A origem do eu, do aqui e do agora

Para entender as mazelas da sociedade contemporânea em 6 tópicos

Por Adriana Barsotti | ods17 • Publicada em 23 de novembro de 2015 - 08:00 • Atualizada em 24 de novembro de 2015 - 17:57

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Pergunte a qualquer um quais são os males da sociedade ocidental contemporânea e inevitavelmente a reposta incluirá o individualismo ( o eu), o imediatismo (o agora) e os sectarismos geopolíticos (o aqui). Na TV, no rádio, em páginas de jornais, revistas e na internet, a manifestação do eu é constante. Consumimos detalhes da vida íntima de celebridades, mas também de gente como a gente nos reality shows. Youtubers despejam seus diários sentimentais na rede e conquistam centenas de milhares de seguidores. O testemunho – “eu vi”, “eu estava lá” – é celebrado por meio das telas de smartphones de milhões de cidadãos espalhados por todo o mundo à espreita do próximo flagrante.

Transmissões ao vivo e o tempo real na internet (o agora) simulam a sincronização entre fato e relato, abreviando cada vez mais nossa percepção da passagem do tempo. Tratamentos anti-envelhecimento, cirurgias plásticas e intervenções médicas esticam a juventude, alargando nosso tempo presente. Mastectomias preventivas, como a que se submeteu a atriz Angelina Jolie, procuram eliminar possíveis riscos futuros. O futuro nos parece algo assustador e fazemos de tudo para evitá-lo.

O mundo, aquele tão sectário na vida real, nos parece familiar e amigável no provincianismo de nossas redes

A foto do menino refugiado sírio Aylan Kurdi, de apenas três anos, morto num naufrágio a caminho da Grécia, é sintomática de como levamos às últimas consequências o nosso apreço pelo terceiro valor que marca o estilo contemporâneo: o aqui. Muros erguidos por países europeus são emblemáticos de nossos sectarismos regionais. Crises como a migratória na Europa denunciam nosso olhar treinado para o próprio umbigo e nosso horror ao outro. Mas ele está muito mais enraizado em nossas vidas cotidianas do que supomos.

Da função “perto de você” em nossos smartphones aos posts geolocalizados nas redes sociais, consumimos e desejamos o que está próximo e temos aversão ao distante. Não apenas geograficamente, mas psicologicamente. Bloqueamos quem não pensa como nós no Facebook. Mas não estamos sozinhos nessa tarefa de evitar o outro. Algoritmos nos ajudam nesta nem sempre visível empreitada, ocultando no nosso feed de notícias os posts de pessoas com as quais não interagimos com frequência. O Google nos apresenta resultados de busca segundo nossas próprias preferências, como demonstrou Eli Parisier no livro “O filtro invisível”. Resultado: o mundo, aquele tão sectário na vida real, nos parece familiar e amigável no provincianismo de nossas redes.

Mas todos esses são sintomas do estilo de vida contemporâneo ao qual muitos aderem e outros criticam. Nosso erro, entretanto, é acreditar que eles são um fenômeno recente. Tais valores vêm sendo gestados há mais de três séculos na sociedade ocidental.  Foram conceitos trazidos pelo capitalismo e que encontraram terreno fértil para o seu florescimento dentro do espírito do novo sistema, que surgiu na Idade Moderna, após o fim da Idade Média. Nos parágrafos seguintes, vou me ater a apenas um deles: a individualidade (o eu).

O ilusionista, de Hieronymus Bosch
O ilusionista, de Hieronymus Bosch

1 – Se nasceu camponês, vai morrer camponês – Na Idade Média, pareceria bizarro alguém afirmar algo como “preciso construir minha identidade”, tão banal nos dias de hoje. Não havia o conceito de mobilidade social. Portanto, quem nascia nobre já tinha sua identidade traçada desde o berço. Assim como o camponês, que não podia almejar um dia “subir na vida e ser alguém”. Ou um monge trocar o hábito pela “simplicidade da vida camponesa”.  A possibilidade de enriquecer e de trocar de classe só foi possível com a ascensão da burguesia a partir do momento em que o regime feudal entra em crise e a vida passa a se deslocar do campo para os antepassados das cidades, os burgos. Aos poucos, a rígida hierarquia social vai sendo quebrada no novo sistema, que permite a troca de classes a partir dos bens que cada um acumula.

O nascimento de Venus, de Botticelli: obra foi a primeira a se afastar do cristianismo
O nascimento de Venus, de Botticelli: obra teria sido a primeira a se afastar do cristianismo

2 – Fé no homem – O conceito contemporâneo do self made man se apóia no surgimento da fé secular, que traz a ideia de que o homem é dono de seu próprio destino. Cabe a ele a tarefa de traçar seu caminho, pois ele já não é mais herdado do berço.  A Reforma (século XVI) contribuiu para a criação do conceito de indivíduo soberano, ao defender que a relação entre homem e Deus deveria ser direta, e não intermediada pela Igreja. O determinismo divino, que tudo explicava, é substituído pela racionalidade humana. O Renascimento reforçou a exaltação do sujeito ao colocar o homem no centro do universo. O Iluminismo (século XVIII), por sua vez, com a célebre frase de Descartes – “Penso, logo existo” – consolidou o pensamento racional da época. Os homens passaram a crer que cada acontecimento de suas vidas precisava ter uma significação na medida em que revelavam quem eram eles, ou seja, suas identidades. A cultura capitalista contribui para essa ideia. A mistificação das mercadorias leva à crença de que os objetos estão investidos com atributos da personalidade humana.  “Por volta de 1891, possuir o vestido certo leva uma mulher a sentir-se casta ou sexy”, observa Richad Sennett em seu clássico “O Declínio do homem público. Um século antes, o teórico nos conta que um vestido servia apenas para marcar a posição que alguém ocupava na hierarquia social, não tinham o “poder” de transmitir como alguém se sentia.

Quarto de Lady Georgiana no Castelo Howard, York, no Reino Unido
Quarto de Lady Georgiana no Castelo Howard, York, no Reino Unido

3 – No escuro do meu quarto – Enquanto a ideologia da individualidade encontrava eco nos grandes movimentos como a Reforma, o Renascimento e o Iluminismo, ela também se manifestava no microuniverso da sociedade: a casa burguesa. Até o século XVII, os quartos de dormir eram também corredores de passagem, como conta Alberto Manguel no livro “Uma história da Leitura. Somente no século XVIII tais aposentos começam a incorporar a noção de privacidade. Mas o quarto ainda não era um local totalmente privado. As damas costumavam receber visitantes deitadas em suas camas, embora totalmente vestidas. Um século depois, entretanto, a noção de intimidade do quarto já está consolidada como provam as palavras da romancista americana Edith Wharton, para quem o aposento era um refúgio do formalismo do século XIX, onde ela podia “escrever à vontade, livre dos espartilhos”.

Ilustração de jovem escrevendo uma carta
Ilustração de jovem escrevendo uma carta

4 – Relatos da alma – É na privacidade desses quartos que se desenvolve o hábito de se escrever diários íntimos e cartas. Dono de seu destino, cabe ao homem a tarefa de construir a si mesmo. No jargão da época, as cartas eram consideradas “escritos da alma”: por intermédio delas os sujeitos poderiam dar vazão à sua libertação psicológica. A sociedade burguesa, que já garantira sua emancipação econômica por meio do livre mercado, volta-se então para a libertação de seu íntimo, cultivado dentro da esfera familiar. Entretanto, a exploração do interior é, desde o início, ligada à sua exposição em público (hoje cada vez mais comum, vide os youtubers). Cartas eram copiadas e emprestadas e dizia-se que as bem redigidas eram “boas para serem impressas”, afirma Habermas no livro “Mudança estrutural da esfera pública”. O romance burguês, que descreve à exaustão o íntimo dos personagens, torna-se o gênero típico da época, tendo “Madame Bovary, de Flaubert, como símbolo. Por intermédio dele, “a subjetividade oriunda da intimidade pequeno-familiar se comunica consigo mesma para se entender a si própria”, afirma Habermas.

Capa do jornal Action, junho de 68
Capa do jornal Action, junho de 68

5 – A palavra é nossa – Mas por que segredos e confissões cultivados entre quatro paredes até a metade do século passado hoje são despejados nas versões digitais dos antigos diários, os blogs e vlogs, e comentados e compartilhados em múltiplas telas? O sociólogo Stuart Hall, expoente dos Estudos Culturais, nos dá uma pista. Os movimentos de maio de 1968 teriam contribuído para a manifestação pública de esferas até então privadas, como a sexualidade, a família e a divisão doméstica do trabalho, entre outras, como observa ele em “Identidade cultural na pós-modernidade”.  Os direitos da mulher, a luta pela igualdade de gêneros e a libertação sexual entram na pauta dos novos movimentos sociais dos anos 1960. Beatriz Sarlo, em “Tempo passado”também reforça essa tese ao afirmar que maio de 1968 representou uma “guinada subjetiva”, com uma “gigantesca tomada da palavra” pelo cidadão comum, cada vez mais solicitado e retratado nos meios de comunicação. Tal pensamento está estampado na capa do jornal militante “Action”, de junho de 68, reproduzida aqui: “Amanhã, a palavra será nossa”.

A vlogueira Kéfera Buchmann: mais de seis milhões de seguidores
A vlogueira Kéfera Buchmann: mais de seis milhões de seguidores

6 – O show do eu – Autor de A sociedade do espetáculo, Guy Debord previu, em 1967, traços que marcariam nossa sociedade no fim do século XX e que se tornariam ainda mais evidentes no século XXI. Vinte e um anos depois de ter escrito o livro em que apontava que o espetáculo é a maior produção da nossa sociedade, ele acrescentou, em um trabalho em que comentava sua obra, que “conspirar em causa própria é uma nova profissão em franco desenvolvimento”. A confissão – que já foi religiosa, jurídica e psicanalítica – , hoje é midiática, analisa Paula Sibilia no livro “O show do eu: a intimidade como espetáculo”. “Hoje essa tática tão eficaz brilha com novas roupagens nas telas eletrônicas da internet e da televisão, bem como nas páginas das revistas e dos jornais”, constata Sibilia. A famosa frase de Andy Warhol de que um dia todos teriam direito a 15 minutos de fama é mais atual que nunca. Não à toa a youtuber Kéfera batizou seu canal no YouTube com o nome de “5inco minutos”. Mas a fama para ela já ultrapassou “Muito mais que cinco minutos” (título da biografia que lançou na última Bienal). Seu canal tem nada menos que 6 milhões de seguidores. A previsão feita por Debord no final do século XX se confirmou: na sociedade do espetáculo, o show do eu está em cartaz.

Se você chegou até aqui, só encontrou explicações sobre a origem do culto ao eu. Nos artigos seguintes, escreverei sobre o aqui e o agora.

 

Adriana Barsotti

É jornalista com experiência nas redações de O Estado de S.Paulo, IstoÉ e O Globo, onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a série de reportagens “A História Secreta da Guerrilha do Araguaia”. Pelo Projeto #Colabora, foi vencedora do Prêmio Vladimir Herzog, em 2019, na categoria multimídia, com a série "Sem Direitos: o rosto da exclusão social no Brasil", em um pool jornalístico com a Amazônia Real e a Ponte Jornalismo. Professora Adjunta do Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS), na UFF, é autora dos livros “Jornalista em mutação: do cão de guarda ao mobilizador de audiência” e "Uma história da primeira página: do grito no papel ao silêncio no jornalismo em rede". É colaboradora no #Colabora e acredita (muito!) no futuro da profissão. E-mail: [email protected]

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Um comentário em “A origem do eu, do aqui e do agora

  1. Guilherme Simão disse:

    Muito bom o artigo!

    Sobre o sentimento de angústia disseminado na sociedade contemporânea,
    recomendo a leitura do livro “Desejo de Status”, de Alain de Botton,
    lançado em 2004.

    Obrigado

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