Justiça italiana reconhece que solidariedade não é crime

Lorena e Gian Andrea, criadores da associação Linea d’Ombra que acolhe refugiados. Foto WhatsApp

Inquérito contra casal de aposentados acusado de proteger imigrantes clandestinos vindos do Oriente Médio e da Ásia Central é arquivado

Por Janaína Cesar | ODS 16 • Publicada em 24 de dezembro de 2021 - 13:20 • Atualizada em 5 de janeiro de 2022 - 10:37

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Lorena e Gian Andrea, criadores da associação Linea d’Ombra que acolhe refugiados. Foto WhatsApp

Gian Andrea Franchi e sua esposa Lorena Fornasir já podem respirar aliviados, o inquérito contra o casal de aposentados foi arquivado pelo tribunal de Bolonha no final de novembro e eles não serão mais processados por favorecimento à imigração clandestina. Os dois poderão continuar curando, diariamente, na Praça Liberdade, em frente à estação de trem de Trieste, os pés de homens, mulheres e crianças que chegam na Itália depois de atravessar a rota balcânica.

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São refugiados do Oriente Médio e de países da Ásia Central que escapam de seus países destruídos pela guerra e partem numa viagem alucinante em busca de um lugar de paz para viver na Europa.  A viagem pela rota pode durar anos. Ela começa na Grécia, corta as entranhas dos países balcânicos até chegar em solo italiano.

Lorena, 68 anos, psicoterapeuta, e seu marido Gian Andrea, 85 anos, professor de filosofia aposentado não ficaram imunes diante dos muros invisíveis construídos nos últimos anos pelo continente europeu, criaram a associação Linea d’Ombra e todos os dias, faça sol ou chuva, ocupam a Praça Liberdade, carinhosamente chamada de “praça do mundo”, para oferecer uma refeição quente, medicar os pés dos imigrantes e lhes dar um par de sapatos.

Lorena Fornasir atende um refugiado de guerra na Praça da Liberdade, em Trieste. Foto WhatsApp
Lorena Fornasir atende um refugiado de guerra na Praça da Liberdade, em Trieste. Foto WhatsApp

O inquérito contra o casal foi aberto em 2019, em Trieste, e tinha como objetivo identificar uma possível ligação entre traficantes de seres humanos e os voluntários de Linea d’Ombra. Tudo porque, em julho daquele ano, eles hospedaram uma família curdo-iraniana que tinha dois filhos e os ajudaram a chegar na Alemanha.

Inicialmente o inquérito investigava somente Gian Andrea, mas a partir do momento que Lorena foi incluída na investigação, teve de ser transferido para o Tribunal de Bolonha, uma vez que a italiana é juíza honorária do tribunal de menores de Trieste, o que causaria conflito de interesses.

Na manhã de 23 de fevereiro deste ano, o casal acordou com a polícia batendo na porta de casa. Estavam respondendo a um mandado de busca e apreensão e tiveram computador e celulares sequestrados. O magistrado responsável pelo caso em Bolonha reconheceu o caráter artificial da suposta ligação dos aposentados com uma rede de tráfico humano internacional e mandou arquivar a investigação.

“Tudo isso deixa claro o caráter político das denúncias contra ativistas solidários com os migrantes”, comentou o casal.

Entre fevereiro e março deste ano, a reportagem do #Colabora esteve na Bósnia, Croácia e Trieste para contar o drama vivido por milhares de refugiados sírios, afegãos e iraquianos que deixaram seus países destruídos pela guerra e partiram numa viagem de desespero em busca de um lugar na Europa para viver.  A reportagem especial venceu a 38ª edição do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, na categoria reportagem.

Janaína Cesar

Formada pela Universidade São Judas Tadeu (SP), trabalha há 17 anos como jornalista e vive há 15 na Itália, onde fez mestrado em imigração, na Universidade de Veneza. Escreve para Estadão, Opera Mundi, IstoÉ e alguns veículos italianos como GQ, Linkiesta e Il Giornale di Vicenza. Foi gerente de projetos da associação Il Quarto Ponte, uma ONG que trabalha com imigração.

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