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Em busca do smartphone sustentável

Com alta emissão de carbono na fabricação e produção imensa de lixo eletrônico, celulares são um desafio para empresas


Lançamento em Berlin do Fairphone 3: Eva Gouwens, CEO da empresa holandesa explica que novo celular conta com cinco materiais que têm origem em processos sustentáveis (Foto: Bernd von Jutrczenka/DPA)
Lançamento em Berlin do Fairphone 3: Eva Gouwens, CEO da empresa holandesa explica que novo celular conta com cinco materiais que têm origem em processos sustentáveis (Foto: Bernd von Jutrczenka/DPA)

Existem hoje no mundo 5.18 bilhões de celulares. Destes, pelo menos 2.7 bilhões são smartphones – ou seja, 35% da população mundial têm um deles. São aparelhos que consomem pouca energia em sua operação, e 85 % de suas emissões de gases de carbono vem de sua produção. A maior parte da energia consumida no processo se deve à mineração de metais preciosos colocados em seus chips e placas-mães. Estes são extraídos em muitas zonas de conflito. Só a compra de um celular envolve dez vezes mais energia que o uso de um por dez anos.

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Mas esta é apenas parte do problema. São máquinas de conserto caro e, com sua obsolescência, duram pouco, causando um enorme desperdício de materiais e uma quantidade imensa de lixo eletrônico – que vai parar aos milhões em cidades de países como a Índia e China, onde seu desmanche custa vidas por conta do grau tóxico de seus componentes. 

Assim, fabricar um smartphone que dura muito pode ser uma saída. É a proposta da empresa holandesa Fairphone, que lançou mês passado o terceiro modelo do que chama de um telefone ético – porque cinco de seus materiais (estanho, plástico, cobre, ouro e tungstênio) têm origem em processos sustentáveis.  Os três primeiros são 50% reciclados. Além deles, a empresa agora busca a exploração limpa de cobalto, lítio e um metal raro chamado neodímio. A ideia é ter até o final do ano 40% de todos eles de fontes sustentáveis ou reciclados. 

Desenvolvemos nosso terceiro modelo para ser uma alternativa sustentável real no mercado, o que é um grande passo para uma mudança duradoura. Ao criar um mercado para produtos éticos, queremos motivar toda a indústria a agir com maior responsabilidade, já que não podemos fazer isso sozinhos. Pensamos em uma economia onde a consideração pelas pessoas e o planeta seja um modo natural de fazer negócios

Ewa Gouens
CEO da Fairphone

Não é muito mas é um bom começo. São apenas oito materiais, mas um smartphone tem em geral 40 deles diferentes, que se integram de modos diversos como componentes. Cada um deles tem sua complexa rede de fornecimento. Pode haver cinco empresas diferentes entre a fabricação e sua origem. O que a Fairphone planeja é focar em redes onde a empresa acredita que sua pesquisa pode ter o maior impacto.

Para ilustrar a dificuldade de rastrear fornecedores, a gerente de rede Laura Gerritsen conta que começou pelo ouro, que tem o maior peso na placa de circuito.  E falou com os fornecedores do minério para saber exatamente sua procedência. Então seguiu todos os sub-fornecedores até descobrir as minas de extração, agora pronta para convencê-los a buscar minas certificadas por sua companhia, para garantir padrões de segurança aos trabalhadores, direitos das mulheres e transparência, entre outros critérios. Apenas este processo durou dois anos. 

Outro exemplo é o do cobalto utilizado nas baterias. A empresa está recolhendo lixo eletrônico de países como Gana e Nigéria, na tentativa de salvá-las. O cobalto ainda não é utilizado nos telefones de agora, mas o cofundador Miquel Ballester disse que a companhia está fazendo testes com esta meta em vista.  Ela acredita que ações assim ajudarão a educar o consumidor a insistir em materiais éticos na hora da compra.

A CEO da Fairphone, Eva Gouwens, explicou o novo modelo. “Desenvolvemos nosso terceiro modelo para ser uma alternativa sustentável real no mercado, o que é um grande passo para uma mudança duradoura. Ao criar um mercado para produtos éticos, queremos motivar toda a indústria a agir com maior responsabilidade, já que não podemos fazer isso sozinhos. Pensamos em uma economia onde a consideração pelas pessoas e o planeta seja um modo natural de fazer negócios”.

É uma iniciativa ambiciosa, a de gerar um clima que empurre o setor de eletrônica de consumo em direção a um futuro circular – com condições mais justas de trabalhos em todas as duas redes e redução de lixo e uso de recursos, o foco na longevidade do produto com modelos mais fáceis de consertar e na reutilização de componentes. 

Um grande problema, conta o fundador da empresa Bas van Abel, é que quanto mais  fundo se mergulha na malha de fornecimento, mais confusão se encontra, e pior fica. Mas na ponta da fabricação as coisas são mais controladas. O Fairphone é montado em uma fábrica parceira em Taiwan, a Arima. Seus trabalhadores ganham bônus por desempenho com base em metas sociais., em vez de adotar uma atitude que é praxe no mercado, a de punir fabricantes que não conseguem cumprir metas exageradas de entrega.


Escrito por José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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