Pela vida das trabalhadoras do lar

Movimento na internet reivindica dispensa remunerada das empregadas domésticas, para proteção contra o coronavírus

Por #Colabora | ods3 ods8 • Publicada em 21 de março de 2020 - 11:04 • Atualizada em 24 de março de 2020 - 10:18

Domestic worker Fabiana Barbosa de Souza, 36, washes the dishes at her house in Sampaio neighborhood, northern Rio de Janeiro, Brazil on January 23, 2019. – The working conditions of domestics in Latin America, to whom director Alfonso Cuaron pays homage in his recent movie ‘Roma’, is slowly reaching a legal framework. Whilst several countries in the region have established laws for the sector in the last decade, other simultaneous realities such as economic crises and migration, are hampering those conquests and ambitions of formality. (Photo by Mauro Pimentel / AFP)

“Mainha é diarista todo dia em uma casa diferente. Quando explodiu o lance do coronavírus, meu irmão me mandou um zap dizendo que minha mãe não queria entrar em casa pois a patroa teria dito a ela que estava com febre e que era pra ficar atenta. O que ela fez foi tomar banho de álcool em gel, por desespero de que alguém que ama em casa pudesse pegar”. A “mainha” no caso é a mãe de Yane Mendes, de Totó, no Recife. Esse é só um dos muitos relatos contidos numa carta-manifesto criada e compartilhada na página #PelaVidaDasNossasMães, que pede a dispensa remunerada das empregadas domésticas e diaristas durante o período da pandemia.

A criadora da página é a professora e atriz Juliana França, 29 anos, moradora de Japeri, na Baixada Fluminense. Com a mãe, Catarina dos Santos, trabalhando há mais de 30 anos como doméstica e uma madrinha com 75 anos também diarista, as situações bem próximas a motivaram para a ação.

“’O medo foi um dos principais incentivos. É preciso entender o processo estrutural em que a profissão está inserida, para podermos escrever uma carta feita por filhos e filhas”. Até a finalização desse texto, a mãe de Juliana havia conseguido ficar em casa; já a madrinha (75 anos, lembre-se) não teve a liberação dos patrões.

Com a ajuda da produtora Adrielle Vieira, moradora de Austin, também na Baixada, a mobilização começou a ganhar corpo. A adesão foi tamanha que motivou a criação de um grupo no Whatsapp com pessoas de diversos locais do país. ”São mais  de 70 pessoas criando coletivamente. Ficamos 48 horas escrevendo, e agora gerando conteúdo a partir dos relatos que estamos recebendo no site e também nas redes. Todo o trabalho é horizontal”, ensina Juliana.

Ela é “como se fosse da família”, “uma segunda mãe”

No Brasil de 2020, em pleno período de pandemia, tornou-se muito mais conveniente ser empático com a personagem Lurdes, interpretada por Regina Casé na novela “Amor de Mãe”, da TV Globo do que para aquelas que estão nas casas de verdade, exercendo a velha dupla jornada: acorda, pega uma, duas ou até mais conduções; serve, diariamente, o café em casa e na casa dos patrões; arruma, diariamente, a própria casa e a dos patrões. As noções de empatia parecem se perder no labirinto de pensamento e ações.

É mais um retrato da desigualdade. No país onde o ministro da Economia, Paulo Guedes, acredita que essas mulheres vão à Disney com facilidade, a elas também é imputada a vulnerabilidade diante de um vírus que atinge a população em escala geométrica. O que sobra para os trabalhadores domésticos é a precarização, como constatou a jornalista Flávia Oliveira em artigo n’o Globo.

É preciso entender o processo estrutural em que a profissão está inserida, para podermos escrever uma carta feita por filhos e filhas

Juliana França
Professora, atriz e filha de empregada doméstica

No Rio, a primeira morte confirmada por coronavírus foi justamente a de uma empregada doméstica com 63 anos, hipertensa e diabética. Os primeiros sintomas de que estava com o Covid-19 foram perceptíveis no último domingo, quando foi à unidade de saúde de Miguel Pereira, no Sul Fluminense, para ser atendida. O quadro teve agravamento no dia seguinte (terça), quando o material do exame seria levado para o laboratório.

Juliana, com a mãe na sua formatura: primeira da família a cursar universidade. Foto do arquivo pessoal
Juliana, com a mãe na sua formatura: primeira da família a cursar universidade. Foto do arquivo pessoal

Depois da morte, a família da trabalhadora doméstica passou a sofrer preconceito na cidade, sendo impedida até de ir ao mercado, comprar comida. Com a patroa, não há informações de qualquer contratempo.

As empregadas e diaristas – além de jardineiros e caseiros – representam 6,3 milhões de trabalhadores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, o IBGE. Trabalhadores ativos e que fazem a roda da economia girar. Todos os dias. Desse total, 1,5 milhão de pessoas trabalham com carteira assinada; 2,3 milhões sem, e 2,5 milhões são diaristas. A vulnerabilidade parece estar servida na mesa dessas pessoas.

Mas alguns bons exemplos estão surgindo de todos as regiões do país durante essa quarentena. É o que testemunha a diarista Raquel Fernandes, de 41 anos e moradora de Queimados, também na Baixada. A empregadora dela manteve o pagamento da diária e a liberou para ficar em casa. Solidariedade e empatia funcionam dos dois lados – e Raquel dá um minicurso de culinária, via Whatsapp, para a própria patroa. “Foi uma experiência totalmente nova pra mim. Pude ajudar e ela me ajudou, mantendo minha diária. Até brinquei que se desse certo, cozinharia do meu sofá em casa e ela no telefone”’, graceja, pedindo que a atitude seja replicado por mais pessoas. “Seria bom se todos empregadores tivessem essa visão e também condições para fazer isso. Que tivessem um relacionamento de ajuda via celular ou mesmo que pagassem o transporte para as pessoas irem ao trabalho sem aglomeração”, sugere.

O analista de mídias sociais Carlos Alberto Ferreira, que contrata semanalmente o serviço de uma diarista, decidiu, em acordo com ela, pela dispensa remunerada, para que a profissional também pudesse ficar em casa cuidando da mãe. “Tive e continuo tendo domésticas na família. Nesse momento, só lembrei delas. Quando dei a notícia à minha diarista ela ficou feliz e na hora nem acreditou, quis vir, mas não concordei”, relata Carlos, que prega nas redes sociais que amigos tenham o mesmo cuidado e carinho.

Porque empatia nunca fará mal a uma sociedade.

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