#RioéRua: a cidade contra a chuva e o baixo astral

Prainha de São Francisco sob chuva (Foto Oscar Valporto)

Fica difícil encontrar o espírito carioca entre tantas tragédias

Por Oscar Valporto | ODS 11ODS 13
Publicada em 18 de fevereiro de 2019 - 08:37  -  Atualizada em 9 de abril de 2019 - 15:12
Tempo de leitura: 8 min

Prainha de São Francisco sob chuva (Foto Oscar Valporto)
Prainha de São Francisco sob chuva (Foto Oscar Valporto)
Prainha de São Francisco sob chuva (Foto Oscar Valporto)
Prainha de São Francisco sob chuva (Foto Oscar Valporto)

Este #RioéRua surgiu do reencontro de um carioca com sua terra depois de oito anos, como uma forma de celebrar a cidade que, impulsionada pela geografia, a natureza e o clima, empurra seus moradores para fora dos ambientes fechados, para a mistura das ruas. É fevereiro, o Rio está cheio de visitantes, a cidade se prepara para o Carnaval, o sol estava se pondo às 8h da noite: mesmo assim, esta alma carioca, já bem chamuscada por um inferno astral caprichado, não tem clima para caminhar festiva pela rua depois desta sequência de tragédias.

É verdade que tempestades de verão e suas consequências fazem parte da vida do Rio há mais de um século mas a enxurrada da quarta-feira, dia 6, no Centro, na Zona Sul e na Barra foi tão violenta que deixou cariocas em pânico e o Brasil assustado com as imagens da TV e os vídeos postados na internet e multiplicados pelo whatsapp. Amigos da Bahia mandaram mensagem preocupados. Por acaso, o temporal ficou concentrado na área mais privilegiada da cidade; o número total de vítimas fatais – sete – fica distante de outras estatísticas mórbidas causadas pelas chuvas no Rio. Mas um casal e seu filho morreram no desabamento da casa em Guaratiba; uma empregada doméstica foi soterrada na Rocinha; uma moradora perdeu a vida da mesma forma no Vidigal; um advogado e uma bacharel em Direito foram as vítimas fatais do ônibus engolido pela terra na Avenida Niemeyer.

Largo do Machado: lá havia a Lagoa Carioca (Foto Oscar Valporto)
Largo do Machado: lá havia a Lagoa Carioca (Foto Oscar Valporto)

A chuva já havia diminuído no meio da madrugada mas a cidade continuava completamente alagada com carros boiando no Centro e da Zona Sul e ruas com aspecto de rios. Vale aqui um parêntesis #RioéRua sobre a história de uma cidade que tem toda sua história ligada à ocupação de áreas alagadas. Quando ocuparam o Morro do Castelo, para começar a organizar a cidade, em 1567, os portugueses estavam cercados de lagoas que foram sendo aterradas na medida que a capital da província e, depois, do Brasil colônia, ia se urbanizando. Havia a Lagoa de Santo Antônio onde hoje é o Largo da Carioca; a Lagoa do Boqueirão começava perto do Aqueduto da Lapa e chegava até o Passeio Público; a Lagoa do Polé ficava próximo ao Campo de Santana. Havia lagoas, depois aterradas também, onde hoje são o Largo do Machado – chamada Lagoa da Carioca, formada pelo rio que dá nome aos nascidos na cidade – e a Rua Marquês de Olinda, em Botafogo. A própria Lagoa Rodrigo de Freitas perdeu quase a metade de seu espelho d’água original – inclusive a área do Jockey Club foi, um dia, lagoa, como parecia ser durante o temporal.

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Os governantes do Rio de Janeiro sempre quiseram fazer a cidade avançar para cima do mar. Nas obras de ampliação do porto, sumiram a prainha de São Francisco, a praia da Gamboa, a praia da Saúde, a praia Formosa. A Igreja de Santa Luzia, no centro da cidade, ficava à beira-mar; hoje fica a dois quilômetros da baía de Guanabara: entre ela e o mar, apareceram a Avenida Beira-Mar, a Esplanada do Castelo, o Aeroporto Santos Dumont, o Aterro do Flamengo. Antes do século XX começar, tinha uma prainha em frente à igreja. O mar também batia na mureta da Glória e chegava na praia do Russel, onde hoje tem uma praça com a estátua de São Sebastião: tudo aterrado.  O bairro da Urca inteiro é fruto de aterro.

Estátua do padroeiro da cidade onde ficava a Praia do Russel (Foto Oscar Valporto)
Estátua do padroeiro da cidade onde ficava a Praia do Russel (Foto Oscar Valporto)

Durante o século XX, enquanto a cidade roubava espaço do mar, a lógica urbana expulsava os mais pobres do centro: começava a ocupação desordenada dos morros e, atrás dela, uma série de tragédias causadas pelos temporais. A cada chuvarada de verão, deslizamentos e mortes. O Rio de Janeiro atravessou assim quase todo o século, mas faz algum tempo que a tecnologia de contenção de encostas, os modernos aparelhos da meteorologia para detectar tempestades e as sirenes de alarme conseguiram reduzir o número de vítimas. No temporal do dia 7, os alarmes da prefeitura demoraram a ser acionados e muitos cariocas foram pegos de surpresa: na melhor das hipóteses, ficaram ilhados e dormiram fora de casa; na pior, viveram o drama dos moradores da Rocinha e do Vidigal.

Nos dias seguintes, a tragédia mudou de endereço: 10 meninos, que sonhavam com a glória nos campos de futebol, carbonizados no incêndio no Ninho do Urubu, Centro de Treinamento do Flamengo, na Barra da Tijuca; 13 jovens adultos, todos aparentemente envolvidos com o tráfico de drogas, todos aparentemente fuzilados, de acordo com a Defensoria Pública, na mais letal operação policial na cidade desde 2007. E, na segunda-feira, lá em São Paulo, o Rio perdeu Ricardo Boechat – nascido na Argentina e criado em Niterói – que tinha o espírito crítico, irreverente, debochado e generoso, um espírito carioca (ou como os cariocas idealizam seu espírito e de sua cidade).

Em frente à Igreja Santa Luzia havia uma prainha (Foto Oscar Valporto)
Em frente à Igreja Santa Luzia havia uma prainha (Foto Oscar Valporto)

E chegamos às vésperas de outra quarta-feira e, desta vez, a prefeitura disparou todo tipo de alarme, prevendo um dia de temporal. As aulas das redes de ensino municipal e estadual foram suspensas; empresas liberaram funcionários; reuniões foram adiadas. A tempestade prevista não veio. O Carnaval se aproxima: os blocos se preparam para tomar as ruas e de debochar do bispo, do juiz, do capitão, da pastora, do embaixador, do deputado. E tem Marielle no samba da Mangueira, Xangô no afro samba-enredo do Salgueiro, Clara Nunes inspirando a Portela. Pode ser até que o Rio consiga espantar o baixo astral e a chuva. Mas pode ser que não.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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