Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Promessa de Bolsonaro encorajou invasão de floresta em Rondônia

Onze meses após ocupação ilegal, área federal foi reintegrada em operação com 200 homens e presença do presidente do ICMBio


Operação para reintegração de posse do Acampamento Boa Esperança, localizado dentro da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Porto Velho. Foto Marizilda Cruppe
Operação para reintegração de posse do Acampamento Boa Esperança, localizado dentro da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Porto Velho. Foto Marizilda Cruppe

(Porto Velho, Rondônia) – O comboio partiu de Porto Velho no final da tarde de segunda-feira rumo à base montada pelo Exército em Alto Paraíso, região leste de Rondônia. Dois caminhões, três micro-ônibus, pelo menos uma dezena de picapes 4×4 e mais uma carreta que transportava um trator seguiram pela BR-364 chamando a atenção dos motoristas que circulavam pela rodovia federal. Ontem, antes que o dia clareasse, cerca de 200 pessoas, entre servidores do ICMBio, policiais militares, bombeiros, brigadistas, policiais federais, Ministério Público Federal e Conselho Tutelar com o apoio de um helicóptero da polícia militar estavam prontos para a operação de reintegração de posse na Floresta Nacional (Flona) do Bom Futuro.

LEIA MAIS: Brasil já perdeu 89 milhões de hectares de florestas

LEIA MAIS: O bom negócio da floresta em pé

O acampamento Boa Esperança começou a ser construído na área de floresta em 22 de outubro do ano passado, uma semana antes do segundo turno da eleição que elegeu o presidente Jair Bolsonaro. Foi uma fala dele, em Porto Velho, ainda durante a campanha, que encorajou a invasão, segundo os moradores. “Ele disse que tinha muita reserva em Rondônia e ia diminuir”, conta um dos moradores, numa roda de conversa em que ninguém quer se identificar. “Fiquei sabendo que tinha isso aqui por um conhecido”, explica outro. “Um começou a falar pro outro e veio essas família”, completa um terceiro.

Invasores põem fogo e uma das casas do acampamento Boa Esperança, que começou a ser construído em outubro do ano passado,. Foto Marizilda Cruppe
Invasores põem fogo e uma das casas do acampamento Boa Esperança, que começou a ser construído em outubro do ano passado,. Foto Marizilda Cruppe

As casas são simples, paredes de folhas de palmeira seca, algumas poucas são feitas de madeira e têm telhas Brasilit. As fossas, usadas como sanitários, ficam do lado de fora da casa e são facilmente reconhecidas pelas paredes de plástico acomodadas em quatro estacas de madeira. É visível que as famílias que invadiram os cerca de 500 hectares da unidade de conservação são de baixa renda: dentes falhos, rostos envelhecidos e os poucos pertences são surrados. Como e por que essas famílias foram parar ali é o que a polícia federal vai esclarecer com a Operação Bom Futuro, deflagrada ontem de manhã. O inquérito policial foi instaurado em novembro de 2018 e a PF de Rondônia cumpriu na terça-feira quatro mandados de prisão preventiva e quatro de busca e apreensão expedidos pela 5ª Vara da Justiça Federal de Porto Velho. Segundo as investigações, Delson Pinto de Souza, um dos presos, é acusado de ser um dos líderes da invasão e de ameaçar as famílias que desejavam sair do acampamento obrigando-as a permanecer lá. Delson também é apontado como um dos responsáveis pelo cadastramento de mais de quatrocentas famílias e o recolhimento de mensalidades dos invasores, além da demarcação dos lotes e degradação da área federal protegida. No total, havia 218 barracos construídos no acampamento, mas a contagem oficial foi de cem famílias residentes.

É visível que as famílias que invadiram os cerca de 500 hectares da unidade de conservação são de baixa renda: dentes falhos, rostos envelhecidos e os poucos pertences são surrados. Foto Marizilda Cruppe
É visível que as famílias que invadiram os cerca de 500 hectares da unidade de conservação são de baixa renda: dentes falhos, rostos envelhecidos e os poucos pertences são surrados. Foto Marizilda Cruppe

Maria de Lourdes, 43 anos, chora enquanto arruma sua mudança. Ela está conformada com a decisão judicial que ordena a desocupação de uma área de proteção federal. O choro, conta, é porque se assustou com a chegada do batalhão de choque. O marido e os dois filhos perderam o emprego numa serraria e o sustento da família em Cujubim ficou difícil. “O Bolsonaro disse que ia cortar algumas reservas” desabafa Lourdes. Ela conta que as famílias que foram morar na área invadida não se conheciam antes. No início receberam cestas básicas, ela não sabe dizer quem as enviava, mas a ajuda durou apenas três meses. As famílias removidas foram orientadas a levar apenas o básico, o que para eles incluía cachorros, gatos e algumas poucas galinhas.

A reintegração acontece a partir de uma ação ajuizada pelo ICMBio. A operação deve levar três dias pois as famílias serão deslocadas com seus pertences para os municípios de Alto Paraíso e Rio Pardo, uma vila com mais de quatro mil habitantes, construída onde, originalmente, era uma unidade de conservação federal.

“Pensei que fosse mais perto”

O presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), coronel Homero de Giorge Cerqueira, chegou à reintegração de posse com o sol queimando forte a terra seca. Ao encontrar os servidores que participavam da operação disse “Achei que fosse mais perto. Muito longe!” Na entrevista, mais tarde, depois de ter tomado pé da operação, o ex-comandante da Polícia Militar de São Paulo falou sobre sua experiência na polícia ambiental de SP “Eu nunca trabalhei no governo federal. Trabalhei 35 anos no governo estadual. Em São Paulo a gente conseguiu congelar o desmatamento. Eu, como comandante do policiamento Ambiental, tinha 2.190 policiais militares, 4 batalhões, 498 embarcações que cobriam todo o território, eu fazia toda a cobertura do litoral paulista. O ICMBio tem 1.538 funcionários, 300 fiscais, então é bem aquém do que eu tinha no estado de SP. Eu acredito que o bioma da Mata Atlântica é muito parecido no sentido de fazer a proteção.” Perguntado sobre o seu conhecimento da região amazônica, disse “Eu já viajei para a África, para a Índia. Fiz passeios maravilhosos nos parques [da África do Sul]. Então me interessou muito levar minha família para esses locais, para conhecer como é a realidade desses países, é um pouco diferente do nosso.” Sobre os brasileiros escolherem destinos fora do Brasil para as férias em família e não pensarem em conhecer a Amazônia, o coronel se apressa em responder: “eu fui pro Amazonas, eu fui conhecer o hotel Ariaú, um hotel maravilhoso, fica no topo das árvores, mas não tem mais. Eu fui porque me interessei muito pelo bioma amazônico.”

As casas são simples, paredes de folhas de palmeira seca, algumas poucas são feitas de madeira e têm telhas Brasilit. Foto Marizilda Cruppe
As casas são simples, paredes de folhas de palmeira seca, algumas poucas são feitas de madeira e têm telhas Brasilit. Foto Marizilda Cruppe

Passado de invasões

A flona Bom Futuro foi criada em 1988 com 280 mil hectares e até a metade dos anos 90 ainda tinha sua floresta primária intacta. Vieram as invasões de madeireiros e na sequência do desmatamento e dos roubos de madeira nobre veio a grilagem das terras. Em 2010, o governo Lula (PT) entrou em acordo com o governo de Rondônia para desafetar (reduzir a área protegida) mais de 180 mil hectares. A região desafetada deveria ser transformada em uma Área de Proteção Ambiental (APA) que tem critérios de conservação bem menos rígidos. A medida legalizou a situação de milhares de invasores. Na vila de Rio Pardo chegaram a funcionar dez serrarias. Pela redução de dois terços da floresta o governo federal recebeu terras do estado de Rondônia para a construção da usina hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira. Desde então, houve uma reintegração em 2017, no mesmo local onde foi construído o acampamento Boa Esperança. Anteriormente, em 2013, em complicações decorrentes de uma outra operação na mesma área do Boa Esperança, uma equipe da Força Nacional foi encurralada em Rio Pardo e um policial foi morto.


Escrito por Marizilda Cruppe

​Marizilda Cruppe tentou ser engenheira, piloto de avião e se encontrou mesmo no fotojornalismo. Trabalhou no Jornal O Globo um bom tempo até se tornar fotógrafa independente. Gosta de contar histórias sobre direitos humanos, gênero, desigualdade social, saúde e meio-ambiente. Fotografa para organizações humanitárias e ambientais. Em 2016 deu a partida na criação da YVY Mulheres da Imagem, uma iniciativa que envolve mulheres de todas as regiões do Brasil. Desde 2015 é nômade e vai onde a Fotografia a leva. Usa seu celular para fotografar as camas onde dorme nessa vida sem casa - já são 130 e contando!

27 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *