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O empoderamento feminino e o clima

Mulheres são as que mais sofrem com o aquecimento global, mas podem ser também as principais agentes das mudanças


Manifestante, em Paris, protesta contra o aquecimento global: "Feminismo e ecologia, um mesmo combate". Foto Valentin Belleville / Hans Lucas
Manifestante, em Paris, protesta contra o aquecimento global: “Feminismo e ecologia, um mesmo combate”. Foto Valentin Belleville / Hans Lucas

As discussões envolvendo a participação das mulheres na luta contra a mudança do clima tomam corpo, depois de décadas nas quais o preconceito toldou a questão, mantendo-a longe do debate público. Agora são constantes e ocupam um fórum cada vez mais amplo, e é impossível não dar a elas importância devida. Isso porque “gênero e clima estão inextricavelmente ligados”, como disse recentemente a ambientalista Katharine Wilkinson, em uma conferência Ted (veja o vídeo abaixo).

Contra esse cenário, temos a determinação corajosa, a energia imensa e o espírito inabalável das mulheres em todo o mundo – cujos conhecimentos, habilidades e liderança estão sendo usados para encontrar soluções

Cristina Figueres
Ex-diretora de Assuntos do Clima da ONU

Wilkinson, doutora em Geografia e Ambiente pela Universidade de Oxford, é vice-presidente do Drawdown, organização voltada à pesquisa de soluções para o aquecimento global.  “Quando comunidades são dizimadas por enchentes, secas, tsunamis ou incêndios, elas estão entre os que sofrerão mais”, afirma ela. Isto porque as mulheres têm menos dinheiro e liberdade, e nestes momentos de perda extrema são mais sujeitas a serem feridas ou mortas durante um acidente natural, explica. A seca prolongada pode precipitar casamentos precoces em famílias em luta contra a escassez. Enchentes levam à prostituição como último recurso, “e estas dinâmicas são mais agudas sob condições de pobreza”.

Wilkinson, no entanto, não deixou a esperança de lado. Argumenta que, se as mulheres forem mais empoderadas, o efeito que isto trará para o ambiente fará uma enorme diferença na luta contra a mudança do clima. Se as mulheres forem tratadas com igualdade profissional, terão menos filhos e a terra da qual cuidam se tornará mais eficiente. Mulheres produzem de 60 a 80 por cento do alimento em países de baixa renda.

Entretanto, devido a leis locais e preconceitos arraigados, as mulheres agricultoras têm menos recursos e apoio de seus governos, e menos direitos à sua própria terra. Há mesmo lugares onde elas precisam da assinatura de um homem para pegar dinheiro emprestado. As questões de gênero demoraram a entrar no debate sobre a mudança do clima.  E isto de deveu, em parte à competição entre prioridades, mas também por conta de o fenômeno ser percebido como algo global, sem atenção aos diferentes impactos que poderia acarretar para mulheres e homens.

Mulher carrega o filho pelas margens do poluído rio Buriganga, em Bangladesh. Foto Syed Mahamudur Rahman/NurPhoto
Mulher carrega o filho pelas margens do poluído rio Buriganga, em Bangladesh. Foto Syed Mahamudur Rahman/NurPhoto

Wilkinson é mais uma voz atuante em um cenário de forte militância. As evidências são claras. Um número cada vez maior de estudos socioeconômicos, agora expõem a desigualdade. No mundo em desenvolvimento, por exemplo, as mulheres ficam com a maior parte das tarefas de coletar água, lenha e forragem, além de cuidar dos animais que provêm a alimentação das famílias. São elas que lutam na linha de frente contra a escassez de recursos naturais, que desaparecem em um cenário de aquecimento global. E com isso ficam para trás na busca por melhores oportunidades.

A carga resultante de trabalho e serviço doméstico torna difícil que as mulheres continuem em atividades de geração de renda. A ligação entre elas e a mudança do clima deve ir além de demonstrar sua vulnerabilidade.  Há muito ainda a ser feito na criação de políticas que levem em conta as desigualdades de gênero em detalhe suficiente para mudar o quadro, fazendo com que saiam do ciclo perene de pobreza, privação e ignorância.

Em um seminário recente em Haia, “Lidando com as dimensões de gênero da mudança do clima e da segurança”, Amanda Kron, coordenadora do programa ambiental da ONU,  afirmou que com o aumento das temperaturas e as mudanças no padrão de chuvas, os homens agora migram em busca de pastos para seu gado, levando as mulheres a cuidar de seus lares, deixando de contribuir significativamente com suas ações para combater o aquecimento global.

A escritora Margaret Atwood, autora de The Handmaid´s Tale, diz que “não há uma mudança do clima, há uma mudança de tudo. De acordo com ela, o aquecimento global vai trazer um futuro distópico reminiscente de suas ficções, sobrando para as mulheres um quadro de repressão brutal, fome e guerra. Na série, mulheres são privadas de todos os direitos e tornadas máquinas de engravidar.

Mais eventos extremos do tempo, como secas, enchentes e o aumento do nível do mar destruirão terras agricultáveis e ameaçarão a vida marinha. “Isto vai resultar em menos alimentos, e mulheres e crianças terão problemas com a desigualdade na distribuição de comida, mais ainda do que hoje”, diz ela.

Cristina Figueres, ex-diretora de assuntos do clima da ONU, acredita no poder feminino como gerador de transformação. “Contra esse cenário, temos a determinação corajosa, a energia imensa e o espírito inabalável das mulheres em todo o mundo – cujos conhecimentos, habilidades e liderança estão sendo usados para encontrar soluções”.


Escrito por José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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