Precisou uma pandemia para o trabalho doméstico sair da invisibilidade

Senhora estende roupas em casa: trabalho doméstico ganha valorização em tempos de pandemia. Foto de Valter Cirillo (Pixabay)

A ordem de ficar em casa tornou essencial nos ocuparmos do que acontece no espaço do lar, em suas muitas agendas e nuances

Por Carla Rodrigues | ODS 10ODS 8 • Publicada em 20 de abril de 2020 - 07:41 • Atualizada em 21 de abril de 2020 - 09:56

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Senhora estende roupas em casa: trabalho doméstico ganha valorização em tempos de pandemia. Foto de Valter Cirillo (Pixabay)

Meu mais recente compromisso de trabalho incluiu uma chamada de vídeo com a filha de uma amiga, uma linda menina de três anos que havia acabado de se lambuzar de batom enquanto a mãe e eu discutíamos a melhor abordagem para um artigo. Na banca de doutorado que participei na mesma semana, um gato miou algumas vezes até ser posto para fora do escritório por estar atrapalhando sua tutora na arguição. Rock, meu cachorro, tem participado, com seus latidos, de diversas reuniões de grupos de estudos on-line. No Instagram, tenho postado fotos das refeições feitas por mim (uma temeridade!), cozinhando em casa todos os dias.  Toda forma de arte está sendo oferecida e transmitida a partir da casa, com destaque para o projeto “Ôs de casa”, organizado pela Monica Salmaso.

No noticiário, é possível observar as casas de jornalistas até então esterilizados nos ambientes neutros dos estúdios de TV. Nas redes, famílias com filhos e filhas pequenas compartilham estratégias para conciliar home-office, tarefas educativas e formas lúdicas de entreter as crianças, esses seres cuja energia infinita é incompatível com confinamento.

As campanhas de proteção às mulheres em situação de violência doméstica ganharam grande visibilidade, por terem se tornado absolutamente urgentes. Aos moradores de rua, os bons governos estão buscando formas de apoiar e cuidar.  Estes e outros exemplos se acumulam na nossa rotina desde que a OMS, depois de declarar a pandemia do coronavírus, em 11 de março, ordenou, de forma peremptória: “Fiquem em casa.”  A partir daí, o significante “casa” invadiu a cena pública.

Ter uma casa, poder habitá-la e cuidar de si e da família tornou-se necessidade para uma política de saúde bem-sucedida, demonstrando que o pessoal também é político. Desde que a OMS mandou todo mundo ficar em casa – e alguns países acham que estão com suas soberanias ameaçadas se seguirem as recomendações da organização –, tenho pensando no resgate deste velho slogan feminista, “o pessoal também é político”, criado para mostrar que toda mulher no mercado de trabalho depende de uma rede de apoio e cuidado da casa e da família.

Temas que vão desde a oferta de vagas em creches públicas, passam pelo debate sobre a redução das horas de jornada semanal – já modificada em alguns países nórdicos – e chegam ao eterno problema da divisão das tarefas domésticas foram perdendo visibilidade conforme cresce a exigência de mais horas de trabalho, dedicadas ou à manutenção do emprego ou, na maior parte dos casos, ao trabalho sem proteção. Quanto mais é preciso trabalhar, menos tempo para estar em casa (sem contar a indústria de lazer e turismo e sua permanente oferta de felicidade fora de casa). Mesmo em situações em que o home-office já estava instituído antes da quarentena, a casa e suas demandas, seus ruídos, vizinhos, precisavam desaparecer, por exemplo, no silêncio forçado das comunicações por escrito.

Nas últimas décadas, o espaço doméstico foi profundamente alterado e precarizado. Quanto maior a exigência de disponibilidade de horas para o trabalho e quanto mais grave o problema da mobilidade urbana – que pode roubar de três a quatro horas por dia de deslocamento de trabalhadores residentes em periferias mal servidas de transporte público –,  menor e mais invisível a casa foi ficando.  Basta observar projetos contemporâneos de arquitetura. Os populares “Minha casa, minha vida” oferecem apartamentos de dois quartos em apenas 45 metros quadrados, enquanto os projetos de “coliving” para casais ou pessoas sozinhas prometem estúdios de 30 metros quadrados e ampla infraestrutura externa, como restaurante, lavanderia e “workspace”  (impossível saber por que esses termos são  usados em inglês, estou reproduzindo de propósito, para expor o ridículo). E nem entram nesta conta as condições de habitação em favelas e periferias que caberiam em outro artigo, este sobre a forma “comunidade” e sua operação paradigmática para além da lógica da organização individual, estatal e institucional.

Trabalho doméstico, ressignificado com a pandemia, foi invisibilizado no Brasil pela herança escravocrata. Foto de arquivo
Trabalho doméstico, ressignificado com a pandemia, foi invisibilizado no Brasil pela herança escravocrata. Foto de arquivo

Pelas piores razões – a carência de sistemas de saúde que suportem o volume de pessoas contaminadas pelo coronavírus – a casa ganhou visibilidade como espaço que demanda tempo e cuidado, e não apenas como lugar para dormir e se alimentar entre uma jornada de trabalho e outra.  Sabemos que pelo menos desde a modernidade as mulheres foram confinadas ao espaço da casa em nome dos cuidados com a higiene, a saúde e a reprodução da vida, o que significou dupla invisibilidade dessas atividades: por serem realizadas no âmbito privado e por estarem a cargo das mulheres. Foram muitas as lutas feministas pelo reconhecimento do trabalho doméstico, o que em certa medida no Brasil não foi adiante porque a existência de mão de obra para a realização do serviço de casa, associada ao nunca superado modelo escravagista, amorteceu e aprofundou a invisibilidade da esfera doméstica.

Neste momento, no entanto, cada corpo precisa voltar-se para cuidar de si, mesmo os corpos de pessoas que sejam responsáveis por cuidar de outros, como nas instruções de emergência dos aviões: em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Ponha a sua primeiro para poder ajudar quem estiver com você.  Aqui, me parece interessante recuperar a pesquisa da jovem filósofa francesa Hourya Bentouhami-Molino e sua hipótese de que os corpos das mulheres subalternizadas são “corpos duplicados”, encarregados do cuidado do corpo das famílias para as quais trabalham. Este corpo-duplo tem nos permitido naturalizar que o tempo dedicado o trabalho não precisa, ou pior, não pode contabilizar o tempo dedicado à casa.

Com isso, sustenta-se uma enorme indústria de serviços dedicados a fazer desaparecer a casa e tudo que nela está implicado, como alimentação, educação das crianças e limpeza. Esta forma de “não poder saber” da esfera domiciliar foi abrindo espaço para atitudes de deliberada ignorância em relação ao que se come, ao que se veste, ao que se compra, de tal modo que a livre circulação de mercadorias pudesse romper as fronteiras não apenas dos países, mas principalmente do lar como epicentro do consumo global de serviços e produtos.

No momento em que se tornou indiferente de onde vem o alho para temperar o feijão, a esfera doméstica passou a ser principalmente econômica, mas continuou invisível (sem que nós, feministas, tenhamos de fato conquistado a pauta de tornar político o que é compreendido como pessoal).  A geografia dos produtos, a sazonalidade dos alimentos e o impacto ambiental da circulação de tudo que consumimos saíram pela porta dos fundos e pela porta da frente cresceu a demanda por mais renda, formando o círculo vicioso perfeito em que cada integrante da família precisa de mais horas de trabalho para prover aquilo que a própria família não tem tempo de produzir, como as refeições ou o cuidado com as crianças.

A OIT prevê que a pandemia acabe com 6,7% das horas de trabalho já a partir de abril, ou o equivalente a 195 milhões de trabalhadores desempregados em período integral. Estou longe de ocupar uma posição otimista em relação ao poder que a covid-19 possa ter em relação às mudanças tão necessárias no nosso modo de vida ou a sua capacidade de deter a marcha do capitalismo. No entanto, gostaria de pensar que a visibilidade da esfera doméstica poderia ser um desses elementos que vieram para ficar – como as máscaras ou o fim dos apertos de mão – e estabelecer um ganho, sobretudo para mulheres sobrecarregadas com um grande conjunto de tarefas invisíveis que vieram ao espaço público na sociedade brasileira. Países que já oferecem menores jornadas de trabalho em troca de mais empregos contemplam, na solução, não apenas a economia geral, mas também a economia restrita da esfera pessoal sem a qual, na verdade, nem sobrevivemos, sequer vivemos.

Carla Rodrigues

Professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ, mestre e doutora em Filosofia (PUC-Rio), e pesquisadora da teoria feminista. Coordena o laboratório "Escritas - filosofia, gênero e psicanálise" (UFRJ/CNPq). É autora, entre outros, de "Duas palavras para o feminino" (NAU Editora, 2013).

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