Inovação e sustentabilidade nos negócios

Representantes de empresas brasileiras em reunião na COP26: negócios com foco em inovação e sustentabilidade (Foto: Alain Jocard / AFP – 02/11/2021)

Empresas brasileiras ainda estão construindo soluções para alcançar a neutralidade climática até 2050, mas o ponto de chegada está colocado

Por Marina Grossi | ArtigoODS 12ODS 9 • Publicada em 11 de março de 2022 - 09:30 • Atualizada em 16 de março de 2022 - 08:03

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Representantes de empresas brasileiras em reunião na COP26: negócios com foco em inovação e sustentabilidade (Foto: Alain Jocard / AFP – 02/11/2021)

Estamos em tempos de transformação nos negócios. As imposições trazidas pela pandemia de covid-19 aceleraram uma série de mudanças, além de evidenciar a interdependência entre a emergência climática – que já provoca alterações substanciais na operação das empresas – e a disponibilidade de água, alimentos e energia. Estamos na década da transformação, e, mais do que nunca, é necessário atuar de forma estratégica e inovadora.

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O mundo entrou em uma nova era, guiada pela economia verde. Isso ficou ainda mais claro com os compromissos assumidos na 26ª Conferência do Clima das Nações Unidas, ou COP26, em novembro passado, quando quase 200 países-membros da ONU concordaram em reduzir gradativamente os subsídios aos combustíveis fósseis e o uso do carvão, além de diminuir as emissões de metano. Para o Brasil, isso abre inúmeras oportunidades, tanto na atração de recursos quanto na geração de emprego e renda, mas temos de implantar a agenda da economia de baixo carbono no timing correto – por isso é tão importante que a ação comece agora.

O setor produtivo sabe disso, como mostrou a grande participação das empresas na COP26. O CEBDS, por exemplo, que representa quase 50% do PIB brasileiro, capitaneou o posicionamento “Empresários pelo Clima”. Promovido por seu Conselho de Líderes, que reúne os CEOs de suas associadas, o posicionamento teve a assinatura de 119 empresas e 14 entidades do setor privado.

Esse protagonismo influenciou compromissos importantes do governo brasileiro, como a meta de reduzir 50% dos gases de efeito estufa até 2030 em relação aos níveis de 2005; e oficializar o compromisso de alcançar a neutralidade climática até 2050 – não mais até 2060.

Cabe às empresas, agora, enfrentar os desafios para a implantação dos compromissos assumidos. E isso passa por incorporar a questão do clima e a agenda ESG à estratégia de negócios, engajando os Conselhos de Administração e a alta liderança, e também colocando a redução das emissões de gases de efeito estufa como um vetor para a inovação. Os Conselhos, responsáveis pelo direcionamento estratégico dos negócios, precisam estar letrados nas questões sociais, ambientais e de governança.

As empresas ainda estão construindo soluções para alcançar a neutralidade climática até 2050, mas o ponto de chegada está colocado. O CEBDS está preparado para auxiliar o setor empresarial nesse processo: uma das ações é o desenvolvimento de uma plataforma net zero para troca de experiências e conhecimento entre as companhias, inclusive em temas críticos, como as emissões do escopo 3 (cadeia de valor).

Há outras importantes iniciativas em curso, como a Chapter Zero Brasil, da qual faço parte, que sensibiliza e mobiliza a alta gestão a abordar o desafio da mudança climática nos Conselhos e é representada no país pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

A incorporação do desenvolvimento sustentável à estratégia dos negócios deve ser acompanhada de inovação tecnológica e social, que atenda a critérios ESG capazes de acelerar as transformações de que precisamos. As empresas participantes do estudo “Neutralidade Climática”, lançado pelo CEBDS na COP26, analisou iniciativas de 77 empresas associadas e verificou que elas possuem ambiciosas agendas climáticas, com compromissos públicos e metas baseadas na ciência para a redução de suas emissões.

Usina Solar da Neoenergia em Fernando Noronha: investimento em tecnologia para alcançar neutralidade climática (Foto: Divulgação / Neoenergia)

Na Neoenergia, a estratégia de negócio é orientada para acelerar a transição rumo à neutralidade climática. A integração de novas fontes renováveis (eólica e solar) na matriz e a eletromobilidade tornam a distribuição de energia mais complexa. A digitalização, portanto, é um caminho necessário à descarbonização, o que fez a companhia instalar 75 mil medidores inteligentes. Além disso, adotou um projeto de precificação interna de carbono, com projetos de P&D (caminhão elétrico e bateria para armazenamento solar), eficiência energética, blindagem de redes e eletrificação da frota.

A BRF, também com sua cadeia de valor, disponibilizou R$ 200 milhões para que criadores de frangos e suínos integrados à empresa façam a transição para fontes renováveis de energia em suas operações. Assim, mais de uma centena de projetos de usinas solares nas propriedades dos fornecedores estão em desenvolvimento, apoiando a empresa em seus compromissos do escopo 3, que é reduzir as emissões em 12,3% até 2030.

Já a Vale trabalha para reduzir 33% das emissões de escopos 1 e 2 até 2030, mas estabeleceu uma meta pioneira para o setor de mineração no escopo 3 (cadeia de valor), de reduzir 15% das emissões líquidas até 2035. Nessa direção, a empresa mapeia, desde 2020, projetos e oportunidades e utiliza a curva de custo marginal de abatimento para priorizar as iniciativas mais eficientes em termos de custos e potencial de redução de emissões.

Além de estratégia e inovação, cresce a importância no ambiente dos Conselhos de Administração para que o “S” do ESG se reflita em maior diversidade dos membros em gênero, etnia/raça e orientação sexual. Pesquisa realizada pelo IBGC em parceria com o Sistema B, em outubro passado, com 86 empresas de diferentes portes, apontou que 80% disseram considerar a pauta da diversidade importante, mas 77% responderam não ter metas para ampliar a atuação de pessoas negras no conselho ou na diretoria.

Mais: cerca de metade das empresas diz também não ter metas para aumentar a participação de mulheres, seja na diretoria (51,9%) ou nos conselhos consultivos e de administração (56,1%). É sabido que a diversidade nas empresas, além de uma questão de justiça social, induz também a maior inovação – é, portanto, estratégica.

O momento é agora. As grandes oportunidades para o país e, portanto, para as empresas que atuam no Brasil virão no curto e médio prazos (até 2030). O Brasil não pode perder o timing e deve mostrar que está realmente comprometido em cumprir as metas climáticas, sob pena de sofrer embargos comerciais, perder mercados e a oportunidade de se posicionar com uma liderança na nova economia de baixo carbono que, enfim, está emergindo.

Marina Grossi

Marina Grossi é economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010. Foi negociadora do Brasil na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima entre 1997 a 2001 e coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto.

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