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Corais descobertos na Amazônia ainda correm riscos

Cientistas brasileiros querem ampliar estudos e estão preocupados com o interesse pela exploração petrolífera na região


Conjunto de ouriços brancos e rodolitos (formados por algas calcáreas). Os ouriços brancos costumam usar fragmentos de outros organismos para se esconder e, assim, se defender de predadores. Foto Greenpeace
Conjunto de ouriços brancos e rodolitos (formados por algas calcáreas). Os ouriços brancos costumam usar fragmentos de outros organismos para se esconder e, assim, se defender de predadores. Foto Greenpeace

Estudos desenvolvidos por uma equipe interdisciplinar que envolveu pesquisadores de universidades como a Federal da Paraíba (UFPB), a Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Estadual do Norte Fluminense (UENF) e a USP confirmaram a existência de uma área de recife de corais na foz do rio Amazonas (entre os estados do Maranhão e do Amapá) que pode chegar a 56 mil quilômetros quadrados. Seis vezes maior do que havia sido estimado anteriormente, o mais extenso sistema de recife do Brasil forma uma conexão ecológica fundamental entre a América do Sul e o Caribe. Mas esse corredor de grande diversidade de espécies ainda corre riscos. Um dos que mais preocupam ambientalistas e pesquisadores é o interesse pela exploração petrolífera, nas suas proximidades, por grandes empresas estrangeiras.

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Nessa região de interesse da indústria petrolífera ocorrem algumas das correntes marinhas mais fortes do mundo. Essa peculiaridade transformaria um vazamento de óleo nas águas profundas da foz do rio Amazonas em uma grande catástrofe ambiental

Ronaldo Bastos Francini Filho
Professor da UFPB

Apoiados pelo Greenpeace em duas expedições científicas realizadas em 2017 e 2018, a bordo do navio Esperanza, os pesquisadores brasileiros descobriram que essa extensão de corais tem inúmeras espécies ainda desconhecidas. Muitas estão sendo catalogadas. Eles assinaram um artigo com cientistas ligados à organização ambientalista, que logo após ser publicado na revista Frontiers in Marine Science, uma referência em estudos marinhos, alcançou grande repercussão internacional. Foram cerca de 400 mil visualizações e downloads dois dias após ser divulgado, em abril do ano passado. Na publicação foram relatadas as estimativas da região estudada, muito mais ampla, profunda e complexa do que discutido anteriormente, assim como as perspectivas e ameaças relacionadas aos seus recursos naturais.

Professor Ronaldo Francini Filho (dir.) da UFPB e John Hocevar (esq.) diretor da Campanha de Oceanos do Greenpeace (EUA), embarcados em submarino usado na expedição. Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace
Professor Ronaldo Francini Filho (dir.) da UFPB e John Hocevar (esq.) diretor da Campanha de Oceanos do Greenpeace (EUA), embarcados em submarino usado na expedição. Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace

Ronaldo Bastos Francini Filho, professor associado do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e um dos autores do estudo, explica que nessa região de interesse da indústria petrolífera ocorrem algumas das correntes marinhas mais fortes do mundo. Essa peculiaridade transformaria um vazamento de óleo nas águas profundas da foz do rio Amazonas em uma grande catástrofe ambiental. “As ferramentas de mitigação sugeridas pelas empresas em caso de vazamento (boias de contenção na superfície e uso de dispersantes de óleo) jamais funcionariam no cenário local”, alerta. A opção por dispersantes “faz com que o óleo vá para o fundo e saia da vista humana, mas é comprovadamente letal para larvas de diversos organismos marinhos”, acrescenta.

Com base nesses e em outros argumentos científicos o Ministério Público Federal no Amapá recomendou ao Ibama que indeferisse a licença ambiental à empresa francesa Total que pretendia explorar petróleo na foz do rio Amazonas. O órgão ambiental acatou a recomendação e negou a licença após confirmar inconsistências no processo de licenciamento e os riscos envolvidos.

Thiago Almeida, especialista em Clima e Energia do Greenpeace considera que os estudos realizados foram fundamentais para embasar a tomada de decisão pelo órgão ambiental. Ele conta que além de acompanhar esse processo, o Greenpeace promoveu uma grande campanha de mobilização contra a petrolífera francesa pelo mundo, incluindo protestos durante uma reunião de acionistas da empresa em Paris, no ano passado. Também foi lançada uma petição online que somou mais de dois milhões de assinaturas.

Apesar do desfecho dessa ação de mobilização, Almeida informou que o Greenpeace continua atento às ameaças que envolvem os corais da Amazônia, tendo em vista que a British Petroleum (BP) já manifestou interesse em explorar blocos de petróleo que devem entrar em oferta este ano nessa região. Segundo o ambientalista, esse tipo de atividade é incompatível não somente pelos impactos ambientais de grandes proporções que poderia causar, mas também por colocar em risco os modos de vida e a sobrevivência de populações tradicionais que dependem diretamente dos seus recursos naturais. A economia regional e a segurança alimentar que giram em torno do pescado existente em abundância também estariam ameaçadas, conforme alerta. Por essas e outras razões protestos contra a empresa petrolífera britânica já foram realizados pela organização ambientalista. Uma petição online também está aberta às assinaturas pelos internautas.

Estrela do mar coletada a 185 metros de profundidade. Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace

Mais estudos ainda são necessários, afirmam os cientistas

Apesar da importância das informações já divulgadas sobre a região de corais da Amazônia, Carlos Eduardo de Rezende, professor do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), outro autor do estudo, considera que ainda são necessárias muitas expedições com profissionais de diferentes áreas do conhecimento para que seja possível avançar nas investigações. “Ainda não temos a real dimensão da amplitude desta descoberta, pois nos falta apoio por parte das agências de fomento, além de equipamentos adequados para acessar todas as informações necessárias”, afirma.

Segundo o pesquisador, a Petrobras já demonstrou muita competência em explorar petróleo em áreas profundas e ultraprofundas no Brasil. “No entanto, as pesquisas oceanográficas no nosso país ainda são muito incipientes por falta de embarcações devidamente equipadas”, pondera. Por esse motivo, Rezende ressalta que o conhecimento brasileiro em termos de ciências do mar está mais restrito às áreas rasas e que, muitas vezes, há dependência de embarcações estrangeiras ou até mesmo de apoio da Petrobras, durante os projetos de licenciamento ambiental.

Paralelamente à tentativa de estabelecimento de novas parcerias, o professor Francini Filho ressalta que ainda há uma grande quantidade de dados, obtidos durante a última expedição, em fase de análise ou de elaboração de publicação.  Ele argumenta que, apesar das peculiaridades que envolvem o processo de pesquisa, a equipe tem trabalhado arduamente para que o embasamento científico possa subsidiar ações de conservação da natureza em tempo hábil. O pesquisador exemplifica que, no caso recente da negativa do Ibama à solicitação de licença ambiental para exploração de petróleo em um dos blocos da região, ele mesmo encaminhou os resultados das pesquisas ao Ministério Público.

Recomendações científicas devem apoiar ações de conservação da natureza

 Fabiano Thompson, professor do Instituto de Biologia e da Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), outro autor do estudo, ressalta que a pesquisa fornece as linhas de base para o entendimento da estrutura e funcionamento deste sistema complexo. Para o pesquisador, é importante considerar que, além de conter a maior extensão de recife de corais do Brasil, a região amazônica comporta o maior sistema de mangues e a maior floresta tropical do mundo.

Sobre a importância das descobertas científicas, Thompson destaca a elevada presença de biodiversidade ainda pouco conhecida. “Existem dezenas de espécies novas de esponjas e outros invertebrados que estão sendo catalogadas apenas agora.” Ele observa, ainda, que os estados do Pará e do Amapá são os principais produtores de pescado do Brasil, razões que sinalizam com a relevância de definições de estratégias para a conservação desse patrimônio natural.

Para o professor Francini Filho, apesar de sua importância ecológica, além de abarcar projetos ambiciosos para exploração petrolífera, a região pesquisada apresenta uso intenso e crescente por grandes frotas de pesca artesanal e industrial, assim como concentra grande tráfego marítimo para escoamento de produtos como a soja. “Nesse cenário, e diante das ameaças crescentes das mudanças climáticas, é urgente a adoção do princípio da precaução (orientado pelo direito ambiental internacionalmente)”. O pesquisador também considera fundamental impulsionar o conhecimento científico para que se possa subsidiar a aplicação de ferramentas de planejamento que permitam conciliar as atividades econômicas com a conservação da biodiversidade, “de preferência com um processo participativo que envolva todos os usuários”.

Tendo em vista a importância da atividade pesqueira na Amazônia e a falta de acompanhamento de desembarque de pescado no Brasil, o professor Francini Filho ainda enfatiza que esse serviço seria essencial para informar como as frotas pesqueiras da região utilizam os recifes e se os seus processos de capturas são sustentáveis ou não.

O navio Esperanza do Greenpeace, usado durante expedições científicas na Amazônia. Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace
O navio Esperanza do Greenpeace, usado durante expedições científicas na Amazônia. Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace

Ciência e ativismo ambiental somando esforços

 A aproximação com o Greenpeace começou em 2016, após a publicação de um artigo assinado por uma equipe de pesquisadores brasileiros, sobre os corais da Amazônia, na revista Science Advances. O trabalho já sinalizava para a importância do sistema pesquisado, mas os investigadores sabiam que precisariam de mais suporte tecnológico para avançar em resultados. Até então, o trabalho tinha contado com apoio de navio da Marinha do Brasil. Nas expedições de 2017 e 2018, além da logística garantida pelo Esperanza, o suporte da organização ambientalista incluiu um submarino que permitiu filmar pela primeira vez a região, a 90 metros de profundidade. Mas há partes dessa extensa área que podem chegar a 500 metros.

O professor Carlos Eduardo de Rezende considera que o artigo científico publicado em 2018 teve um grande impacto, devido à capacidade de divulgação dos resultados desta pesquisa pelo Greenpeace. Apesar de reconhecer a importância do apoio recebido da organização ambientalista, Francini Filho enfatiza: “Após mais de 20 anos na luta ambiental, aprendi que apenas com ciência de qualidade, publicada em periódicos de alto impacto, conseguimos combater projetos destrutivos e subsidiar ações de conservação com sucesso”.  Seguindo uma linha de raciocínio semelhante, Fabiano Thompson opina: “O ideal é que o estado cumpra o seu papel no que tange às ciências do mar, fomentando os avanços e não deixando a ciência à míngua.”

O professor Rezende, ainda demonstra preocupação com o cenário ambiental brasileiro e complementa o alerta: “Eu diria que esta área está sob um eminente risco não somente pela atividade de exploração de petróleo, mas pelo pouco caso com que as questões ambientais têm sido tratadas no Brasil”.

12/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.


Escrito por Elizabeth Oliveira

Jornalista apaixonada por temas socioambientais. Fez doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED), vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, e mestrado em Ecologia Social pelo Programa EICOS, do Instituto de Psicologia da UFRJ. Foi repórter do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro e colabora com veículos especializados, além de atuar como consultora e pesquisadora.

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