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Coluna | Para não desaparecer, é preciso lembrar

ODS 16 • Publicada em 26 de agosto de 2022 - 09:10 • Atualizada em 26 de agosto de 2022 - 09:44

Quando pequeno, mas sempre atento, me via com muitos medos de desaparecer. No contexto em que cresci, o de uma favela e com as dimensões que ela tem, era mais que possível. E o cenário ficava ainda mais propício quando no meio de uma operação policial.

À época, sem ter um aparelho celular ou mesmo redes sociais, como poderia descobrir, ou tentar achar o lar, caso tivesse me perdido do caminho? E o que era só um momento da ida à padaria, ao mercado ou mesmo uma saída para brincar, bem na rua, poderia virar o inevitável: nunca mais aparecer, sem que houvesse informação; muitas vezes sem nem que os restos mortais fossem encontrados (no contexto de morte); ou até mesmo a concretização do desaparecimento sem que eles surgissem.

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Medo que voltou na cabeça quando assisti na TV, como filme, o caso dos meninos de Belford Roxo, Baixada Fluminense, onde todos os três teriam sido capturados por traficantes por causa de um suposto roubo de passarinhos, em dezembro de 2020. No crime que chocou o Brasil, as evidências de uma sociedade racista, desigual e violenta, em que pesa o fator do Estado como agente de não-atuação para a elucidação da barbárie – a polícia levou mais de um ano para concluir o inquérito apontando que os meninos haviam sido torturados e mortos, mas seus corpos não foram encontrados até hoje.

Nós temos uma questão urgente e importante: é um debate sobre desaparecimentos forçados no nosso país. A Baixada Fluminense é um locus privilegiado de análise, pesquisa, discussão e mesmo de políticas públicas, porque nós sabemos que a dinâmica criminal é muito intensa

Nalayne Pinto
Socióloga e professora da UFRRJ

O fato ganhou destaques, mas não é o único. Historicamente, a região desponta como um dos locais de maior risco para esses casos, tipificados como ‘’desaparecimentos forçados’’. Quem acompanha e faz um novo levantamento a respeito da temática é o Fórum Grita Baixada, que, junto a pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, lança na próxima terça (30), um rico panorama incluindo dados oficiais (Instituto de Segurança Pública e Disque Denúncia) nos últimos cinco anos.

Os meninos Lucas Matheus, Alexandre e Fernando Henrique desapareceram em dezembro de 2020: polícia concluiu inquérito, após mais de um ano de investigação apontando que os três foram torturados e mortos por traficantes, mas, até hoje os corpos não foram encontrados (Foto: Reprodução)
Os meninos Lucas Matheus, Alexandre e Fernando Henrique desapareceram em dezembro de 2020: polícia concluiu inquérito, após mais de um ano de investigação apontando que os três foram torturados e mortos por traficantes, mas, até hoje os corpos não foram encontrados (Foto: Reprodução)

No mapa do estado do Rio de Janeiro, o conglomerado de bairros dos municípios da região corresponde ao total de 361 denúncias, aparecendo no ranking: Duque de Caxias (96), Belford Roxo (91), Nova Iguaçu (41), São João de Meriti (35), Itaguaí (23), , Queimados (21), Japeri (18), Mesquita (13), Magé (8), Seropédica (8), Nilópolis (6), Guapimirim (1), Paracambi (0). Enquanto a cidade do Rio de Janeiro, o quantitativo total foi de 417. Os resultados preliminares da pesquisa também foram apresentados neste mês no Congresso Latinoamericano de Sociologia no México.

Para a professora Nalayne Pinto, coordenadora da pesquisa (UFRRJ/FGB), a publicação do mapeamento surge na cena com grau de urgência, ainda mais se estabelecido o período eleitoral – a níveis estadual e nacional. “Nós temos uma questão urgente e importante: é um debate sobre desaparecimentos forçados no nosso país. A Baixada Fluminense é um locus privilegiado de análise, pesquisa, discussão e mesmo de políticas públicas, porque nós sabemos que a dinâmica criminal é muito intensa”.

Coabitando os mesmos territórios, polícias, traficantes e milicianos fazem, dali, a representação quase total do Brasil. “É a trama complexa de governos do crime”, aponta a pesquisadora, elevando a temática como algo primordial a ser pensado por outros atores que não apenas na gestão do Rio. “Cabe avaliar quais são os candidatos que problematizam e trazem à tona a questão do desaparecimento e da violência, de uma forma mais cuidadosa e menos violenta para produção de políticas públicas”.

Não por coincidência, a data da divulgação é, também, a que marca o Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, instituído em 2010 pela ONU. Segundo a organização, centenas de milhares de pessoas – em pelo menos 85 países, incluindo o Brasil – foram vítimas desse tipo de violência urbana e de Estado em circunstâncias que envolvem conflitos sócio-políticos ou períodos de repressão através de atos que vão desde perseguições, prisões ou detenções ilegais até sequestros, execuções sumárias, ocultação de cadáveres e cemitérios clandestinos.

Em momento de tamanha reflexão, cabe entender ou captar maneiras em que políticas públicas assistem grupo de mães, familiares das vítimas de violência de Estado, com intuito de não se esquecer, jamais, aqueles que desapareceram para nunca mais voltar. Com os meninos de Belford Roxo, mas que poderiam ser eu, você, ou seu filho. Mas não são.

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