Até logo, Descarbonário Alfredo Sirkis!

Alfredo Sirkis em um almoço, em 2019, com a mulher Ana Borelli, a equipe CBC e Karenna Gore. Foto Arquivo Pessoal

Uma homenagem ao ex-deputado, ex-vereador, ex-guerrilheiro e eterno ambientalista

Por Cassia Moraes | ODS 13 • Publicada em 11 de julho de 2020 - 14:34 • Atualizada em 25 de agosto de 2020 - 10:05

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Alfredo Sirkis em um almoço, em 2019, com a mulher Ana Borelli, a equipe CBC e Karenna Gore. Foto Arquivo Pessoal

Em um momento de tanta dor coletiva, retrocessos e ataques à democracia e ao futuro, o Brasil e o mundo perderam um de seus maiores aliados. Alfredo Hélio Sirkis, 69, deixou-nos na tarde desta sexta-feira, vítima de um trágico acidente de carro no Arco Metropolitano (BR-493), na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Sirkis, como era conhecido no movimento climático, era um carioca “sem papas na língua”. Para defender seus ideais, não tinha meias palavras. Ex-guerrilheiro, ele foi integrante do grupo Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), e relatou suas peripécias na obra “Os Carbonários”, best-seller e vencedor do prêmio Jabuti.

“Sinto-me a muitos anos-luz do guerrilheiro Felipe com seus 19 anos e sua intrincada mescla de revolta e pulsão de ser herói, viver a aventura da nossa geração, que depois, como disse Alex Polari, se cortou com cacos de sonho. Não me desconforta esse passado, também não me enaltece.” – reflete o autor sobre o período.

Coincidência ou sincronicidade, Sirkis tinha lançado recentemente seu mais novo livro: Descarbonário, mais uma obra onde sua biografia mistura-se com eventos históricos para o movimento ambientalista. A última vez que falamos, inclusive, foi há uma semana, durante uma das “Lives” de lançamento do livro. A gente nunca sabe quando será a última vez que vamos falar com uma pessoa querida. Talvez seja melhor assim, o que nos obriga a manifestar nossa admiração e carinho ao longo de toda a vida. Naquela noite feliz, com presença de Gilberto Gil e tantos amigos, a última coisa que me passava na cabeça era que aquela seria também uma despedida. Contudo, reflexiva, pensei na alegria que é chegar àquela idade com tantos amigos e conquistas. Como disse Leonardo da Vinci, “assim como um dia bem aproveitado traz um sono feliz, também uma vida bem empregada traz uma morte feliz”.

E se há alguém que empregou bem a vida, essa pessoa foi Alfredo Sirkis. Não só no âmbito pessoal, colecionando amigos, aventuras e experiências singulares, mas também à serviço de seu país, do mundo, das futuras gerações. Falando sobre futuras gerações, minha última pergunta para ele foi “qual conselho você daria para o jovem Sirkis se você tivesse hoje 19 anos e estivesse começando a carreira no clima?”. Com seu jeito brincalhão, ele disse: “Se fosse na época, eu diria não se meta na luta armada”. E continuou: “O conselho que eu daria hoje é lute, lute, lute muito, e de forma consequente, de forma inteligente, não de forma narcísica. A luta tem que ser eficaz, a mobilização tem que ser em cima de propostas factíveis, inteligentes e no sentido de uma descarbonização. O movimento jovem tem que ir além do protesto, e se colocar não deve ser mais importante do que a vitória da causa propriamente dita. Então o conselho que eu daria é: procure estudar ao máximo a sua causa, a razão pela qual você está lutando e entender ao máximo como ela pode ser vitoriosa. Luta política não é terapia de grupo. Tem objetivos, mediações, avanços, recuos e obstáculos, que têm muitas vezes que ser contornados – não podem ser pulados”.

No livro ele também conta um dos “causos” dele com um tal de Jair Bolsonaro (história que eu tive o privilégio de ouvir pelo menos umas 100 vezes durante as diversas reuniões que fizemos juntos). Sirkis, que até então achava essa história “engraçada e folclórica”, disse que, para ele a história acabou perdendo a graça devido à resposta desastrosa do “capitão” à pandemia do coronavírus. Certa vez, quando ambos ainda eram deputados, ele estava numa reunião da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, quando Jair protesta dizendo “Ahh, o Sirkis se diz ecologista, mas ignora o principal problema ecológico da humanidade!”. Jocoso, Sirkis responde: “Ah é mesmo, Jair? Então me diga: qual é o principal problema ecológico da humanidade?”, ao que o capitão responde “A superpopulação!”. Sem perder nem o inimigo, nem a piada, Sirkis responde de forma brilhante: “Olha só, Jair: você acabou de dar um excelente argumento a favor do casamento gay!”. Segundo Sirkis, na ocasião nem sua “vítima” conseguiu segurar a risada.

Alfredo Sirkis e ambientalistas brasileiros na COP 25, em Madri (2019). Foto Arquivo Pessoal
Alfredo Sirkis e ambientalistas brasileiros na COP 25, em Madri (2019). Foto Arquivo Pessoal

Eu tive o privilégio de trabalhar e aprender com o Sirkis nos últimos três anos. Foram inúmeras viagens para Brasília, Rio de Janeiro e eventos internacionais. Muita correria e dedicação, afinal a crise climática não pode esperar. Esse senso de urgência, juntamente com a luta de uma vida por justiça, doa a quem doer, faziam com que ele parecesse não ter muita paciência. Mas como disse Greta Thunberg, em Davos, como ter paciência se “nós estamos há uma década de não poder reverter nossos erros? Os líderes políticos têm que liderar como se estivessem numa crise, como se a nossa casa estivesse pegando fogo, porque ela está.” Uma das coisas que mais me impressionavam no Sirkis era a sua abertura para novas ideias, ainda que depois de muito debate. Não conheço nenhum outro ambientalista brasileiro da geração dele, por exemplo, que defenda abertamente que o consumo de carne tem seus dias contados. Visionário, era como se ele tivesse uma bola de cristal para identificar tendências futuras e fazer análises de conjunturas com lucidez, pragmatismo e uma esperança cautelosa.

Pouco depois das eleições de 2018, ele profetizou em um evento: tempos negros virão, muita coisa será destruída, essa onda permanecerá por mais tempo do que a gente gostaria, mas vai passar. Até porque, ser pessimista é um luxo que nós não temos. Incansável até seu último dia de vida, Sirkis seguia inabalável, adaptando a estratégia e buscando novas formas de vencer uma batalha que, para muitos, já está perdida. Sua última obsessão, que ele conseguiu incluir no artigo 108 do Acordo de Paris, era a “precificação positiva do menos-carbono”, uma forma de incentivar as atividades que reduzem as emissões de carbono ou o capturam. Na atual conjuntura, Sirkis adaptava essa proposta num “lobby do bem” por uma recuperação sustentável pós covid-19, liderada pelos estados, governo local e sociedade civil.

Ex-Deputado Federal, Vereador, Secretário do Meio Ambiente, Coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima…Tantos papéis desempenhados com maestria na luta por um mundo mais justo e sustentável! Como amiga, aprendiz e ativista climática, estou devastada com a notícia e envio os meus sentimentos para a família e outros amigos que também ficaram arrasados com esta perda inestimável. Uma pessoa justa, íntegra, que dedicou toda uma vida para fazer o Brasil e o mundo melhores. Daquelas pessoas autênticas e tão difíceis de encontrar. Vai fazer uma falta enorme, mas vamos trabalhar ainda mais para honrar e avançar no legado que ele deixou rumo ao futuro que merecemos. Como Sirkis, continuaremos plantando as sementes sem nos importarmos se estaremos aqui para ver seus frutos.

“E quando passarem a limpo

E quando cortarem os laços

E quando soltarem os cintos

Façam a festa por mim

Quando largarem a mágoa

Quando lavarem a alma

Quando lavarem a água

Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores

Quando crescerem as matas

Quando colherem os frutos

Digam o gosto pra mim…”

Cassia Moraes

Cassia Moraes é mestre em administração pública e desenvolvimento pela Universidade de Columbia, CEO do Youth Climate Leaders (YCL) e coordenadora de redes e captação no Centro Brasil no Clima.

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