São Sebastião e uma aglomeração para a história do Rio

O túmulo de Estácio de Sá, a imagem de São Sebastião e marco da cidade na igreja dos Capuchinhos, na Tijuca: traslado, 100 anos atrás, provocou aglomeração histórica pelas ruas do Rio

Uma manifestação cívico-religiosa sem precedentes atravessa as ruas lotadas da cidade no dia do seu padroeiro

Por Oscar Valporto | ODS 11 • Publicada em 20 de janeiro de 2022 - 08:50 • Atualizada em 24 de janeiro de 2022 - 09:37

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O túmulo de Estácio de Sá, a imagem de São Sebastião e marco da cidade na igreja dos Capuchinhos, na Tijuca: traslado, 100 anos atrás, provocou aglomeração histórica pelas ruas do Rio

“É a maior manifestação cívico-religiosa da história desta cidade” – garante o colega jornalista, impressionado com a multidão nas ruas neste 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro. São milhares de pessoas, aglomeradas pelas ruas da cidade para acompanhar uma cortejo que reúne alunos de escolas públicas e religiosas, escoteiros e autoridades públicas, padres e freiras, representantes de entidades de trabalhadores, de comerciantes e de empresários, regimentos militares da Marinha e do Exército.

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Cariocas gostam de uma aglomeração, de um evento na rua – seja religiosa, seja cívica. A festa de maior público da cidade começou como manifestação religiosa de adeptos do candomblé e da umbanda, na virada do ano na Praia de Copacabana. Em sua primeira visita ao Rio, em 1980, o Papa João Paulo II levou um milhão de fiéis ao Aterro do Flamengo e mais 150 mil ao Maracanã; três milhões, talvez mais, estavam na missa celebrada pelo Papa Francisco, na orla de Copacabana, em 2013. São sempre mais de 100 mil pessoas nas Marchas para Jesus, realizadas todos os anos por denominações evangélicas no Rio.

Temos histórico de festas cívicas também: em 12 de outubro de 1822, uma multidão, talvez metade da população da capital, foi às ruas para aclamação do imperador Pedro I, que chegava de São Paulo, onde, a caminho do Rio, proclamara a Independência do Brasil: ainda no Império, repetiram-se as festas cívicas perto do Paço para a coroação de Pedro II e para a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. Cariocas costumavam se aglomerar no estádio de São Januário para ouvir Getúlio Vargas; 100 mil foram às ruas em 1968 para protestar contra a ditadura; éramos um milhão no comício das diretas na Candelária em 1984.

Mas manifestação cívico-religiosa, como neste dia do padroeiro, é realmente raro. Os religiosos chegaram cedo, de madrugada. Fizeram vigília, rezaram até a primeira missa, às 5 horas da manhã, celebrada pelo reverendo superior do Capuchinhos. O cardeal-arcebispo chegou para a missa das 6h, quando começaram a aparecer as primeiras autoridades civis: missa campal, em frente à igreja, àquela altura já tomada por fiéis. Chegavam grupos prontos para acompanhar o cortejo: “um momento histórico para a cidade”, nas palavras de outro colega jornalista.

Pela descrição, pela aglomeração, já deve ter dado para perceber que não estamos em 2022. Tudo isso ocorreu 100 anos atrás, em 20 de janeiro de 1922: as frases dos repórteres estão na cobertura feita pelos jornais da época. A celebração do dia do padroeiro foi especial: naquele 20 de janeiro, deixavam a antiga Igreja dos Capuchinhos, no Morro do Castelo, onde a cidade praticamente nascera, a imagem tradicional de São Sebastião, de 1537, as cinzas de Estácio de Sá, fundador do Rio de Janeiro, e o marco de fundação da cidade. Por isso, a multidão e o evento cívico-religioso: o Rio se despedia do Castelo. A última parte do velho morro, onde estava ainda a igreja, seria colocada abaixo nos meses seguintes.

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Batedores de motocicleta abriram caminho para o cortejo: religiosos à frente com a imagem de São Sebastião levando os restos mortais de Estácio de Sá e o marco da cidade. Os colegas jornalistas contaram mais de 60 estandartes, marcando a representação das diversas organizações: do Liceu Literário Português à Liga Monárquica D. Manoel, da União Comercial dos Varejistas de Secos e Molhados à Associação dos Empregados de Padarias, do Corpo de Bombeiros ao Clube de Regatas Vasco da Gama. Flores ornamentavam as ruas para a passagem do cortejo, moradores estenderam bandeiras nas varandas e janelas de residências e sobrados. Milhares, sob sol forte daquela manhã de verão, seguiram a pé, centenas acompanharam das janelas.

Igreja de São Sebastião no Morro do Castelo em 1921: história derrubada com o desmonte do monte (Foto: Augusto Malta / Biblioteca Nacional /Novembro de 1921)
Igreja de São Sebastião no Morro do Castelo em 1921: história derrubada com o desmonte do monte (Foto: Augusto Malta / Biblioteca Nacional /Novembro de 1921)

O cortejo desceu a antiga e histórica colina e organizou-se na Avenida Rio Branco, entre o Palácio Monroe, demolido 50 anos depois, e a Rua São José. Dali, a procissão percorreu a avenida, entrou pela Visconde de Inhaúma (a presidente Vargas só seria construída 20 anos depois), passou em frente ao Campo de Santana e ao Ministério da Guerra, seguiu ao longo do Canal do Mangue até alcançar a Avenida Rio Comprido (hoje Paulo de Frontin). Dali o cortejo seguiu pela Haddock Lobo até chegar a seu destino na Conde de Bonfim, onde ficava a antigo convento dos Capuchinhos, no mesmo lugar onde está hoje a Igreja de São Sebastião dos Capuchinhos: permanecem ali, cem anos depois, a pequena imagem do padroeiro, o túmulo de Estácio de Sá e o marco de fundação da cidade.

Na chegada, pouco depois do meio-dia, houve cantos religiosos e a execução dos hinos Nacional e da Independência. A multidão cercou a igreja, contida, sem tumulto, por policiais e militares. Na aglomeração, misturavam-se o sagrado e o profano, os patrões e os empregados, os artistas e os atletas, estudantes uniformizados e mães com crianças de colo – os mais devotos usavam faixas vermelhas como a da imagem de São Sebastião, padroeiro da cidade, mártir da Igreja Católica. A multidão só começou a se dispersar depois das 14h, de volta para casa para aproveitar o resto daquela sexta-feira, um dia histórico, da maior manifestação cívico-religiosa – nesses termos, talvez até hoje – desta cidade de São Sebastião, que espera ansiosa a hora de poder voltar a se aglomerar.

#RioéRua

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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