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Solidariedade contra a corrente: a resiliência de Juiz de Fora e Ubá em meio ao descaso

Tragédia na Zona da Mata mineira, para além da crise climática, é acentuada por um abandono estrutural; mobilização popular ajuda a enfrentar a catástrofe

ODS 13 • Publicada em 26 de fevereiro de 2026 - 18:43 • Atualizada em 26 de fevereiro de 2026 - 18:52

Juiz de Fora e Ubá enfrentam hoje um cenário que evoca os fantasmas mais sombrios de sua história. Enquanto escrevo este relato na tarde de quinta-feira, o número de vítimas fatais já ultrapassa a marca de 50 pessoas. A gravidade da situação atual encontra um paralelo doloroso na maior inundação da história de Juiz de Fora, ocorrida no Natal de 1940, quando o Rio Paraibuna transbordou após três dias de chuvas intensas, desabrigando duas mil pessoas e destruindo 150 imóveis.

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A tragédia que atravessa 86 anos agora não é apenas um evento extremo da natureza; ela é acentuada por um abandono estrutural. Nos últimos três anos, o governo de Minas Gerais reduziu em mais de 95% o investimento em ações relacionadas aos impactos das chuvas. A verba para conter danos, que era de R$ 134 milhões, despencou para apenas R$ 6 milhões entre 2023 e 2025. O resultado desse descaso é uma “paisagem de guerra” enfrentada pela população.

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Marmitas em preparo para os desabrigados pelas chuvas: solidariedade e resiliência de Juiz de Fora e Ubá em meio ao descaso (Foto: Fórum de Cozinhas Solidárias)

Abaixo, narro a mobilização popular que, apesar do sucateamento dos recursos, mantém a dignidade da região por meio de três frentes de ação.

Alimento como resistência: a logística do Fórum de Cozinhas

O Fórum de Cozinhas Solidárias de Juiz de Fora tornou-se o sustentáculo da segurança alimentar na região. Sob a coordenação de Danilo Viturino, a rede articula doações que saltaram de 1,3 para 14,8 toneladas de alimentos para suprir a emergência. O desafio, porém, vai além da comida: é a luta contra a invisibilidade e a falta de recursos fixos.

“A ansiedade de não saber se vai ter doação no mês que vem é uma situação muito complicada. (…) A nível coletivo, a gente está com essa dificuldade de formalizar o fórum enquanto uma pessoa jurídica, sabe? Isso tem sido uma entrave na possibilidade de a gente expandir o nosso trabalho, de conseguir pleitear recursos em editais.” 

Danilo reforça que a escolha dos locais de atuação passa pela viabilidade humana, já que o braço do Estado é curto: “Como as cozinhas trabalham em sua grande maioria com voluntários, não dava para poder ficar escolhendo a dedo qual cozinha a gente queria que ficasse por conta de dar esse auxílio às comunidades. (…) A gente precisa de ter muita energia mental e gasta tempo, energia física, paciência e disponibilidade.” 

A casa inundada de Vanessa e as marmitas servidas aos desabrigados pelo Instituto Fênix: mobilização popular para enfrentar a enchente (Foto: Arquivo Pessoal)

A voz da sobrevivência: o relato de Vanessa

Vanessa Farnezi, do Instituto Fênix, vive o paradoxo de ser uma agente de ajuda e, ao mesmo tempo, uma vítima da destruição. O relato de sua saída de casa é um testemunho da gravidade da inundação e da falha no socorro imediato para quem ficou ilhado.

“O pior foi sair de casa, mas agora a gente conseguiu sair pela janela, um vizinho resgatou a gente porque o pessoal estava dando prioridade aos deslizamentos, com certeza, para tentar salvar as vidas ainda, e o pessoal que estava alagado teve a gente se virar. (…) Hoje eu não tenho condições de ir lá e pegar ainda o que sobrou. A gente está dormindo lá na casa [do meu filho].” 

Mesmo diante da perda material, a mobilização para alimentar o próximo não parou: “Nós estamos aqui mobilizados, sim, a nossa doação diária, 150 marmitex. Então, a gente dobrou esse número de refeições para estar atendendo às vítimas das enchentes da cidade”.

Dignidade em kits: a ação direta do Anjos da Rua

Enquanto a comida chega pelas marmitas, a limpeza e a higiene pessoal são garantidas por grupos como o Anjos da Rua. Pietro explica que o trabalho é cirúrgico, focando no que as famílias precisam para retomar o mínimo de dignidade dentro de suas casas cobertas de lama. “A gente tá recebendo doações de materiais de limpeza, vassoura, baú de água sanitária, tudo de material de limpeza que precisar, kits de higiene, sabonete, lâmina de barbear, giletes, pasta de dente, escova de dente, shampoo, todas essas coisas aí a gente tá recebendo, que é o que o pessoal tem precisado mais.”

A logística do grupo é baseada na mobilidade e no conhecimento do terreno, suprindo onde o poder público não alcança: “A gente pega, monta kit, junta tudo e a gente sabe que onde está mais afetado, então rodamos a cidade nos pontos afetados, vendo quem tá precisando’’’ conta, além de explicar que eles também ajudam a abastecer os pontos de distribuição local que a própria comunidade está montando, usando garagens, por exemplo.

A história de 1940 ensina sobre a força das águas, mas 2026 nos ensina sobre a força da organização popular frente ao descaso orçamentário. O povo de Juiz de Fora e Ubá está, como diz Danilo, exercendo a “praxis”: juntando a teoria da solidariedade com a prática da sobrevivência.

 

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