Mídias e debate público silenciam sobre relação entre violência e racismo, mostra estudo

Manifestação no Rio de Janeiro, logo após a morte de George Floyd, nos EUA (Foto: Barbara Dias / AGIF)

Rede de Observatórios da Segurança faz levantamento em cinco estados e constata que, em 7 mil notícias sobre ações policiais, apenas uma cita a palavra “negro”

Por Bernardo de la Peña | ODS 16 • Publicada em 19 de agosto de 2020 - 08:32 • Atualizada em 23 de agosto de 2020 - 16:35

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Manifestação no Rio de Janeiro, logo após a morte de George Floyd, nos EUA (Foto: Barbara Dias / AGIF)

Enquanto a taxa de homicídios entre a população brasileira em geral é de 28 por 100 mil  habitantes, esse número é mais que multiplicado por sete quando se trata jovens negros do sexo masculino, na faixa de  19 a 24 anos: os assassinatos são 200 para cada 100 mil pessoas nesse grupo, segundo o 13º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2019). Diante dessa e das muitas estatísticas comprovando que pretos e pardos são as maiores vítimas de violência no país, é surpreendente a conclusão do relatório anual Rede de Observatórios da Segurança que denuncia um profundo silêncio sobre o tema racial na mídia e no debate público. Um exemplo: de 7062 registros sobre ações policiais monitorados, houve apenas uma menção à palavra negro ou negra nas notícias analisadas. As palavras racismo e racial sequer foram mencionadas

Denominado “Racismo, o motor da violência”, o estudo acompanhou, de junho de 2019 a maio de 2020, veículos de comunicação, redes sociais, grupos de WhatsApp e usou um bot para recolher informações no Twitter em busca de menções a ocorrências de segurança pública e violência em cinco estados: Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Os pesquisadores chegaram a 12.559 registros e, aqui, mais uma vez a invisibilização do racismo chama a atenção. Apenas 50 desses eventos estão relacionados a racismo e injúria racial. A porcentagem de informações sobre cor/raça nos casos monitorados também foram poucas e só aparecem em alguns dos 16 indicadores prioritários do monitoramento:  chacinas (7,9%), violência contra a mulher (8,7%), violência contra crianças e adolescentes (15,6%), vitimização de agentes do Estado (18,3%), linchamentos e tentativas (28,3%). 

Ainda segundo o 13º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2019), mulheres negras são 61% das vítimas de feminicídio. Apesar disso, nas 1.314 ocorrências de violências contra mulheres, como feminicídios, agressões físicas e violência sexual, monitoradas pela rede, são raras as referências a raça ou cor das vítimas. 

 Diante desses números, os pesquisadores reforçam, no relatório, a urgência de que o debate sobre o racismo seja transversal e estrutural em toda discussão sobre violência e segurança pública. “Reconhecemos que nós, instituições de pesquisa deste campo, muitas vezes deixamos de abordar o tema da raça e do racismo ou não o tratamos com a primazia necessária. Não podemos mais aludir ao racismo como um assunto periférico, uma informação a mais. A discussão racial não deve ser posta em segundo plano como uma problemática a ser tratada no futuro, ela também é, em si, parte do problema. O racismo é reproduzido cotidianamente, inclusive na produção de conhecimento quando a raça é marginalizada e perspectivas antirracistas são silenciadas”, eles afirmam no teto do estudo.

Apesar disso, ressalta o estudo, uma pesquisa do Instituto Locomotiva, de junho de 2020, aponta que 94% dos brasileiros reconhecem que pessoas negras têm mais chances de serem abordadas de forma violenta e mortas pela polícia e que a maioria das operações policiais acontecem em áreas pobres, como favelas. Nas coberturas jornalísticas, no entanto, o monitoramento da Rede apontou o silêncio sobre o tema. Ao buscar termos como  “morte de jovem negro”, “racismo”, “violência racial”, não havia informações. Os pesquisadores, muitas vezes, só percebiam a “dinâmica racial” a partir das imagens. Isso tudo apesar de 75% das vítimas de violência policial no Brasil serem negras. 

“Para reduzir essa tragédia e diminuir o número de vítimas, é preciso mudar o modelo atual da  política de guerra às drogas”, afirma Dudu Ribeiro, coordenador do estudo na Bahia e um dos fundadores da ONG Iniciativa Negra por uma nova política sobre Drogas. Para o historiador, enquanto prevalecer o modelo atual da polícia entrar nas comunidades atirando, o número de vítimas vai permanecer no patamar atual. Para ele, as estratégias para evitar essa tragédia são combater as drogas por meio de prevenção e até do controle do consumo, e não apenas do enfrentamento armado dos traficantes. 

O historiador da UFBA destaca também a dificuldade de os pesquisadores encontrarem registros uniformes nos diferentes bancos de dados públicos pesquisados. “Cada estado registra as ocorrências de uma forma. A Bahia, por exemplo, precisa começar a  uniformizar os registros”, diz ele, ressaltando que registros melhores poderiam ser um primeiro passo para o poder público combater, de fato, a violência e o racismo. 

Como foi o monitoramento? 

Os dados foram reunidos através do acompanhamento diário de jornais, sites, portais noticiosos, perfis de redes sociais e grupos de WhatsApp pelos pesquisadores da Rede, entre junho de 2020 e maio de 2019. O grupo cadastrou cada evento em um formulário on-line que alimentou um banco de dados, logo revisado por um outro pesquisador. Com esse banco de dados completo e revisado, foram realizadas as  análises que constam do relatório. 

Bernardo de la Peña

Bernardo de la Peña, 44 anos,é carioca e jornalista há 25 anos. Trabalhou em "O Estado de S. Paulo" e "O Globo",  onde  ganhou dois Prêmios Esso. Escritor, já publicou dois livros: "O Memorial do Escândalo, livro reportagem sobre o Mensalão, e "Um Carioca  no Planalto", livro de memórias dos cinco anos que viveu  em Brasília. a maior parte do tempo cobrindo o Planalto. Adora cavalos, a ponto de se arriscar a praticar salto na Sociedade Hípica Brasileira, um de seus lugares preferidos, ao lado  apenas da fazenda da família em Secretário, distrito de Petrópolis (RJ).

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