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Desmatamento na Amazônia vai ultrapassar os 10 mil km²

Estudo revela que incêndios foram causados por aumento da destruição da floresta. Medo de represálias leva alguns cientistas a não assinarem o documento


Incêndios florestais na Amazônia, praga que se repete anualmente, estáão em ritmo acelerado em 2019 com aumento de grilagem e desmatamento (Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace)
Incêndios florestais na Amazônia, praga que se repete anualmente, estáão em ritmo acelerado em 2019 com aumento de grilagem e desmatamento (Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace)

Poderia ser mais um artigo científico, fundamental para ajudar a sociedade a entender as recentes queimadas que acometeram a floresta amazônica. Não fosse um detalhe: a frase que encerra os agradecimentos finais. “Alguns colaboradores declinaram da autoria para manter o anonimato. Lamentamos que isso seja necessário e agradecemos a eles por sua importante contribuição.”

Tão grave quanto a projeção de que o desmatamento deve ultrapassar os dez mil quilômetros quadrados, a maior taxa registrada desde 2008, é ver cientistas precisarem esconder suas identidades por questões de segurança, com medo de represálias do governo.

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“É chocante. Fiquei indignado de ver que isso tenha sido necessário” desabafa o inglês Jos Barlow, professor das universidades de Oxford e Lavras,  que liderou o estudo divulgado ontem, e que pesquisa as emissões de carbono na Floresta Amazônica brasileira há tempo suficiente para ter passado por quatro presidentes. Está no quinto. “Nunca vi nada parecido no Brasil. O país está seguindo as estratégias da extrema-direita. Não demite, mas torna a vida dos cientistas insuportável”.

Mostramos nesse estudo que os incêndios de 2019 são um reflexo do aumento do desmatamento, já que desmatamento e fogo andam de mãos dadas. Depois da floresta derrubada, ela continua existindo, só que no chão, morta. É aí que os invasores entram com o fogo, transformam tudo em cinzas para que a agricultura possa chegar

Erika Berenguer
Cientista sênior de Oxford e Lancaster

Em março deste ano, Barlow assinou, com mais seis cientistas, um editorial no Jornal de Ecologia Aplicada da Sociedade Ecológica Britânica, fundada em 1913, que falava de países onde a influência científica e as liberdades acadêmica e pessoal foram comprometidas. O Brasil foi citado como um país com a liberdade acadêmica comprometida por medidas adotadas pelo governo Bolsonaro, como a extinção de órgãos que lideravam discussões internacionais sobre mudanças climáticas e de departamentos do Ministério do Meio Ambiente que tratavam do desmatamento.

As plantações de soja estão entre os vilões do desmatamento na Amazônia. Foto Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável
As plantações de soja estão entre os vilões do desmatamento na Amazônia. Foto Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável

“Desmatamento e fogo andam de mãos dadas”

O artigo Clarifying Amazonia’s burning crisis (Esclarecendo a crise das queimadas na Amazônia) foi publicado ontem pelo periódico inglês Global Change Biology (versão original aqui), um dos maiores do mundo na área de meio ambiente. Os cientistas identificaram os diferentes tipos de incêndios, os agentes causadores e potencializadores e examinaram as possíveis soluções. O estudo se refere ao período de agosto deste ano quando ocorreu um pico de queimadas diretamente ligadas ao desmatamento. Erika Berenguer, cientista sênior das universidades de Oxford e Lancaster, pesquisa emissões de carbono na Amazônia há mais de uma década. Ela comenta sobre o principal resultado:

“Mostramos nesse estudo que os incêndios de 2019 são um reflexo do aumento do desmatamento, já que desmatamento e fogo andam de mãos dadas. Depois da floresta derrubada, ela continua existindo, só que no chão, morta. É aí que os invasores entram com o fogo, transformam tudo em cinzas para que a agricultura possa chegar”.

É chocante. Fiquei indignado de ver que isso tenha sido necessário. Nunca vi nada parecido no Brasil. O país está seguindo as estratégias da extrema-direita. Não demite, mas torna a vida dos cientistas insuportável

Jos Barlow
Cientista inglês

Para a brasileira radicada na Inglaterra o Brasil sabe como diminuir o desmatamento e tem essa capacidade “porque de 2004 a 2012 o desmatamento caiu 80%.” Ela lamenta que “pela primeira vez em dez anos o desmatamento pode chegar a dez mil quilômetros quadrados, o que parecia impensável que o Brasil voltasse a fazer.” E arremata “o país sabe o que e como fazer, o que falta é vontade política.”

São vários os agentes causadores apontados pelo estudo como governança fraca, rebanhos enormes e mal administrados, comércio ilegal de madeira e mudanças climáticas. Uma frouxidão do governo pode levar ao aumento do desmatamento que por sua vez é um gatilho para incêndios. As mudanças climáticas tornam as florestas mais quentes e secas e, por isso, mais propensas a incêndios fora do controle. Cada tipo de incêndio traz impactos diferentes. Um incêndio em área aberta pode matar o gado e acabar com plantações, enquanto incêndios florestais, mesmo de baixa intensidade, podem matar metade das árvores.

O estudo avaliou as alegações do governo Bolsonaro de que os incêndios de agosto eram “normais” e “abaixo da média histórica”. Os cientistas compararam dados públicos sobre queimadas e desmatamento e constataram que os incêndios deste ano foram os maiores desde 2010. E, se comparados ao mesmo período de 2018, os incêndios foram quase três vezes maiores.

Os cientistas apontam no estudo caminhos para a prevenção dos incêndios florestais que exigiriam ações do governo no combate ao desmatamento e ao comércio ilegal de madeira, pois mudanças no microclima tornam as florestas mais inflamáveis. Outra ação seria o monitoramento da intensidade da seca e o risco de incêndios com o apoio de brigadas de incêndio locais.

A taxa anual de desmatamento do período que compreende agosto de 2018 a julho de 2019 será divulgada na segunda-feira e os números do PRODES são ansiosamente aguardados porque os monitoramentos do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam para o maior desmatamento dos últimos 11 anos.


Escrito por Marizilda Cruppe

​Marizilda Cruppe tentou ser engenheira, piloto de avião e se encontrou mesmo no fotojornalismo. Trabalhou no Jornal O Globo um bom tempo até se tornar fotógrafa independente. Gosta de contar histórias sobre direitos humanos, gênero, desigualdade social, saúde e meio-ambiente. Fotografa para organizações humanitárias e ambientais. Em 2016 deu a partida na criação da YVY Mulheres da Imagem, uma iniciativa que envolve mulheres de todas as regiões do Brasil. Desde 2015 é nômade e vai onde a Fotografia a leva. Usa seu celular para fotografar as camas onde dorme nessa vida sem casa - já são 130 e contando!

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