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A moça da caneca disputa prêmio da ONU

Após mobilizar colegas para substituírem copos de plástico, analista da Nestlé representa Brasil em evento focado nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável


Juliana Oliveira, 25 anos, com a caneca que acabou inspirando uma campanha interna da Nestlé: "#menos plástico", ela escreveu num post-it (Foto: Divulgação)
Juliana Oliveira, 25 anos, com a caneca que acabou inspirando uma campanha interna da Nestlé: “#menos plástico”, ela escreveu num post-it (Foto: Divulgação)

Um bilhetinho pregado na parede da cozinha de uma grande empresa em São Paulo, em meados do ano passado, acabou transformando a vida de Juliana Oliveira. O post-it que ela escreveu pregava a substituição de copos de plástico por canecas e copos reutilizáveis no escritório da Nestlé em São Paulo: “traga a sua caneca e contribua para um futuro mais saudável: #menos plástico”.

Juliana pensou que o bilhetinho acabaria no lixo. Mal sabia a moça de 25 anos que sua frase, quase de protesto, iria ganhar o coração de seus colegas. Ela acabou se transformando em uma inspiração dentro da empresa. Essa atitude provocativa acabou levando-a a ser finalista e única representante do Brasil do prêmio “SDG Pioneers”, de reconhecimento do Pacto Global das Nações Unidas a futuros líderes empresariais.

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Não ia cair a mão de ninguém lavar uma caneca. Aí comprei uma e fiz o bilhetinho para colocar na copa. Nunca vou esquecer: isso mudou a minha vida

Juliana Oliveira
Analista da área de Criação de Valor Compartilhado da Nestlé

A solenidade será entre os dias 22 e 25 de setembro, paralelamente à 74ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque. Juliana concorrerá com outras 17 pessoas de outros países. O prêmio é oferecido a jovens de até 35 anos que idealizaram iniciativas relacionadas à agenda global de sustentabilidade.

Essa história de sucesso começou quando funcionários do setor de Recursos Humanos da Nestlé viram o post it de Juliana na Copa e fizeram uma selfie, compartilhada na rede social da empresa. “Me dava agonia quando eu olhava aquele volume enorme de copos de plástico e eu mesmo consumia vários cafés por dia”, contou.  Juliana tinha muita proximidade com a equipe de design, e seus integrantes costumavam usar canecas. “Foi ali que eu vi que era possível ter esse hábito. Não ia cair a mão de ninguém lavar uma caneca. Aí comprei uma e fiz o bilhetinho para colocar na copa. Nunca vou esquecer: isso mudou a minha vida”, disse.

Juliana lembra que antes de colar o post-it na copa, teve um pouco de vergonha: “Será que alguém está vendo? Será que alguém vai jogar fora? Quando eu vi que não tinha ninguém por perto, fui lá e colei”, conta. “Eu sou pisciana, sou bem sonhadora, idealista”, riu.

Ao parar na rede social da empresa, o poder do bilhete foi ampliado. A ideia proposta por Juliana – analista da área de Criação de Valor Compartilhado, ou seja, o setor que cuida de responsabilidade social e sustentabilidade – acabou sendo abraçada pela empresa e transformada em uma campanha interna.

A sua ousadia pró-sustentabilidade está ligada à criação e à infância da “moça da caneca” como Juliana ficou conhecida na Nestlé, no pé da Serra do Japi, perto de Jundiaí (SP). “Eu morava bem no mato, tinha aula de horta na escola, tive muito contato com a natureza. Os meus pais separavam lixo, sempre pegavam no meu pé para não demorar no banho”, contou.

Juliana Oliveira, analista da área de Criação de Valor Compartilhado da Nestlé foi convidada a convidada a integrar um grupo de trabalho a empresa sobre canudinhos recicláveis dos achocolatados (Foto: Divulgação)
Juliana Oliveira: analista da área de Criação de Valor Compartilhado da Nestlé foi convidada a convidada a integrar um grupo de trabalho da empresa sobre canudinhos recicláveis dos achocolatados (Foto: Divulgação)

Formada na USP em Nutrição, Juliana lembra que era olhada de cara feia por colegas pelo fato de estagiar em uma grande empresa. “Mas eu sempre acreditei que era mais importante fazer a diferença dentro de uma empresa, por exemplo, do que ficar apenas de fora apontando os problemas”, explicou ela, que entrou na Nestlé como estagiária em 2015.

A ação pró-caneca acabou fazendo com que Juliana fosse convidada a integrar um grupo de trabalho dentro da empresa que estuda a questão dos canudinhos recicláveis que acompanham as embalagens de bebidas achocolatadas.

Não é preciso ter um grande cargo para influenciar as pessoas. Em tempo de influenciadores digitais, a gente esquece o nosso próprio poder de influência no dia-a-dia, na nossa rede

Juliana Oliveira
Analista da área de Criação de Valor Compartilhado da Nestlé

Em 16 de maio deste ano, Juliana ganhou o Prêmio Pacto Global da ONU, após concorrer com outras três pessoas na categoria Jovens Profissionais do Brasil. Os projetos de empresas, acadêmicos e profissionais deveriam estar alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Em 8 de junho, dia do Oceano, a empresa organizou uma imensa ação voluntária idealizada por ela: as pessoas foram catar lixo nas ruas de 22 cidades, desde o presidente da empresa, diretores, funcionários e mais de 1500 voluntários.  Foram recolhidas quatro toneladas de lixo.

Para Juliana, os colegas viram que pequenas coisas podem fazer grandes diferenças. “Não é preciso ter um grande cargo para influenciar as pessoas. Em tempo de influenciadores digitais, a gente esquece o nosso próprio poder de influência no dia-a-dia, na nossa rede”, constatou.


Escrito por Florência Costa

Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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