ODS 1
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Veja o que já enviamosPolarização no ritmo do samba
Ao longo da história carnavalesca, escolas de samba oscilam entre esquerda e direita, na busca permanente pela sobrevivência


O samba vai sair pela avenida mais popular de todas, para, como ano passado e ano que vem, sedimentar tendências, revolucionar estéticas, semear reflexões, multiplicar emoções. Vai revelar histórias e personagens, desvendar talentos, encantar multidões próximas e distantes, exibir a arte mais exuberante, que conjuga ritmo e beleza, música e força, dança e resiliência.
Terá tudo isso – e muita política.
Leu essa? Fábulas femininas de Carnaval
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Sim, escolas de samba tratam, desde o início, da sociedade na qual estão inseridas. Os enredos refletem momentos do Brasil como quase nenhuma outra manifestação cultural. O Carnaval pode ser muita coisa, jamais de ópio do povo ou festa alienada, como rotula certo tipo de preconceituoso. Até devido à eterna luta pela própria sobrevivência, os bambas mantiveram-se conectados aos variados momentos – e os muitos solavancos – da política nacional.
Do mesmo jeito que a Passarela parece reta a olho nu, mas tem curvas, mistérios e arapucas, as escolas percorreram, ao longo da sua trajetória secular, todo o espectro ideológico brasileiro. Semana que vem, o desfile das grandes escolas de samba, em sua 93ª edição, apresentará contundente conjunto de temas progressistas. O conservadorismo não passa nem perto da avenida – ainda bem.
O mais incendiário dos temas está com a caçula do babado. A pequenina Acadêmicos de Niterói estreia no Grupo Especial com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Uma homenagem ao presidente – e candidato à reeleição –, com direito ao refrão “Olê, olê, olê, olá/ Vai passar nessa avenida mais um samba popular/ Olê, olê, olê, olá/ Lula, Lula”, pondo tempero de comício ao desfile. E a azul e branco recém-chegada da Série Ouro (a segunda divisão) ainda se permite bater doído no antípoda da vez: “Sem mitos falsos, sem anistia”, está lá. Consta que a escola trará alegorias zombando do presidiário Jair Bolsonaro e, claro, começou o bafafá com Justiça Eleitoral, oposição gemendo, o baile todo. Entra a polariza, esvai-se a sutileza.
Mas nem sempre foi assim. Escola de samba, no diagnóstico imbatível do grande Luiz Antonio Simas, vive nas frestas, dribla as adversidades com ginga de passista e sustenta a própria existência APESAR do país racista e excludente no qual (sobre)vive. Assim toca a bamba, desde sempre – e para sempre.
A coluna listou uma dúzia de exemplos da complexidade do pensamento e dos momentos históricos na odisseia do paticumbum. A eles, em ordem cronológica, para tentar evitar reclamações (e fracassar):
1.
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Essa brisa que a juventude afaga
Esta chama que o ódio não apaga
Pelo universo é a evolução
Em sua legítima razão
Samba, oh samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade
“Heróis da liberdade”, Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira. Império Serrano, 1969
Em 1969, nem a vigência do AI-5 subjugou o Império nos seus preceitos democráticos. A escola nascida no primeiro sindicato do Brasil (dos estivadores do porto carioca) encarou a ditadura e, no mais belo samba-enredo de todos os carnavais, clamou por liberdade. Padeceu com a censura, que obrigou a mudar o verso “É a revolução em sua legítima razão” (virou “evolução”), mas levou sua obra-prima ao desfile na Candelária.
2.
No céu azul de anil
Orgulho do Brasil
Nossos pássaros de aço
Deixam o povo feliz
Ninguém segura mais este país
Busquei na minha imaginação
A mais sublime inspiração
Para exaltar
Aqueles que deram asas ao Brasil
Para no espaço ingressar
Ligando corações
O Correio Aéreo Nacional
Atravessando fronteiras
Cruzando todo o continente
“Os modernos bandeirantes”, de Darcy da Mangueira, Hélio Turco e Jurandir. Mangueira, 1971
A Estação Primeira exaltou sem constrangimento a Aeronáutica, com a tortura e outros crimes de estado espalhados pelos porões das Forças Armadas. Ainda usou, no título do enredo, a súcia que espalhou violência pelos rincões do Brasil.
3.
Da passarela conhecer
A ideia do artista
Imaginando o que vai acontecer
No Brasil no ano dois mil
Quem viver verá
Nossa terra diferente
A ordem do progresso
Empurra o Brasil pra frente
Com a miscigenação de várias raças
Somos um país promissor
“Brasil do ano 2000”, de Walter de Oliveira e João Rosa. Beija-Flor, 1974.
O então modesto grêmio da Baixada, na pré-Joãosinho Trinta, saudou a ditadura numa trilogia sempre lembrada por seus muitos críticos. O acima assinado, certa vez, perguntou ao patrono Anísio Abraão David por que a escola tinha feito tais enredos. “Ora, e por que não? O povo era feliz, todo mundo tinha emprego e segurança”, respondeu ele – referendando, involuntariamente, o mal terrível que a censura fez ao Brasil.
4.
A musa do poeta e a lira do compositor
Estão aqui de novo convocando o povo
Para entoar um poema de amor
Brasil, Brasil, avante meu Brasil
Vem participar do festival…
Que a Mocidade Independente
Apresenta nesse Carnaval…
De peito aberto
É que eu falo ao mundo inteiro
Eu me orgulho de ser brasileiro!
O descobrimento do Brasil, de Toco e Djalma Crill, Mocidade Independente, 1979
Sob comando de Castor de Andrade, o banqueiro do bicho que enxergou o soft power do Carnaval, ganhou seu primeiro título na elite da folia com desavergonhada glorificação do regime militar. Superou a Portela do desfile “Incrível, fantástico, extraordinário”, consagrado pela crítica como o melhor do ano.
5.
Diretamente, o povo escolhia o presidente,
Se comia mais feijão,
Vovó botava a poupança no colchão
Hoje está tudo mudado,
Tem muita gente no lugar errado…
“…E por falar em saudade”, de Almir Araújo, Marquinhos Lessa, Hércules Corrêa, Balinha e Carlinhos de Pilares, Caprichosos de Pilares, 1985
No primeiro desfile após a ditadura militar, a Caprichosos de Pilares levou o grito por eleições diretas para o altar dos bambas, numa crítica bem-humorada à política nacional. O enredo, de Luiz Fernando Reis (com Flávio Tavares), cativou o público pela ácida crítica também à patética moral conservadora. Entrou para o panteão dos grandes desfiles da história.
6.
Quero o nosso povo bem nutrido
O país desenvolvido
Quero paz e moradia
Chega de ganhar tão pouco
Chega de sufoco e de covardia
Me dá, me dá
Me dá o que é meu
Foram vinte anos que alguém comeu
Quero me formar bem informado
E meu filho bem letrado
Ser um grande bacharel
Se por acaso alguma dor
Que o doutor seja doutor
E não passe de bedel
“Eu quero”, de Aluisio Machado, Luiz Carlos do Cavaco e Jorge Nóbrega
Coerência, o outro nome do Império Serrano! A escola da Serrinha celebrou a redemocratização reivindicando avanços sociais tão óbvios como inatingíveis ao povo vulnerável das favelas e periferias. O samba é outra obra-prima da verde e branca, colecionadora de preciosidades musicais.
7.
Será…
Que já raiou a liberdade
Ou se foi tudo ilusão
Será…
Que a Lei Áurea tão sonhada
Há tanto tempo assinada
Não foi o fim da escravidão
Hoje dentro da realidade
Onde está a liberdade
Onde está que ninguém viu
Moço
Não se esqueça que o negro também construiu
As riquezas de nosso Brasil
Pergunte ao Criador
Quem pintou esta aquarela
Livre do açoite da senzala
Preso na miséria da favela
“Cem anos de liberdade… Realidade ou ilusão”, de Alvinho, Hélio Turco e Jurandir. Mangueira, 1988
Com um samba de antologia, a Mangueira brilhou no desfile temático, do centenário da Abolição, narrando sem retoques a tragédia do racismo que aprisiona o povo preto. O hino venceu o Estandarte de Ouro – superando o igualmente magistral “Kizomba”, da campeã Vila Isabel.
8.
A imigração floriu
De cultura o Brasil
A música encanta e povo canta assim
Pra Isabel, a heroína
Que assinou a lei divina
Negro dançou, comemorou
O fim da sina
“Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, de Niltinho Tristeza, Preto Joia, Vicentinho e Jurandir. Imperatriz Leopoldinense, 1989.
Somente um ano após a torrente de questionamentos à história oficial da Abolição, a Imperatriz passou com samba inegavelmente bonito, mas que envelheceu mal, ao dar protagonismo de “heroína” à Princesa Isabel pela libertação dos escravizados. De qualquer maneira, a verde e branco de Ramos realizou desfile tecnicamente impecável, que rendeu-lhe o título. Mas o resultado passou à história por deixar em segundo a Beija-Flor e seu “Ratos e urubus, larguem minha fantasia!”, a obra-prima de Joãosinho Trinta e Laíla, consagrado como maior desfile de todos os tempos.
9.
Acordei o campo pra haver justiça
Com o futuro santo, fé nos ideais
Despertei o povo para um novo dia
Brotou esperança nos canaviais
Com ternura me chamavam Pai Arraia
Onde os arrecifes desenham a praia
Um sentimento no coração, no pensamento, soluções reais
Liberdade se conquista com educação
Juntei os artistas e intelectuais
Pra fazer a cartilha no cordel
Ensinar, abraçar a profissão
Buscando na arte a inspiração
“Memórias do ‘Pai Arraia’ – um sonho pernambucano, um legado brasileiro!”, de Martinho da Vila, André Diniz, Mart’nália, Arlindo Cruz e Leonel. Vila Isabel, 2016.
Um dos mais progressistas homens públicos da história brasileira, Miguel Arraes ganhou, em seu centenário, merecida homenagem da Vila Isabel, com samba espetacular (e subestimado). A escola, aliás, ostenta potente coleção de enredos à esquerda, influência de seu presidente de honra, o genial Martinho da Vila. Mas num plot twist de que só o Carnaval é capaz, acontece tudo com aval do patrono, o Capitão Guimarães – aquele mesmo!
10.
Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
“Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, de Di Menor BF, Kiraizinho, Diego Oliveira, Bakaninha Beija Flor, JJ Santos, Julio Assis e Diogo Rosa. Beija-Flor, 2018.
A Deusa da Passarela ganhou mais um Carnaval com samba que eletrizou a Sapucaí e divide opiniões até hoje. Ao tratar da corrupção em pleno lavajatismo, acabou associado à extrema-direita que emergia no Brasil – e levaria à trágica eleição de Jair Bolsonaro. A escola apresentou carros alegóricos de estética criticada, propositalmente árida; um deles reproduzia a antiga sede da Petrobras com ratos gigantes subindo por todos os lados. Num prenúncio do que se abateria sobre o país, o arrastão do público atrás da azul e branco foi dos maiores da história.
11.
Desfila o chumbo da autocracia
A demagogia em setembro a marchar
Aos “renegados” barriga vazia
Progresso agracia quem tem pra bancar
Ordem é o mito do descaso
Que desconheço desde os tempos de Cabral
A lida, um canto, o direito
Por aqui o preconceito tem conceito estrutural
Pela mátria soberana, eis o povo no poder
São Marias e Joanas, os brasis
Que eu quero ter
Deixa Nilópolis cantar!!!
Pela nossa independência, por cultura popular
Ô abram alas ao cordão dos excluídos
Que vão à luta e matam seus dragões
Além dos carnavais, o samba é que me faz
Subversivo Beija-Flor das multidões
Brava gente, o grito dos excluídos no bicentenário da Independência, de Léo do Piso, Beto Nega, Manolo, Diego Oliveira, Julio Assis e Diogo Rosa, Beija-Flor, 2023.
A mesma Beija-Flor consumou a mais acrobática cambalhota política da história carnavalesca, ao sair da louvação à ditadura dos anos 1970 para o radical manifesto do Carnaval de 2023. Autocracia, mito do descaso, cordão dos excluídos, subversivo Beija-Flor das multidões – está tudo no samba superquestionador cantado pela mítica comunidade nilopolitana Passarela afora. A escola, aliás, inaugurou as homenagens a Lula, em 2003, com uma escultura gigante do homem, no desfile sobre a fome e o samba que pregava: “Pare com essa ganância/ Pois a tolerância/ Pode se acabar”.
12.
Essa luz que brilha em mim
E habita a Portela
Tal a história de Mahin
Liberdade se rebela
Nasci quilombo e cresci favela
(…)
Saravá, Kehinde
Teu nome vive
Teu povo é livre
Teu filho venceu, mulher
“Um defeito de cor”, de Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Wanderley Monteiro, Jefferson Oliveira, Hélio Porto, Bira e André Do Posto 7. Portela, 2024.
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Nossa mais tradicional escola de samba, a centenária Portela foi à luta nos primórdios da festa, em 1938 – ditadura do Estado Novo bombando –, com “Democracia no samba”. O grande inventor da festa, Paulo da Portela, criou o enredo, foi o carnavalesco e ainda compôs o samba, do qual, infelizmente, não restam registros. Mas a semente floresceu e, 84 carnavais depois, em 2024 (o calendário da folia tem diferenças em relação ao da vida real), o grêmio da águia desfilou com “Um defeito de cor”, releitura de André Rodrigues e Antônio Gonzaga do best-seller homônimo, de Ana Maria Gonçalves. Um libelo antirracista, que exalta as conquistas do povo negro.












































