Gian Andrea Franchi e sua esposa Lorena Fornasir já podem respirar aliviados, o inquérito contra o casal de aposentados foi arquivado pelo tribunal de Bolonha no final de novembro e eles não serão mais processados por favorecimento à imigração clandestina. Os dois poderão continuar curando, diariamente, na Praça Liberdade, em frente à estação de trem de Trieste, os pés de homens, mulheres e crianças que chegam na Itália depois de atravessar a rota balcânica.
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São refugiados do Oriente Médio e de países da Ásia Central que escapam de seus países destruídos pela guerra e partem numa viagem alucinante em busca de um lugar de paz para viver na Europa. A viagem pela rota pode durar anos. Ela começa na Grécia, corta as entranhas dos países balcânicos até chegar em solo italiano.
Lorena, 68 anos, psicoterapeuta, e seu marido Gian Andrea, 85 anos, professor de filosofia aposentado não ficaram imunes diante dos muros invisíveis construídos nos últimos anos pelo continente europeu, criaram a associação Linea d’Ombra e todos os dias, faça sol ou chuva, ocupam a Praça Liberdade, carinhosamente chamada de “praça do mundo”, para oferecer uma refeição quente, medicar os pés dos imigrantes e lhes dar um par de sapatos.
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O inquérito contra o casal foi aberto em 2019, em Trieste, e tinha como objetivo identificar uma possível ligação entre traficantes de seres humanos e os voluntários de Linea d’Ombra. Tudo porque, em julho daquele ano, eles hospedaram uma família curdo-iraniana que tinha dois filhos e os ajudaram a chegar na Alemanha.
Inicialmente o inquérito investigava somente Gian Andrea, mas a partir do momento que Lorena foi incluída na investigação, teve de ser transferido para o Tribunal de Bolonha, uma vez que a italiana é juíza honorária do tribunal de menores de Trieste, o que causaria conflito de interesses.
Na manhã de 23 de fevereiro deste ano, o casal acordou com a polícia batendo na porta de casa. Estavam respondendo a um mandado de busca e apreensão e tiveram computador e celulares sequestrados. O magistrado responsável pelo caso em Bolonha reconheceu o caráter artificial da suposta ligação dos aposentados com uma rede de tráfico humano internacional e mandou arquivar a investigação.
“Tudo isso deixa claro o caráter político das denúncias contra ativistas solidários com os migrantes”, comentou o casal.
Entre fevereiro e março deste ano, a reportagem do #Colabora esteve na Bósnia, Croácia e Trieste para contar o drama vivido por milhares de refugiados sírios, afegãos e iraquianos que deixaram seus países destruídos pela guerra e partiram numa viagem de desespero em busca de um lugar na Europa para viver. A reportagem especial venceu a 38ª edição do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, na categoria reportagem.