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Aplicativo ajuda 120 mil pessoas a verem melhor

‘Be my eyes’ incentiva 2 milhões de voluntários no mundo a ‘emprestarem’ os olhos para quem precisa


Hans Wiberg, inventor do aplicativo 'Be my eyes', que permite ‘emprestar’ nossos olhos para pessoas cegas ou com baixa visão. Foto Divulgação
Hans Wiberg, inventor do aplicativo ‘Be my eyes’, que permite ‘emprestar’ nossos olhos para pessoas cegas ou com baixa visão. Foto Divulgação

Feche os olhos por um instante e veja como fazer pequenas coisas vira um grande desafio. Esta é uma simples amostra do dia a dia de 36 milhões de pessoas cegas ou de até 1,3 bilhão de pessoas que têm alguma dificuldade para ver, segundo dados globais da Organização Mundial da Saúde. Um deles é Hans Jørgen Wiberg, um artesão e visionário dinamarquês criador de aplicativos. Quando começou a ter problemas para enxergar, ele tinha 25 anos e trabalhava na fazenda da família. Ao procurar assistência médica, foi diagnosticado com retinite pigmentosa, uma doença genética rara que causa a perda progressiva da visão. Hoje, Hans enxerga muito pouco – exatamente 5 graus, enquanto o campo visual comum costuma ter 180 graus.

Existe muita tecnologia mundo afora. A parte difícil é colocá-la nas mãos das pessoas cegas ou com baixa visão

Hans Wiberg

Conversando sobre suas dificuldades para lidar com as tarefas diárias, um amigo cego contou que estava usando videochamadas no telefone celular para receber ajuda de parentes. Foi aí que Hans pensou no “Be my eyes”, um aplicativo que conecta pessoas cegas ou com baixa visão e voluntários dispostos a ajudá-los por esse mesmo tipo de ligação. Em 2012, ele foi a um evento de startups onde qualquer pessoa pode apresentar uma ideia que não sabe exatamente como executar. A partir de então uma equipe de programadores interessados ajudou Hans a transformar o “Be my eyes” em realidade.

“Eu estava impressionado com tudo o que se pode fazer com um aplicativo e sobre como eles podem ser inovadores e variados. Eu sentia que haveria espaço para um que fosse feito para ajudar pessoas com problemas de visão”, diz. Se existiam aplicativos para emprestar objetos, Hans queria um em que pudéssemos emprestar nossos olhos para pessoas cegas ou com baixa visão. Daí o nome “Be my eyes”, ‘seja meus olhos’.

O “Be my eyes” está disponível gratuitamente desde 2015, e só nas primeiras 24 horas ganhou mais de 10 mil usuários. Atualmente, são mais de 120 mil pessoas recebendo a ajuda de quase 2 milhões de voluntários em mais de 150 países. No Brasil, 10 mil pessoas com problemas de visão e 275 mil voluntários também usam o aplicativo.

O “Be my eyes” está disponível gratuitamente desde 2015, e só nas primeiras 24 horas ganhou mais de 10 mil usuários. Foto Divulgação
O “Be my eyes” está disponível gratuitamente desde 2015, e só nas primeiras 24 horas ganhou mais de 10 mil usuários. Foto Divulgação

Hans conversou com o #Colabora sobre como a tecnologia está abrindo um mundo novo de possibilidades para as pessoas com deficiência – e, claro, sobre como o “Be my eyes” faz parte disso.

Projeto #Colabora – Hans, algumas vezes as pessoas que enxergam não vêem o que se passa com as pessoas cegas ou com baixa visão. Para ser honesto, eu não sabia que eles usavam celulares. Quando eu descobri o “Be my eyes”, me perguntei: “Como é possível, se nós precisamos tocar a tela para usar o telefone?” Mas a pergunta importante aqui é: O que mais sobre o uso de celulares e da tecnologia como um todo por essas pessoas está acontecendo e nós não estamos vendo? Existe um boom de aplicativos como Be my eyes?

Hans Jørgen Wiberg – Eu não sei se é certo dizer que existe um boom, mas nós temos visto algumas coisas maravilhosas como um aplicativo que pode mudar o texto escrito por falado. Poucos anos atrás, esse era um equipamento muito, muito caro que só algumas poucas pessoas cegas tinham acesso. Agora, é um aplicativo gratuito disponível no celular. As novas câmeras dos telefones também são tão boas que podem detectar textos ao nosso redor. Assim, quando você aponta seu telefone em alguma direção, ele começa a ler qualquer que texto que apareça no caminho.Tem mais. Há alguns anos dificilmente havia uma pessoa cega usando o Facebook. Agora está muito mais acessível e fácil de usar. Então, você encontra várias pessoas com problemas de visão usando o Facebook e participando de grupos específicos onde trocamos dicas e truques ou ainda conversamos sobre como é ser cego ou ter baixa visão em países diferentes. Tem também um número grande de podcasts produzidos por pessoas cegas muito talentosas. Afinal, como você pode imaginar, podcast é a mídia perfeita para quem não pode ver.

#Colabora – Hans, tudo isso é fascinante e me trouxe uma perspectiva inteiramente nova. Neste momento, em todo o mundo mais de 120 mil pessoas procuram ajuda no “Be my eyes”. O que isso diz sobre a situação das pessoas cegas ou com baixa visão? É um mal sinal de que os problemas de acessibilidade persistem? Ou é um bom sinal de que elas estão incluídas no avanço da tecnologia?

Algumas vezes, o mundo é simplesmente muito melhor do que nós pensamos ou lemos nos jornais e essa é a razão de termos tantos bons voluntários. É também porque essa é uma forma conveniente de ser um voluntário, já que você pode fazer isso do próprio telefone sem precisar ir a algum lugar específico para se voluntariar. Além disso, as chamadas costumam durar menos de três minutos. É algo como um microvoluntariado.

Hans Wiberg

Hans Jørgen Wiberg – Nós estamos extremamente orgulhosos dos nossos 120 mil usuários cegos ou com baixa visão. Mas, quando pensamos sobre isso, lembramos que existem 250 milhões de pessoas nessa condição em todo o mundo e percebemos que estamos apenas começando. Eu sou super otimista sobre a tecnologia ser uma forma, não apenas para pessoas cegas, como também para aquelas que têm outras deficiências, serem mais incluídas na sociedade. Eu sou fascinado com o que podemos fazer com uma tecnologia como o smartphone no nosso bolso. No entanto, eu também estou inteiramente consciente de que um grupo enorme de pessoas cegas não têm acesso a telefones celulares, nem se sentem confiantes para usar a tecnologia em seu próprio benefício. Ao mesmo tempo, bem pouco tempo atrás, eu recebi um e-mail de uma senhora de 86 anos me contando que ela estava ajudando uma amiga a se inscrever no “Be my eyes” e isso me dá esperança de alcançar grande parte das pessoas cegas ou com baixa visão nos próximos anos.

#Colabora – E quais são os pedidos de ajuda mais frequentes no “Be my eyes”?

Hans Jørgen Wiberg – A maioria das chamadas no “Be my eyes” vêm da cozinha. Todos nós precisamos comer algo e, é claro, queremos saber o que é. Com a ajuda dos voluntários, pessoas cegas também podem cozinhar sua própria comida e estar mais certas de qual será o resultado do que seria possível sem utilizarem o “Be my eyes”. Outros pedidos frequentes são ajudas com o computador, quando, por exemplo, precisam saber o que está na tela. Além disso, você pode imaginar que é difícil ajustar o ar condicionado ou o termostato de casa; enfim, coisas que parecem simples, mas são muito importantes.Tem também muitos pedidos de ajuda para encontrar coisas que caíram no chão e se perderam ou para andar por novos espaços, como, por exemplo, um bairro novo para o qual essa pessoa acabou de se mudar.

#Colabora – O número de voluntários no aplicativo – cerca de 2 milhões de pessoas – chama muita atenção. Como você explica tanto engajamento?

Hans Jørgen Wiberg – Algumas vezes, o mundo é simplesmente muito melhor do que nós pensamos ou lemos nos jornais e essa é a razão de termos tantos bons voluntários. É também porque essa é uma forma conveniente de ser um voluntário, já que você pode fazer isso do próprio telefone sem precisar ir a algum lugar específico para se voluntariar. Além disso, as chamadas costumam durar menos de três minutos. É algo como um microvoluntariado.

#Colabora – Como você disse no início da entrevista, “Be my eyes” não está sozinho. Já existem outros aplicativos e equipamentos que ajudam pessoas com problemas de visão. Então, como você imagina que a tecnologia vai estar presente na vida delas no futuro?

 Hans Jørgen Wiberg – A tecnologia é realmente fascinante e eu acredito que só estamos começando a ver o seu início. Mas, eu também devo dizer que no que diz respeito à autonomia dessas pessoas, a coisa mais importante que se pode fazer enquanto uma pessoa cega é aprender habilidades básicas, aprender a usar o bastão ou bengala, aprender a ler Braille e tentar o máximo que puder ser atuante onde vive. Dito isso, você também pode se beneficiar muito do uso da tecnologia, inclusive para ter um emprego.Na comunidade cega, nós estamos lutando muito para tornar a tecnologia acessível a todos. Mas, ela também tem que ser acessível de um ponto de vista financeiro, porque não importa se você sabe usar a tecnologia, se não puder comprá-la por causa do preço. Existe muita tecnologia mundo afora. A parte difícil é colocá-la nas mãos das pessoas cegas ou com baixa visão. O Be my eyes é gratuito porque é nosso objetivo ajudar pessoas cegas em todo o mundo, e me deixa muito feliz ver que nós temos mais e mais usuários na Índia e em países da África. E se todas as pessoas no mundo forem boas como os brasileiros são, nós poderemos atingir esse objetivo. Na verdade, o Brasil é realmente um país especial para nós. Temos cerca de 10 mil pessoas cegas e 275 mil voluntários usando o aplicativo. Nós não sabemos se eles são ricos ou pobres, qual a orientação política ou sexual deles. Não nos importamos com isso. Tudo gira em torno de emprestar – ou de ser – os olhos de outra pessoa.

E se, assim como eu, você se perguntou como pessoas cegas usam smartphones, isso acontece por meio de um recurso de acessibilidade chamado VoiceOver no Iphone e TalkBack no Android. Esse recurso permite que pessoas com deficiência visual usem o telefone com uma fala sintética e interface baseada em toque. Usando esses serviços, as pessoas cegas e de baixa visão podem fazer chamadas, enviar mensagens, navegar em mídias sociais e usar aplicativos como “Be my eyes”.


Escrito por Davi Bonela

É pesquisador de futuros possíveis no Museu do Amanhã. Também já trabalhou na Fundação Oswaldo Cruz, Academia Brasileira de Ciências e em outras instituições comunicando a contribuição da ciência e da tecnologia para compreensão e solução dos desafios globais.
E-mail: davibonela@gmail.com

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