Pesquisa revela que estamos ingerindo cerca de 40 mil pedaços de microplásticos por ano

Toneladas de plástico e microplástico chegam às praias todos os dias carregadas pelos ventos e pelas marés, como nas Ilhas Canárias (Foto Sergio Hanquet / Biosphoto via AFP)

Males provocados por essas substâncias incluem complicações na reprodução humana e atraso no neurodesenvolvimento das crianças

Por José Eduardo Mendonça | ODS 14 • Publicada em 27 de dezembro de 2021 - 17:03 • Atualizada em 6 de janeiro de 2022 - 15:15

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Toneladas de plástico e microplástico chegam às praias todos os dias carregadas pelos ventos e pelas marés, como nas Ilhas Canárias (Foto Sergio Hanquet / Biosphoto via AFP)

Dizem que os oceanos jogam fora tudo que não desejam.  É verdade. Pesquisas recentes mostram que entre os objetos indesejáveis devolvidos à terra, os mais comuns são os pequenos pedaços de plástico. Um estudo publicado em 2021 por equipes das universidade de Cornell  e de Utah revela que o oceano está vaporizando um fluxo contínuo de microplásticos na atmosfera, onde podem flutuar por continentes e mares antes de “pousarem” novamente no solo. O trabalho mostra um ciclo global de plástico, parecido com outros ciclos biogeoquímicos como os da água, do nitrogênio e do carbono.

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Isto coloca o problema do plástico sob uma luz uma nova e ainda mais desanimadora. O estudo é mais um que sugere que os estimados 8,8 milhões de toneladas métricas de lixo plástico que vêm da terra não são um problema apenas para os oceanos. Não existe um destino final para o plástico, e nenhum continente está a salvo. O plástico que produzimos hoje vai continuar conosco por gerações. Em outras palavras, podemos ter subestimado a abrangência e a enorme dificuldade de lidarmos com o problema. No meio ambiente, ele é fragmentado primariamente por luz do sol, abrasão e temperatura em fragmentos que têm o tamanho desde pequenos seixos até o de uma bactéria. E o nanoplástico, que os cientistas começam agora a medir, mas esperam que seja abundantemente presente, pode ser tão pequeno quanto um vírus.

O peixe-porco Titan morde uma tampa de garrafa plástica. Animais marinhos ingerem lixo de plástico porque pensam que é comestível. Ilha Thilafushi. Foto Paulo de Oliveira/ Biosphoto via AFP
O peixe-porco Titan morde uma tampa de garrafa plástica na Ilha Thilafushi (maldivas). Animais marinhos ingerem lixo de plástico porque pensam que é comestível (Foto Paulo de Oliveira/ Biosphoto via AFP)

Os chamados microplásticos se misturam frequentemente com aditivos potencialmente perigosos e alteram a qualidade do solo, diminuem colheitas e se movem por cadeias alimentares. Pesquisadores sugerem que comemos entre cerca de 39 mil a 52 mil pedaços de microplástico por ano e inalamos centenas deles. Agora se sabe que podem ser uma fonte de disfunção e complicações na reprodução, atraso no neurodesenvolvimento em crianças e outras desordens. Pior, descobriu-se pela primeira vez, há dois anos, que os microplásticos podem sair da superfície marinha através da complexa física de bolhas e aerossóis.

Outra má notícia: os microplásticos estão nos tornando mais resistentes a antibióticos. Um estudo da Universdade Rice, no Texas, examinou o impacto do poliestireno na saúde humana. Ele mostrou que partículas de microplásticos formam um ambiente para que bactérias de alta resistência a antibióticos floresçam. E o poliestireno está em todo lugar: em embalagens de plástico, saquinhos de chá, roupas e comidas por entrega. E 15 vezes mais em bebês do que em adultos.

Mas como partículas de plástico e bactérias se juntam? Quando as partículas envelhecem, liberam genes de resistência a antibióticos. Estes contêm cromossomas bacterianos, fagos e plasmídeos, que podem espalhar a resistência, baixando a capacidade de lutar contra infecções. A resistência a antibióticos é com frequência atribuída ao uso excessivo ou desnecessário deles.

Outro problema: a maneira como o plástico é usado na agricultura no mundo ameaça a segurança alimentar e potencialmente a saúde humana, diz a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO na sigla em inglês, um braço da ONU). Para a organização, o solo contém mais poluição de microplásticos que os oceanos, e há evidências irrefutáveis da necessidade de um manejo melhor de milhões de toneladas usadas pelo setor a cada ano.

A organização reconhece, no entanto, os benefícios do plástico na produção e proteção de alimentos, da irrigação a silagem e artigos de pesca. Mas a FAO disse que o uso saiu do controle e que muitos são de uso único e são enterrados, queimados ou perdidos depois de sua utilização. E alerta também para uma demanda crescente de plásticos agrícolas. O estudo da FAO, que foi revisto por especialistas externos, estima que 12,5 milhões de toneladas de produtos plásticos foram usados na produção de plantas e criação de animais em 2019, e mais 37,7 milhões na embalagem de alimentos.

Dados sobre o uso de plástico são limitados, mas estima-se que a Ásia seja a maior usuária, respondendo pela metade de sua utilização. Além disso, a demanda global de produção como a de estufas, silagem e mulching (plástico para cobertura do solo cultivado) deverá crescer 50% até 2030.

José Eduardo Mendonça

Jornalista com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo. Criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de reportagens sobre energia limpa. Nos últimos anos vem se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade.

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