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Estrada e polêmica no Parque Nacional do Iguaçu

Projetos para reabrir via, fechada em 2001, em área de Mata Atlântica colocam em campos opostos moradores e empresários da região e ambientalistas


A Estrada do Colono, dentro do Parque Nacional do Iguaçu e fechada desde 2001: proposta de reabertura também reabre polêmica entre ambientalistas e moradores e empresários da região (Foto: ICMBio)
A Estrada do Colono, dentro do Parque Nacional do Iguaçu, fechada desde 2001 e hoje tomada pela mata: proposta de reabertura também reabre polêmica entre ambientalistas e moradores e empresários da região (Foto: ICMBio)

Uma estradinha de terra de 17,6 km quase toda coberta pela mata, dentro do Parque Nacional do Iguaçu, Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco desde 1996, reavivou o debate sobre interesses econômicos e preservação ambiental no Paraná. Em visita à região para inaugurar uma hidrelétrica em maio de 2019, o presidente Jair Bolsonaro afirmou ser a favor de reabrir a Estrada do Colono, que liga o Oeste ao Sudoeste do Paraná e está fechada desde 2001.  O projeto do deputado federal Nelsi Cogueto Maria (PSD), o Vermelho, está em andamento na Câmara dos Deputados e prevê a criação de uma estrada-parque no estilo das parkways norte-americanas. “A reabertura dessa estrada pode trazer mais problemas que benefícios”, disse à Rádio Cultura de Foz o chefe do parque, Ivan Carlos Baptiston, funcionário do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, logo após receber a notícia.

O ICMBio não respondeu à solicitação de informações, nem autoriza o chefe do parque a dar entrevistas. O Paraná é o terceiro estado com maior índice de desmatamento no país, segundo pesquisa divulgada pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em maio de 2019.  A Estrada do Colono passa no meio de uma das poucas áreas de Mata Atlântica ainda preservadas e antes ligava as cidades de Serranópolis do Iguaçu, com 4,5 mil habitantes, e Capanema, atualmente com 19 mil habitantes – estatísticas do estado mostram que, há 20 anos, a população era de 35 mil. Capanema inaugurou oficialmente em fevereiro de 2019 passeios turísticos ecológicos no Parque Iguaçu através dos seus rios e trilhas. A base da economia de Serranópolis do Iguaçu, além da pecuária, é a agricultura da soja, do milho, da mandioca e do fumo em pequenas propriedades.

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A primeira proposta de reabrir a estrada estava arquivada no Senado desde 2013, mas foi desarquivada no começo de 2019 e acaba de receber parecer favorável do senador Elmano Férrer (Podemos-PI), relator do projeto que cria a Estrada-Parque Caminho do Colono no Parque Nacional do Iguaçu, na Comissão de Serviços de Infraestrutura. Esse projeto em tramitação no Senado contém uma série de requisito para o parque. “A proposta apresentada na Câmara agora é simples e não entra no mérito do detalhamento do funcionamento da estrada, horário, nada disso: a lei permitiria só a criação da estrada-parque”, explica Altamir Constantino, secretário do deputado Vermelho.  O objetivo principal da reabertura da estrada seria o fator econômico, recuperar a região cujos moradores se sentem abandonados. “Queremos desenvolver o turismo e resgatar uma dívida histórica com a população local e regional, mas sem prejudicar a fauna e a flora. Mas não vamos nos meter no que não é da nossa competência, preservação ambiental é assunto para o Ibama, o Ministério do Meio Ambiente, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP)”, afirmou Constantino, que é nascido na região.

A atual legislação brasileira que regula o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, não reconhece o termo “estrada parque”. O Ministério do Meio Ambiente anunciou esse ano, no entanto, que vai rever a criação de todas as 344 unidades de conservação ambiental do país. Segundo o ministro Ricardo Salles, as demarcações foram realizadas “sem critério técnico” e devem ser revistas e mesmo extintas. A Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (AMOP) defende a criação da estrada ecológica “como forma de desenvolvimento sustentável” e “defesa da soberania” brasileira, reagindo ao fato de que a reabertura da estrada poderia trazer questionamentos da Unesco em relação ao título concedido de patrimônio natural.

Pesquisas realizadas antes do seu fechamento mostraram que a estrada no meio do parque colocava em risco a integridade genética das espécies e até a extinção, ocorrendo a quebra de importantes processos ecológicos a partir da modificação do ambiente físico e químico. Nas últimas décadas, várias ONGs se uniram ao Ministério do Meio Ambiente, através do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA), para realizar estudos e defender o fechamento estrada, como o Fórum pró-Conservação da Natureza do Paraná, Rede de ONGs da Mata Atlântica, Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação, Centro de Estudos, de Defesa e Educação Ambiental (CEDEA), Redeverde de Informações Ambientais, Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem, Educação Ambiental (SPVS), Greenpeace, The Conservation Organization e WWF (World Wildlife Found).

Os moradores querem reabrir a estrada de uma forma diferente do que era, uma estrada ecológica, só para veículos leves. Nossa região perdeu muito, ficou esquecida, diminuiu a população. As pesquisas mostraram que mais de 200 comércios fecharam; reabrir a estrada vai nos trazer esperança

Alvair Luiz Cordasso
Proprietário do Hotel Tito's

De acordo com os estudos de impacto, cada quilômetro de estrada provocaria efeitos ambientais negativos em torno de 13,5 km, chamados de efeitos de borda, que alteram a luz, velocidade do vento, a temperatura, a umidade, e provocam, ao longo do tempo, o que os biólogos chamam de fragmentação das espécies, perda da integridade genética, extinção, aumento de espécies de ambientes degradados.

Ao longo do tempo, os moradores da região não se conformaram com a decisão. Defendem que a reabertura da estrada do Colono diminuiria a distância entre Medianeira, cidade que dá acesso a Serranópolis do Iguaçu, e Capanema, de 170 km para 58 Km – essa ligação hoje é feita apenas contornando o parque. “Os moradores querem reabrir a estrada de uma forma diferente do que era, uma estrada ecológica, só para veículos leves. Nossa região perdeu muito, ficou esquecida, diminuiu a população. As pesquisas mostraram que mais de 200 comércios fecharam; reabrir a estrada vai nos trazer esperança”, afirma Alvair Luiz Cordasso, 53 anos, proprietário do Hotel Tito’s, em Capanema. “Em todos esses anos nunca recebemos nada. As ONGs cuidam da mata, mas não olham para a população. A gente quer preservar o parque: fazer uma estrada elevada, com alambrados laterais e telas de proteção para proteger os animais. Somos amigos do parque, que é do mundo inteiro, mas somos nós que cuidamos”, explica Cordasso.

Esses dados de impacto populacional e econômico estão no trabalho do economista Ademir Clemente, “Prejuízos decorrentes do fechamento da Estrada do Colono (PR-495): avaliação econômica”, realizado em 1996 por solicitação da Associação de Integração Comunitária Pró-Estrada do Colono (AIPOPEC). O estudo defende o desenvolvimento a partir do comércio e da indústria com a tese de que quando a estrada estava aberta os jovens tinham mais interesse em permanecer na cidade e não emigravam em busca de oportunidades de trabalho. Em resposta a esse estudo foi realizado outro trabalho, em 1999, “Prejuízos decorrentes do fechamento da Estrada do Colono: uma análise crítica”, do economista Claus Germer, que rebate as teses contextualizando as questões políticas e econômicas que também influenciaram as mudanças na região.

A estrada teria sido aberta pela Coluna Prestes em 1923, mas os imigrantes que vieram da Europa, os “colonos” que ocuparam o interior do Paraná, defendem que historicamente a estrada pertence a eles e ao seu passado de desbravadores da região. É o que mostra a socióloga Tânia Luiza Bonassa em “Estrada do Colono. Ações e práticas discursivas na relação do homem com a natureza no Parque Nacional do Iguaçu”, dissertação de mestrado apresentada na Universidade Federal do Paraná em 2004. “Os colonos, acreditam, portanto, que ela foi o elo de passagem para a ocupação do oeste. Por “carregar” em seu nome a história, então, a quem é dada a possibilidade de falar da Estrada senão ao colono, aos seus descendentes e àqueles que – mesmo chegando depois da ocupação do oeste – reconhecem no colono o herói natural da fundação daquela região?”, observa a socióloga. Em 1986, em uma das vezes que a estrada foi fechada, a cidade de Medianeira suspendeu as aulas nas escola; moradores lembram que as rádios tocaram músicas fúnebres e muitos usaram uma tarja preta no braço em sinal de luto.

A associação dos moradores, a AIPOPEC, defende que é preciso integrar o parque às necessidades da região economicamente, investindo em ecoturismo, desenvolvimento agro-silvo-pastoril, agro-industrial e estradas, em eventos culturais turísticos, criação de centros de pesquisa ambientais, educação, conservação de solos, destino adequado de resíduos e corredores de biodiversidade. Inconformados, os moradores já protestaram várias vezes contra o fechamento da estrada. No dia 8 de maio de 1997, o jornal “O Paraná” noticiou que “cerca de 1000 pessoas, de idosos a crianças, ocuparam a Estrada e armados de foices reabriram o trecho de 17,6km que corta o Parque e que foi usado durante décadas pelos colonizadores. Em uma outra manifestação, o jornal Mensageiro, de Medianeira, narra que “cerca de 30 mil pessoas em 13/05 participaram da maior mobilização popular pró-abertura da Estrada. A população carregava flores brancas na mão e o “abraço ecológico”, no meio do Caminho do Colono, ocorreu de forma organizada, em fila, as pessoas entraram no Caminho formando uma grande corrente humana e nenhum tipo de dano foi causado à natureza”.

A AIPOPEC e o MAP (Movimento Amigos do Parque) realizam ações constantes defendendo a reabertura da estrada, como as campanhas “Caminho do Colono: você precisa conhecer” e “Caminho do Colono: a vida passa por aqui”. Na proposta dos moradores da região apresentada ao Ibama em 1999, e que deu origem ao pedido de liminar que provocou o fechamento da estrada através de liminar em 2001, seriam criadas passagens elevadas para proteger os animais, setores com a plantação das “melhores espécies de árvores e flores do Brasil, ficando uma paisagem super-panorâmica para todo o trânsito, compensando assim uma economia de 100 km para atingir Foz do Iguaçu (…) economizando combustíveis, materiais rodantes, fator tempo”.  A proposta previa a implantação de uma cerca alambrada com tela galvanizada de dois metros de altura e a construção da passagem para os animais com placas de concreto armado de 10 metros nos cursos d’água formando corredores de ligação entre os dois lados do parque.

Criado em 1939, o Parque Nacional do Iguaçu exibe uma pequena parte do que antes foi a floresta Atlântica no sul do país. A Mata Atlântica já ocupou cerca de 1.360.000 de km² do território nacional, do Nordeste brasileiro até o Rio Grande do Sul, e hoje foi reduzida a menos de 8%. O território do Paraná era formado por 97,35% de mata atlântica e hoje está reduzido à 8,83%.

A biodiversidade na região é protegida pela criação da unidade de conservação, onde são encontradas espécies ameaçadas de extinção, como a onça-pintada, puma, jacaré-de-papo-amarelo, papagaio-de-peito-roxo, gavião-real, peroba-rosa, ariticum e araucária. O parque é famoso pela paisagem impressionante das Cataratas do Iguaçu, o que colaborou para que fosse reconhecido como patrimônio mundial pela Unesco em 1986, a primeira unidade de conservação brasileira que ganhou o título. A gestão cabe ao ICMBio que aplica um modelo de integração entre proteção e conservação com uso sustentável dos seus recursos, principalmente através do turismo. Os moradores reclamam também que não foram consultados em todas as etapas do plano de manejo do parque, que incluiu o plantio de mudas nativas onde antes passava a estrada.

O parque se une através do Rio Iguaçu com o Parque Nacional Iguazú, na Argentina: são aproximadamente 1 milhão de hectares de floresta, sendo que 600 mil hectares são áreas protegidas e 400 mil de floresta primitiva. Enquanto no Brasil discute-se a reabertura da Estrada do Colono, na Argentina o governo propôs a criação de “vilas turísticas” dentro do parque, com glampings, campings chiques, restaurantes, um empreendimento de grandes proporções que está provocando manifestações contrárias tanto dos ambientalistas quanto dos moradores da cidade próxima, Puerto Iguazú, que temem perder os turistas que utilizam os serviços da cidade.

As rochas do rio Iguaçu se originaram de processos vulcânicos que ocorreram na região entre aproximadamente 165 a 120 milhões de anos e que deram origem às cataratas, que exibem 2.700 metros de extensão com cerca de 200 quedas, a maior delas com 80 metros. Pelo parque voam 257 espécies de borboletas e mais de 200 espécies de aves, se encontram 45 espécies de mamíferos, 12 tipos de anfíbios, 41 espécies de serpentes, 8 tipos de lagartos, 18 espécies de peixes.

A Estrada do Colono também tem um episódio misterioso que apareceu em 2005 no livro “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?”, de Aluízio Palmar. No livro, é narrada a volta, em 1974, de seis integrantes da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária que estavam no exílio durante a ditadura militar no Brasil: Daniel José de Carvalho, Enrique Ernesto Ruggia, Joel José De Carvalho, José Lavecchia, Onofre Pinto e Vitor Carlos Ramos. Eles entraram clandestinamente no Brasil pela região e, de acordo com as pesquisas realizadas por Palmar, eles foram atraídos para uma cilada e executados ali na mata, na beira da Estrada do Colono. Seus corpos nunca foram encontrados.


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