(Alexandre Gaspari e Daniel Aleixo*) – O mês de fevereiro de 2026 ainda não terminou e ficará marcado pelo recorde de chuvas em várias regiões do Brasil, mas principalmente no Sudeste. Os temporais típicos de verão estão cada vez mais frequentes e intensos na região – especialmente em regiões costeiras e de encostas como o litoral de São Paulo e na Zona da Mata mineira. Um sinal claro das mudanças climáticas, que têm na queima de combustíveis fósseis sua principal causa.
Como mais de 30 mortos em decorrência das chuvas extremas apenas nos últimos dias, sem falar nos estragos materiais, é cada vez mais evidente que adaptar as cidades deixou de ser uma discussão técnica distante e passou a ser uma necessidade prática e urgente. Prefeituras, governos estaduais e o governo federal precisam olhar para os territórios com estratégia: saber onde a água sempre volta; quais morros oferecem risco; quais bairros alagam primeiro. Isso envolve revisar mapas de risco, investir de forma consistente em drenagem, manter galerias limpas, proteger e recuperar áreas naturais que ajudam a absorver o excesso de água e fortalecer sistemas de alerta que realmente cheguem às pessoas a tempo.
A adaptação climática precisa ser vista de maneira integrada em todos os setores, uma vez que sistemas de saúde, que ficam sobrecarregados em casos de eventos extremos, também podem sofrer danos e estragos em um efeito cascata, como visto em Ubá (MG). Também é fundamental que os protocolos de evacuação funcionem na prática, não apenas no papel.
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Veja o que já enviamosAdaptar não substitui o esforço de reduzir as emissões que estão aquecendo o planeta e alterando o regime de chuvas. Mas é o que diminui o impacto imediato sobre quem está na linha de frente, evitando que cada novo temporal se transforme novamente em perdas humanas, sociais e econômicas.
Uma semana de chuvas extremas
Desde 19 de fevereiro, chuvas extremas atingiram o litoral de São Paulo, bem como áreas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Os temporais foram resultado de uma frente fria combinada com grande umidade em toda a região. Os acumulados ficaram muito acima da média para o mês, concentrados em curto intervalo de tempo.
No município de Peruíbe, no litoral paulista, por exemplo, em apenas seis horas, foram registrados cerca de 176 mm, o equivalente a 90% do total esperado para o mês. Outros municípios do litoral paulista também tiveram acumulados expressivos no período, como Ubatuba, Praia Grande, Bertioga e Caraguatatuba, indicando um evento amplo ao longo da costa.
No Rio de Janeiro, diversos municípios entraram em estado de alerta para deslizamentos, enchentes e inundações. Os principais municípios atingidos foram Angra dos Reis, Paraty, Petrópolis, e a capital Rio de Janeiro. Na Baixada Fluminense, várias cidades registraram 100 mm de chuvas em apenas uma hora. Em São João de Meriti, houve uma morte em decorrência dos temporais.
Já no dia 23 de fevereiro, as chuvas extremas atingiram Minas Gerais, onde municípios da Zona da Mata sofreram com recorde de precipitação. Em Juiz de Fora, os volumes acumulados ao longo do mês alcançaram 584 mm, tornando este o fevereiro mais chuvoso já registrado na cidade, com chuva quase quatro vezes acima da média histórica para o período.
Na madrugada do dia 24, as chuvas intensas fizeram o Rio Paraibuna transbordar, provocando alagamentos generalizados, deslizamentos de terra e bloqueios de vias. Foi decretado estado de calamidade pública pela prefeitura para agilizar a resposta emergencial.
Na vizinha Ubá, as chuvas também deixaram estragos. Em seis horas foram registrados 124 mm de chuva, um volume concentrado que provocou enchentes, alagamentos de ruas e transbordamento de cursos d’água, com carros sendo arrastados pela enchente e a infraestrutura urbana severamente afetada.
Quais foram os principais impactos?
Em Juiz de Fora (MG), o temporal resultou em pelo menos 30 mortes confirmadas e mais de 30 pessoas desaparecidas, com dezenas de ocorrências de deslizamentos, soterramentos e desabamentos atendidas pelo Corpo de Bombeiros.
Cerca de 440 moradores ficaram desabrigados na cidade, levando a um decreto de estado de calamidade pública e suspensão das aulas na rede municipal de ensino.
Em Ubá, as chuvas causaram transbordamento de rios e enchentes que deixaram pelo menos seis mortos.
Em São Paulo, o núcleo mais intenso da frente fria esteve no litoral paulista.
Pelo menos 100 pessoas ficaram desabrigadas em Peruíbe após as chuvas intensas; um abrigo solidário foi montado para atendimento emergencial.
As aulas foram suspensas nas escolas municipais em função dos riscos e impactos locais.
Estradas foram parcialmente danificadas devido ao volume das chuvas ao longo do fim de semana.
A Defesa Civil mobilizou um gabinete de crise para coordenar a resposta operacional diante do agravamento das chuvas.
Trechos como a Estrada do Guaraú foram interditados pela Defesa Civil após formação de “cachoeiras” sobre a pista por causa da água acumulada.
Rios e córregos transbordaram, levando a alagamentos de ruas e bairros, sobretudo no Caraguava e Balneário Samburá.
Municípios do litoral Norte de São Paulo como Caraguatatuba e Ubatuba também sofreram inundações e resgates de moradores ilhados por causa da intensidade das chuvas. A prefeitura de Ubatuba decretou situação de emergência.
Estradas e rodovias importantes no norte do litoral foram fechadas devido a queda de barreiras ou risco de escorregamentos (incluindo partes da Mogi-Bertioga e da Oswaldo Cruz).
Em Natividade da Serra, um deslizamento atingiu uma residência, com uma fatalidade registrada. Em Ubatuba, duas pessoas morreram após uma embarcação de pesca naufragar durante a tempestade na noite de sábado (21/2).
O que diz a ciência?
Um estudo publicado na revista NPJ Natural Hazards (Nature) indica que a frequência e a intensidade de eventos extremos de chuva aumentaram no Sudeste e Sul do Brasil ao longo das últimas décadas, em linha com as projeções de elevação da temperatura global do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).
O número de desastres climáticos provocados pelas chuvas no Brasil cresceu 222,8% nesta última década, segundo estudo coordenado pelo Programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo. (UNIFESP).
A proporção de municípios brasileiros afetados por desastres relacionados a chuvas extremas aumentou de 27% nos anos 1990 para 68% nos anos 2000, e atingiu 83% em 2025.
As chuvas apresentaram uma tendência de aumento de 30% nas regiões Sul e Sudeste, enquanto no Norte e Nordeste, a redução pode chegar a até 40%, segundo projeção até o ano de 2100, conforme dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC).
Especialistas têm destacado que mudanças climáticas estão associadas ao aumento da frequência e intensidade de sistemas de instabilidade, os quais podem amplificar episódios de chuva extrema no litoral Sul e Sudeste.
Quais são os prejuízos econômicos?
Total de prejuízos das chuvas reportados entre 1995 e 2023: R$ 146,7 bilhões.
Perda econômica 2020-2023: R$ 43,1 bilhões, o que é 40 vezes maior que a perda registrada na década de 1990 (R$ 1,1 bilhão). Anualmente, a perda de 2020-2023, de R$ 10,8 bilhões, é 58% superior à da década anterior (R$ 6,8 bilhões/ano, 2010-2019) e 50 vezes maior que à da década de 1990 (R$ 215 milhões/ano).
Prejuízos privados correspondem a 83% do total de perdas econômicas no período de 1995 a 2023. Os setores mais afetados foram a agricultura (47%) e o comércio (30%).
Os prejuízos públicos somam R$ 24,4 bilhões entre 1995 e 2023. Os setores mais afetados foram transporte (52%), saneamento básico (28%) e ensino (8%).
*Alexandre Gaspari é jornalista no Instituto ClimaInfo; formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), tem mestrado e doutorado em Ciências Sociais e MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras; Daniel Aleixo é especialista na área de impactos climáticos do GSCC (Global Strategic Communications Council) e do ClimaInfo
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