ODS 1
Vai-Vai sob ataque após desfile denunciando violência policial e sistema carcerário


Organizações e políticos ligados às forças de segurança criticam escola de samba de São Paulo enquanto periferia escancara brutalidade da Operação Escudo


A escola de samba Vai-Vai, maior campeã do Carnaval de São Paulo, enfrenta onda de ataques e pedidos de punição após seu desfile na noite de sábado (10/02), com uma ala da escola, com a tropa de choque da Polícia Militar fantasiada como demônios. O enredo do Carnaval 2024 Vai-Vai – “Capítulo 4, Versículo 3 – da Rua e do Povo, o Hip Hop: um Manifesto Paulistano” – era uma uma homenagem aos 50 anos do hip hop e ao grupo de rap Racionais MC’s.
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A ala representava a música “Diário de um Detento”, que narra a realidade brutal do sistema carcerário e a violência policial contra a população negra, gerou reações indignadas de entidades e políticos ligados às forças de segurança. “Ao adotar tal enredo, a escola de samba, em nome do que chama de ‘arte’ e de liberdade de expressão, afronta as forças de segurança pública”, afirmou, em nota, o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp). A Associação dos Oficiais Militares da Polícia Militar do Estado de São Paulo (AOMESP) também repudiou o desfile da Vai-Vai, no que foi seguida por associações de policiais militares de outros estados, como Paraíba, Alagoas e Sergipe.
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Veja o que já enviamosO deputado federal Capitão Augusto (PL-SP) e a deputada estadual Dani Alonso (PL-SP), ligados à direita bolsonarista, chegaram a pedir o corte de verbas públicas da Vai-Vai. Em ofício ao governador Tarcísio de Freitas e ao prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, solicitam que a Vai-Vai não receba recursos públicos para o Carnaval do próximo ano. “Tal atitude não somente desrespeita a honra e a dignidade dos profissionais que dedicam suas vidas à proteção da sociedade, mas também contribui para a propagação de uma imagem negativa das forças de segurança, em um momento em que se faz mais necessário do que nunca o reconhecimento e o apoio ao seu trabalho”.
O prefeito de São Paulo decidiu enviar o ofício à Liga das Escolas de Sampa, pois administração municipal não tem contrato direto com as escolas de samba, e sim com a entidade que representa as agremiações e organiza os desfiles do Carnaval no Sambódromo. O governador Tarcísio de Freitas declarou ter achado “de péssimo gosto” o desfile da ala. “Se eu fosse jurado, daria nota zero no quesito fantasia”, afirmou o governador, ministro no governo Bolsonaro.
“Existimos. Resistimos. E seguimos fazendo carnaval!”
A Vai-Vai se defendeu dos ataques, afirmando que a ala dos policiais como demônios era uma crítica à violência policial e não à corporação como um todo. “É de conhecimento público que os precursores do movimento hip hop no Brasil eram marginalizados e tratados como vagabundos, sofrendo repressão e, sendo presos, muitas vezes, apenas por dançarem e adotarem um estilo de vestimenta considerado inadequado pra época”, afirmou a escola de samba em nota pública, lembrando que o enredo foi elogiado por entidades do movimento negro e do hip hop.
Apesar de evitar a polêmica, a Vai-Vai não fugiu do tema. “Vale ressaltar que, neste recorte histórico da década de 90, a segurança pública no estado de São Paulo era uma questão importante e latente, com índices altíssimos de mortalidade da população preta e periférica”, afirma a escola, destacando que “racismo, miséria e desigualdade social foram expostos como uma grande ferida aberta, vide Diário de um Detento, inspirada na grande chacina do Carandiru”. A Vai-Vai garante que não ter a intenção de promover qualquer tipo de provocação mas defende seu enredo e seu desfile. “Existimos. Resistimos. E seguimos fazendo carnaval!”, conclui a nota.
O rapper Mano Brown, líder dos Racionais MC’s, não comentou diretamente o assunto, mas, em suas redes sociais, comentou o desfile da Vai-Vai, ressaltando a importância de “manter no grupo de elite uma entidade que representa um povo, uma raça, história viva do Brasil, como o quilombo da Saracura” – a Vai-Vai – rebaixada em 2022 e campeã do Grupo de Acesso em 2023 – ficou em oitavo lugar em 2024 e desfilará novamente no grupo especial em 2025.
Paulo Galo, líder dos entregadores antifascistas, homenageado da ala em referência ao caso do incêndio a estátua do bandeirante Borba Gato em São Paulo, comentou em seu Instagram: “Foi um desfile polêmico assim como aqueles que Joãozinho 30 fazia. Carnaval que não toca nas feridas sociais é só purpurina por purpurina e a quarta-feira sempre chega e muitas vezes se perde para ganhar, é o jogo”.
Operação Escudo e seu rastro de mortes
A polêmica em torno do desfile da Vai-Vai acontece em um momento delicado para a Polícia Militar de São Paulo. A corporação está sob forte crítica pela recente Operação Escudo, que recebe denúncias diárias nas redes sociais por parte dos moradores das comunidades em alvo.
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Em vídeo publicado nas redes sociais na Quarta-Feira de Cinzas, moradores da comunidade de Caminhos e São José, na Baixada Santista, denunciam o momento em que um homem baleado aguarda no chão por socorro, sem ajuda dos policiais. Na postagem, os moradores protestam: “E a opressão da PM de (Guilherme) Derrite (Secretário Estadual de Segurança Pública de São Paulo) contra as comunidades prossegue. Hoje, mais um morto em incursão policial. A PM dificultando o acionamento de ambulância para socorrer outro baleado”, e denunciam um corte de luz na região por parte dos agentes de segurança.
Nesta sexta (16/02), a Defensoria Pública de São Paulo, a ONG Conecta Direitos Humanos e o Instituto Vladimir Herzog pediram atuação da Organização das Nações Unidos (ONU) e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) contra a Operação Escudo. Desde o início do ano, o governo de São Paulo tem lançado ações de reação à morte de policiais, especialmente na Baixada Santista, onde, em julho do ano passado, operação especial com o mesmo nome, provocou 28 mortes. Agora, me 2024, ao menos 26 pessoas já foram mortas pela PM na Baixada Santista somente em fevereiro.
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Guilherme Silva
Jornalista formado pela Universidade Nove de Julho. Atualmente integra o time de repórteres correspondentes da Agência Mural de Jornalismo das Periferias e foi estagiário no Canal Reload. Nascido e criado nas periferias da Zona Sul de São Paulo, é apaixonado por comunicação, histórias e explorar a cidade de bicicleta.







































