indicou aumento da avaliação negativa do presidente brasileiro. Também, por conta da irresponsabilidade presidencial, existem diversos pedidos de Impeachment protocolados na Câmara dos Deputados e inúmeras carreatas, no dia 23 de janeiro, desfraldaram a bandeira “Fora Bolsonaro”.

Enquanto o Brasil tem um início tardio e uma marcha lenta, alguns países avançam em ritmo acelerado no plano de imunização, conforme mostra o gráfico abaixo. Em cerca de 1 mês, Israel já vacinou 40% da sua população. Os Emirados Árabes Unidos – que começaram a vacinação no dia 05 de janeiro – já tinham vacinado 25% da população até o dia 23/01. A pequena ilha de Seychelles já vacinou 14% da população. O Reino Unido – que foi o primeiro país a aplicar doses da vacina de Oxford, a partir do dia 08 de dezembro – conseguiu imunizar 9,3% da população. O Brasil, em uma semana, conseguiu imunizar apenas 0,25% da população e não tem insumos garantidos para acelerar o processo. Lastimavelmente, o Brasil está entre a cruz e a caldeirinha.

O panorama nacional

O Ministério da Saúde divulgou os dados nacionais da covid-19 no dia 23 de janeiro, registrando 8.816.254 pessoas infectadas e 216.445 vidas perdidas, com letalidade de 2,5%. O gráfico abaixo mostra os números diários de casos no território nacional entre 01/03/20 a 23/01/21 e a média móvel de 14 dias. Desde o início de março, o número de pessoas infectadas cresceu continuamente até o pico de 45.078 casos no começo de agosto. Nas semanas seguintes os números caíram para menos de 20 mil na primeira semana de novembro, mas voltaram a subir no restante do mês e a curva passou a apresentar uma distribuição bimodal, com o segundo pico mais elevado do que o primeiro. A média móvel de 14 dias, que teve uma leve redução no final de 2020, voltou a subir em janeiro de 2021, estando na casa de 50 mil casos diários.

O gráfico abaixo mostra as variações absolutas diárias do número de óbitos no território nacional entre 15/03 e 23/01 e a média móvel de 14 dias. Nota-se que o número de vidas perdidas cresceu rapidamente desde o primeiro óbito em meados de março até o final de maio quando ficou acima de 1 mil vítimas fatais a cada 24 horas e se manteve neste patamar elevado até o pico de 1.061 óbitos no final de julho. Entre agosto e outubro a média caiu para um patamar abaixo de 400 óbitos diários, mas subiu no mês de novembro e dezembro. Houve uma ligeira queda no final do ano, mas o ritmo voltou a subir em janeiro de 2021 com média no patamar de 1 mil óbitos diários.

O gráfico abaixo mostra que Roraima é a Unidade da Federação (UF) com o maior coeficiente de incidência (11.843 casos por 100 mil habitantes) e Pernambuco com o menor coeficiente (2.582 casos por 100 mil). O Brasil tem coeficiente de 4.166 casos por 100 mil, valor bem superior à média mundial de 1.266 casos por 100 mil habitantes.

O gráfico seguinte mostra que os estados do Amazonas e do Rio de Janeiro possuem os maiores coeficientes de mortalidade (respectivamente, 166 e 165 óbitos por 100 mil habitantes). Os menores coeficientes estão nos estados da Bahia, Maranhão e Minas Gerais, com 66 óbitos por 100 mil habitantes. A média do Brasil é de 102 óbitos por 100 mil, bem acima da média global de 27 óbitos por 100 mil habitantes.

Entre as capitais, o Rio de Janeiro tem maior número e maior proporção de mortes acumuladas do que Manaus, segundo dados do Ministério da Saúde. A cidade do Rio de Janeiro tem uma população de 6,7 milhões de habitantes e registrou 16.685 vidas perdidas para a covid-19 até o dia 23/01. Isto representa um coeficiente de mortalidade acumulada de 248,3 óbitos por 100 mil habitantes (2 vezes a média brasileira e quase 10 vezes a média global). A cidade de Manaus tem uma população de 2,2 milhões de habitantes e registrou 4.746 vítimas fatais até o dia 23/01. Isto representa um coeficiente de mortalidade acumulada de 217,4 óbitos por 100 mil habitantes (bem acima da média nacional e global, mas abaixo do coeficiente da cidade do Rio de Janeiro).

Todavia, existe uma diferença entre as duas cidades, pois as mortes da covid-19 ocorreram de forma mais espalhada no Rio de Janeiro e de forma mais concentrada em Manaus. Isto fica claro quando comparamos o coeficiente de mortalidade a partir da média móvel de 7 dias. No dia 23/01 a “Cidade Maravilhosa” tinha um coeficiente de mortalidade corrente de 1,2 óbitos por 100 mil, enquanto Manaus tinha um coeficiente de mortalidade corrente de 4,7 óbitos por 100 mil habitantes. Portanto, Manaus teve dois picos de mortantade – em abril de 2020 e janeiro de 2021 – enquanto o Rio de Janeiro teve uma “curva mais achatada” ao longo do período da pandemia.

O gráfico abaixo mostra como os números de casos e de mortes da covid-19 na cidade do Rio de Janeiro se distribuíram entre os dias 01 de abril e 23 de janeiro de 2021. Nota-se que todas as baixas acontecem nos fins de semana e as elevações nos dias úteis, mas as linhas (pontilhadas) do ajuste polinomial de terceiro grau apresentam uma suavização das oscilações sazonais. As curvas epidemiológicas estavam subindo no primeiro semestre e atingiram um pico em maio e junho. Nos meses de agosto a outubro houve queda do número de casos e de mortes mas não tão forte como em Manaus. Em novembro houve novamente uma reversão das curvas que passaram a apresentar uma tendência de alta, mas não atingiram o nível ocorrido entre maio e junho. O preocupante é que o ajuste polinomial de terceiro grau aponta para aumento de casos e de mortes. Ou seja, a cidade do Rio de Janeiro não está isenta de passar por uma crise semelhante à ocorrida em Manaus. Segundo o boletim epidemiológico da Prefeitura do Rio, divulgado dia 22/01, todas as 33 regiões administrativas da cidade tinham risco alto para Covid-19, sendo que na semana retrasada, eram 28, e há três semanas, eram 18 regiões. Assim, todo o cuidado é pouco. O Rio de Janeiro pode ser o Manaus de amanhã.

Estamos realmente em tempos excepcionais. O grande escritor Graciliano Ramos (1892-1953) dizia que a morte e o carnaval são dois eventos inexoráveis. Sem embargo, se a pandemia da covid-19 confirmou a inevitabilidade da morte, ao mesmo tempo, evidenciou a revogabilidade do carnaval. Na semana que passou, o prefeito do Rio de Janeiro confirmou o cancelamento definitivo do carnaval carioca deste ano. Portanto, nos anais da história, 2021 será o ano sem carnaval na Cidade Maravilhosa. Medida extrema, mas necessária, pois somente evitando aglomerações será possível escapar de um colapso no sistema de saúde na capital fluminense.

O panorama global

A cidade de Wuhan, na China, iniciou o primeiro lockdown contra a covid-19 no dia 23 de janeiro de 2020. Mesmo com pequeno número de casos e de mortes, o evento alertou a comunidade internacional para a gravidade da doença provocada pelo SARS-CoV-2. Exatamente, um ano depois, no dia 23 de janeiro de 2021, o mundo chegou a 99 milhões de pessoas infectadas e a 2,12 milhões de mortes da covid-19, com uma taxa de letalidade de 2,2%, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

O gráfico abaixo mostra o número diário de casos no mundo e a média móvel de 14 dias.  Nota-se que, em maior ou menor ritmo, o número de casos cresceu continuamente em 2020, reduziu ligeiramente no final do ano passado e bateu o recorde na primeira semana de janeiro de 2021. Nas duas semanas seguintes houve uma pequena redução do número diário de casos, embora em um patamar ainda superior ao registrado em dezembro de 2020.

O gráfico abaixo mostra o número diário de óbitos no mundo e a média móvel de 14 dias. A primeira subida do número de mortes aconteceu em março e o primeiro pico da média móvel ocorreu em meados de abril com cerca de 7 mil vidas perdidas por dia. A partir deste pico, o número diário de vítimas fatais caiu e oscilou entre 4 mil e 6 mil mortes diárias até setembro. Todavia, a 2ª onda ocorrida na Europa e na América do Norte fez o mundo alcançar novos recordes de mortes. Novos picos foram alcançados em novembro e a média móvel chegou a 10 mil mortes diárias em novembro e superou 11 mil mortes em dezembro, caiu para 10 mil na virada do ano e subiu rapidamente para mais de 13 mil mortes diárias na segunda metade de janeiro de 2021. O segundo pico tem quase duas vezes o valor do primeiro.

O Brasil está entre os países do mundo mais impactados pela covid-19, tanto em número de casos, quanto em número de mortes, assim como no impacto econômico recessivo e no agravamento do desemprego e demais problemas sociais. Não precisava ser assim, pois países com Taiwan, Vietnã e Nova Zelândia conseguiram controlar a pandemia e apresentar bom desenvolvimento econômico e social. O Poder Público brasileiro vive uma situação de heteronomia e a sociedade civil desorganizada está carente de autonomia.

Uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário (CEPEDISA) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) e a Conectas Direitos Humanos, divulgada dia 21 de janeiro, realizou um Mapeamento e Análise das Normas Jurídicas de Resposta à Covid-19 no Brasil e chegou à seguinte conclusão: “Nossa pesquisa revelou a existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo Governo brasileiro sob a liderança da Presidência da República”.

De fato, o mundo passa por uma emergência sanitária e também por uma emergência climática e ambiental e, nestas duas áreas, o governo brasileiro – composto por pessoas treinadas nas táticas de guerra e destruição – tem adotado ações práticas que podem ser definidas como uma espécie de necropolítica, como mostramos no Diário da Covid-19, “Governo implanta o Necroceno no Brasil”, aqui no #Colabora, em 07/06/2020.

Pela primeira vez em mais de um século o Brasil terá redução da esperança de vida ao nascer em 2020, ano que também foi o pior período de 12 meses da pior década perdida (2011-20) da história brasileira. Seria um desastre ainda maior se algo parecido ocorresse em 2021. Não dá para continuar neste rumo. É intolerável imaginar a continuidade dos mesmos erros e da mesma incompetência. É preciso mudar. Os Estados Unidos que passaram por problemas diferentes, mas não menos desafiadores, conseguiram virar a página e estão vislumbrando um horizonte de mais esperança. As mudanças acontecem para melhor quando despertamos da letargia e vivemos os nossos sonhos acordados.

 Frase do dia 24 de janeiro de 2021

“Quando chega o dia, saímos da sombra,

em chamas e sem medo

O novo amanhecer floresce à medida que o libertamos”

Amanda Gorman no poema “The Hill We Climb”, declamado na posse de Joe Biden (20/01/21)

Referência:

ALVES, JED. Diário da Covid-19: Governo implanta o Necroceno no Brasil, # Colabora, 07/06/20

https://projetocolabora.com.br/ods3/governo-implanta-o-necroceno-no-brasil/

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professor e pesquisador independente. Currículo Lattes em http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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