Mercado internacional pode impulsionar produção de castanha-do-pará

Edivaldo Kaxarari, professor primário em Barreirinha, compra e vende castanha-do-pará para complementar a renda: mercado internacional para impulsionar produção (Foto Flávia Milhorance – Março/2021)

Espécie nativa é fonte de renda de populações tradicionais, mas, para ter escala, a atividade de baixo impacto ambiental requer incentivos

Por Flavia Milhorance | ODS 15 • Publicada em 27 de agosto de 2021 - 10:03 • Atualizada em 1 de setembro de 2021 - 08:11

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Edivaldo Kaxarari, professor primário em Barreirinha, compra e vende castanha-do-pará para complementar a renda: mercado internacional para impulsionar produção (Foto Flávia Milhorance – Março/2021)

(*) Escrevi para Edivan Kaxarari no início de abril, mas passaram-se dias sem que a mensagem chegasse ao destinatário. Fiquei um pouco preocupada. Edivan vive no Território Indígena Kaxarari, na Amazônia brasileira, próximo à fronteira com a Bolívia. Embora seja uma área remota, a conexão de internet funciona. A floresta na área protegida já foi alvo de invasões de madeireiros ilegais. No passado, houve conflitos violentos. Algo teria acontecido?

Felizmente, duas semanas depois, Edivan respondeu com uma empolgada mensagem de áudio. Contou que ficou 23 dias acampado dentro da Floresta amazônica coletando castanhas-do-pará, principal fonte de renda das 170 famílias do território indígena entre os estados do Acre e de Rondônia, na fronteira com a Bolívia. “Foi bom demais nós lá acampados, havia bastante gente coletando, quebrando e carregando castanhas”, disse.

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O extrativismo da castanha-do-pará garante a subsistência de 60 mil famílias da Amazônia brasileira, que vendem em média 40 mil toneladas por ano da espécie nativa — quase 60% de toda a produção dos países amazônicos — segundo a rede Diálogos Pró-Castanha. Essa prática permeia várias gerações de comunidades tradicionais e vem se fortalecendo como uma alternativa sustentável ao crescente desmatamento da região, embora enfrente desafios com a descoordenação e a falta de incentivos em sua cadeia de produção.

Um estudo recente mostra que, entre 2017 e 2019, a Amazônia exportou US$ 298 milhões em produtos da bioeconomia — ou seja, compatíveis com a conservação da floresta — entre eles a castanha-do-pará. O valor parece considerável, segundo, Salo Coslovsky, autor da pesquisa pela Universidade de Nova York, mas está bastante aquém de seu potencial e bem distante da real agenda econômica da região: monocultura, mineração, pecuária, além de papel e celulose, renderam US$ 39 bilhões em exportações no mesmo período.

A castanha-do-pará chega a mais de 60 países, segundo análise do Diálogo Chino sobre dados do comércio exterior do Brasil. As exportações entre janeiro e julho de 2021 somam 7,7 mil toneladas — US$ 21 milhões em vendas — e representam quase 80% mais que há cinco anos. Mas o Brasil tem perdido oportunidades. Bolívia e Peru, seus maiores clientes, compram a oleaginosa para processá-la e voltam a exportá-la. Os Estados Unidos, terceiros do ranking, também destinam parte à revenda. Na sequência, vêm China continental e Hong Kong, que aparecem como uma esperança para a expansão do mercado.

“Os compromissos mais profundos da China com o controle das mudanças climáticas e a redução das emissões de carbono terão consequências de peso para seu comércio com o Brasil”, disse Mauricio Santoro, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Haverá mais oportunidades de investimentos em cadeias de desenvolvimento sustentável em produtos como o açaí, castanha-do-pará ou outros cultivos que permitam a conservação florestal”.

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A Cooperacre, uma cooperativa de extrativistas que fica em Rio Branco, no Acre, exporta castanhas para Rússia, Itália, Espanha, Estados Unidos e Emirados Árabes. Foto Flávia Milhorance. Março/2021
A Cooperacre, uma cooperativa de extrativistas que fica em Rio Branco, no Acre, exporta castanha-do-pará para Rússia, Itália, Espanha, Estados Unidos e Emirados Árabes. (Foto: Flávia Milhorance – Março/2021)

Castanheira, símbolo de conservação

Manter o extrativismo da castanha-do-pará é uma forma de preservar a cultura de povos tradicionais e reduzir a pressão sobre as florestas tropicais, embora poucos consumidores saibam disso.

“Hoje a castanha já é valorizada pelos benefícios que ela traz à saúde — ela é rica em selênio, um mineral antioxidante — mas ainda não é valorizada pelos benefícios que traz para a floresta”, disse Victoria Mutran, diretora de uma empresa de exportação da castanha, a Mutran Exportadora, durante uma conferência sobre a bioeconomia da Amazônia em junho.

A castanheira é uma árvore imponente, de tronco largo e rugoso, que chega facilmente aos 30 metros de altura e aos 100 anos. Há exemplares que até passam de um milênio de vida. De sua copa pomposa, caem os chamados ouriços — parecidos com cocos — que, dentro, guardam em média uma dezena de castanhas, protegidas por mais uma camada de uma casca bem dura. De dezembro a abril, os castanheiros conseguem encontrar os ouriços pelo solo da floresta, próximos à árvore-mãe.

O trabalho é penoso: requer olhos treinados para encontrar o ouriço escondido entre outras espécies, habilidade com o facão para abrir a casca do coco, resistência para o longo dia de coleta e força para carregar os sacos cheios de castanha nas costas.

Mas a atividade compensa. Melhor ainda, ela provoca pouco ou nenhum impacto ao meio ambiente. Pelo contrário, requer sua proteção para prosperar.

“A castanheira é um símbolo da conservação da floresta e vale mais de pé do que cortada”, diz Lúcia Wadt, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Especialista no manejo de produtos florestais, Wadt estima que o extrativista lucre pelo menos três vezes mais com a venda da coleta da castanha-do-pará do que com a do corte ilegal de sua madeira — um estímulo à preservação. Além disso, a produção é sazonal, e o mercado, estabelecido. “O extrativista vende o que tiver de castanha”, diz Wadt.

Mesmo assim, a castanheira integra a lista de espécies vulneráveis da União Internacional para a Conservação da Natureza. Embora protegida por lei, ela tem sido alvo de madeireiros ilegais, segundo vários relatos de indígenas e pequenos agricultores ouvidos em minha passagem por Acre e Rondônia em março deste ano. Em junho, a polícia fez a maior apreensão em flagrante de madeira irregular em Rondônia, e entre as toras havia as de castanheiras.

Em 2017, um líder Kaxarari foi morto a tiros, e a suspeita é de que o crime tenha sido cometido por pessoas envolvidas no comércio ilegal de madeira. No ano passado, uma ação do Exército encontrou toras de madeira ilegal dentro do território indígena. Desde então, a atividade irregular arrefeceu, segundo Edivan: “Está tendo fiscalização frequente, então a situação deu uma acalmada”.

Às margens da BR-364, que liga as capitais de Rio Branco e Porto Velho, altas castanheiras despontam solitárias em meio às pastagens de capim rasteiro. Pecuaristas mantêm a espécie intacta para evitar multas ambientais. Mas essa é apenas uma morte mais lenta. “A árvore demanda um fluxo d’água e de nutrientes que o ambiente desmatado não consegue prover,” explica Wadt. A castanheira definha, produzindo cada vez menos folhas e frutos. Com frequência, raios atingem as espécimes sem a proteção da densa floresta tropical.

Houve tentativas pontuais de domesticá-la, mas a prática não deslanchou. Um dos principais motivos é que a árvore leva cerca de duas décadas para começar a produzir frutos — um investimento de longo prazo pouco atraente para os agricultores.

“O mercado da castanha só vem piorando, porque o preço está lá em cima, e a oferta não consegue atender à demanda. Se não plantarem, vai ficar cada vez pior,” afirma o agrônomo Alfredo Homma, também pesquisador da Embrapa, que considera a economia extrativista “uma utopia” e um “atraso” para o setor.

Especialistas como Wadt e Coslovsky discordam. Eles apontam outros obstáculos para a produção em escala. Um dos principais motivos é que as políticas públicas ignoram a vocação econômica da floresta amazônica. Para se ter ideia, dos R$ 2 bilhões em crédito rural do governo federal destinados aos estados da Amazônia brasileira entre 2019 e 2020, R$ 55 milhões — ou seja, menos de 3% — foram investidos em atividades sustentáveis, segundo levantamento do Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus), apresentado na conferência sobre a bioeconomia. Desse total, apenas R$ 8,4 milhões impulsionaram a coleta da castanha-do-pará.

O resultado é uma cadeia desestruturada, segundo o Conexsus, em que mais de 70% é formada por atravessadores informais, que pagam pouco ao castanheiro. “Nós não temos mercado para vender. Todo ano, vendemos a produção para o atravessador, que compra muito barato”, disse Edivan Kaxarari. Uma lata com 13 quilos de castanha saiu este ano, em média, por R$ 50 para o indígena.

Edivaldo Kaxarari é professor primário e complementa sua renda com uma pequena mercearia improvisada num cômodo de sua casa de madeira (como de costume na arquitetura local), localizada próxima à saída da aldeia Pedreira, no território Kaxarari. Em frente à sua casa, ele também vai amontoando sacolas cheias de castanha-do-pará de coletores da aldeia. “Tem muita castanha aqui, mas o comprador só vem para esta área quando tem uma quantidade grande, então vou comprando e juntando”, disse.

Edivaldo revende a produção a Rosenilson Ferreira, o Louro, que durante a safra da castanha vai frequentemente ao território carregar sua caminhonete. Ferreira é filho de agricultores fazendeiros que migraram na década de 1970 do Mato Grosso para Extrema — um vilarejo que é o centro urbano mais próximo da terra indígena, a 30 quilômetros de chão batido.

Ferreira tem quatro filhos, mas nenhuma terra. “Não tenho outro serviço. Não existe emprego, não tenho estudo, o jeito é lutar por isso aí mesmo”, explica.

Dali, a produção passa por várias mãos, segundo Ferreira, ultrapassando até as fronteiras nacionais: “Vendo para outros atravessadores. Eles compram da gente, processam e passam adiante a castanha, que vai para as empresas. Várias usinas estão na Bolívia”.

Caíque, de 11 meses, nos ombros do pai, Edson. As crianças, normalmente, acompanham os pais durante a coleta das castanhas. Foto Flávia Milhorance. Março/2021
Caíque, de 11 meses, nos ombros do pai, Edson. As crianças, normalmente, acompanham os pais durante a coleta de castanha-do-pará (Foto: Flávia Milhorance – Março/2021)

Amazônia para exportação

A castanha-do-pará é exportada desde os tempos da colonização. No início dos anos 2000, europeus rejeitaram o produto devido a problemas sanitários, e outros países ganharam espaço no mercado. Bolívia e Peru são líderes em volume de exportação. Os três vizinhos já tentaram formar parcerias para promover o produto sustentável no mercado externo, mas hoje são clientes e, ao mesmo tempo, concorrentes.

A desorganização da cadeia produtiva ainda leva a problemas sanitários, como no surto de salmonela provocado por lotes bolivianos comprados pelo Reino Unido nos últimos dois anos. Mas, em vez de cortar a castanha-do-pará da lista de importações, o governo britânico anunciou recentemente investimentos na capacitação de comunidades para impulsionar sua exportação em escala. “A bioeconomia é um importante vetor de desenvolvimento econômico, social e ambiental”, disse em julho o embaixador britânico Peter Wilson ao jornal Valor Econômico.

Os chineses aumentaram o consumo de castanhas e nozes na última década, mas as castanhas-do-pará ainda têm participação pequena nesse mercado. Ainda são pouco conhecidas na China e geram altos custos de transporte e conservação. Em sites de e-commerce chineses, a castanha é vendida como uma especialidade da árida província de Xinjiang, no oeste da China, e apelidada de “castanha do deserto”. Mas a procedência é incerta, até improvável, dadas as diferenças climáticas da Amazônia, de onde ela é nativa.

Os chineses vêm buscando acordos com empresas amazônicas. Victoria Mutran, da exportadora de Belém, no Pará, disse ao Diálogo Chino que há “grande interesse por castanhas com casca para o mercado chinês” e que já foi sondada por empresários chineses.

Manoel Monteiro, que gerencia a Cooperacre, uma grande cooperativa de extrativistas, concorda que exista apetite chinês, embora haja dificuldade de suprir sua demanda. “Tivemos a oportunidade de colocar o produto na China, mas eles queriam um volume muito alto. Só se nós fizéssemos uma cooperativa de toda a Amazônia que conseguiríamos atendê-los”, contou, rindo, da sede da cooperativa em Rio Branco, no Acre, que já exporta para Rússia, Itália, Espanha, Estados Unidos, Emirados Árabes, Kuwait, Dubai e Filipinas. Mas, com investimentos, há capacidade de ampliar a produção, dizem os especialistas.

Monteiro também lamenta que a castanha-do-pará seja negociada como uma commodity agrícola, como a soja — responsável por 25% do valor das exportações da Amazônia e por 10% do desmatamento na América do Sul em 20 anos — e  não como um produto sustentável da Amazônia.

A castanha viveu seu boom no mercado interno — seu consumo cresceu 700% em 15 anos — e agora precisa ter sua história de preservação contada no exterior. “Esse reconhecimento vai chegar”, disse Monteiro. “Somos produtores da floresta, viemos da floresta. A gente só queria vender melhor o produto e manter a floresta lá”.

(*) Reportagem publicada simultaneamente no site Diálogo Chino.

Flavia Milhorance

Jornalista com mais de dez anos de experiência em reportagem e edição em veículos de imprensa do Brasil e exterior, como BBC Brasil, O Globo, TMT Finance e Mongabay News. Mestre em jornalismo de negócios e finanças pelas Universidade de Aarhus (Dinamarca) e City University, em Londres.

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