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Escola sem portas e sem janelas

Projeto Uerê


Projeto Uerê. Foto de Divulgação
O violinista Luis Felipe e o violoncelista Claudio Lucas (em pé) são alunos do Projeto Uerê. Foto de Divulgação

A história do Projeto Uerê começou muito antes de sua fundação oficial, em 1998. Foi em 1980 que sua fundadora e hoje coordenadora executiva Yvonne Bezerra de Mello criou nas ruas do Rio de Janeiro a Escola Sem Portas Nem Janelas, com grupos de crianças e jovens em situação de rua. Naquela época, a linguista e filóloga, mestre em políticas públicas pela Universidade de Sorbonne, na França, e pós-graduada em Direitos Humanos, começou a dar aulas nas calçadas de bairros como Copacabana, Madureira, Méier e Centro do Rio de Janeiro. Treze anos depois, oito das crianças de um dos grupos atendidos por ela foram assassinadas no triste episódio da história carioca que ficou conhecido no Brasil, e no mundo, como a Chacina da Candelária — o crime ocorreu em 1993. Yvonne não recuou. Ao contrário, ampliou seu projeto com base na pedagogia que ela mesma criou, a Uerê-Mello, que acabou se transformando em política pública e adotada em 150 escolas do Rio, durante oito anos — a metodologia foi adotada também em 300 outras escolas espalhadas pelo país, assim como em instituições na  Alemanha e na Suécia.

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No total, mais de 130 mil crianças já tiveram contato com a Pedagogia Uerê-Mello – desenvolvida para crianças e jovens em zonas de risco, traumatizados pela violência e com sérios problemas de cognição, com objetivo de resolver problemas e bloqueios de aprendizagem. Mas foi no Complexo da Maré (que concentra 139 mil habitantes em 16 favelas) que o projeto fincou sua base mais sólida. Lá, oferece a crianças e jovens, entre 6 e 18 anos, um complemento ao ensino formal, com aulas de português, matemática, história, geografia, ciências e idiomas, além de três refeições diárias (café da manhã, almoço e lanche). Desde 1998, já atendeu 3.100 alunos, 420 só este ano. A garotada também participa de oficinas artísticas e culturais, assim como aulas de leitura, música e fotografia.

Yvonne Bezerra de Melo e seus alunos. Foto de Divulgação
Yvonne no Coqueirinho, sob o viaduto da Leopoldina, no Centro do Rio de Janeiro. Foto de Divulgação

“Uerê vem do yorubá. O nome foi escolhido porque praticamente todos os meus alunos são afrodecendentes. Eu queria um nome africano. Erê quer dizer criança, anjo. E Uerê são as crianças do Arco-íris dourado”, explica Yvonne, ela mesma uma menina de ouro, que começou a fazer trabalho voluntário aos 13 anos. “Minha mãe ajudava um orfanato, e eu me sentia muito à vontade lá, pois também não tinha pai e sofria bullying por isto. Então me identificava muito com aquelas crianças. Trabalhei na Pestalose e com crianças cegas”, relembra ela, aos 72 anos.”Quando entrei na universidade, aos 17, participei do Projeto Rondon e tive a oportunidade de conhecer um outro Brasil, um outro tipo de pobreza. Eu alfabetizava meninos e meninas. Depois ganhei uma bolsa e fui estudar em Sorbonne. Fiz muitos amigos entre os africanos, e aos sábados e domingos ia para as casas deles, nos subúrbios de Paris, e passei a conviver com uma garotada que também tinha problemas de cognição por viver em zonas de risco e de guerras. Fui à África muitas vezes”.

Yvonne se casou com um sueco e, em 1980, já separada, voltou ao Brasil. Aqui, conheceu um grupo de meninas que se prostituíam e acabou montando uma escola na rua: “Por isso eu a chamava de Escola Sem Portas Nem Janelas. Levava lápis, papel… As crianças nas ruas a princípio não querem nada, mas eu dava meu jeito. Algumas já sabiam ler e escrever. Era mais uma questão de estar ali com elas”, conta a professora, que dava aos alunos três fichas telefônicas para que pudessem ligar de orelhões caso precisassem. “Não havia celular. Ali na Candelária era área do 5ºBPM (Praça da Harmonia), muito violenta, e o batalhão, como todos os outros, tinha esquadrão da morte”.

Sobreviventes da Candelária. Foto de Divulgação
Um mês depois da Chacina da Candelária, sobreviventes recebem ajuda de Yvonne Bezerra de Mello. Foto de Divulgação

Assim foi até 1993, quando o telefone em sua casa tocou. Era uma emergência. “Por isso fui a primeira a chegar lá no dia da Chacina da Candelária: eles me ligaram. Foi quando comecei uma nova fase da minha vida. Antes, ninguém me conhecia. Mas fui para a rua fazer vigília, ganhei certa visibilidade. E passei a sofrer um bullying danado de toda a sociedade. Eu era a maluca, como aliás sou até hoje. Foi muito difícil. Tive que me afastar até dos amigos, fui punida por quem achava que esses meninos deviam ser mortos”, lamenta ela, que três anos atrás, quando saiu de casa para defender um jovem que havia sido amarrado num poste para ser espancado, acusado de roubo. “Daquela vez foi ainda pior, porque já havia as redes sociais. Aconteceu do lado do meu prédio, no Flamengo, e novamente fui lá para tentar ajudar. A reação foi tamanha que tive que sair do país por meses. Fui para o Chile e sai de todas as redes sociais. Isso mostra que se você quer mudar uma sociedade, tem que educá-la”.

Pensando assim, deu de ombros para as adversidades e, em setembro de 1993, fundou uma escola debaixo de um viaduto em São Cristóvão, que funcionou por quatro anos. “Foi quando o então prefeito Luiz Paulo Conde me ofereceu espaço para trabalhar na Maré, e fundei o Uerê, desenvolvendo a pedagogia Uerê Mello”.

Segundo Yvonne, a pedagogia que tem o nome do projeto e seu próprio sobrenome é uma maneira de ensinar matérias curriculares respeitando o tempo de concentração dos alunos em sala de aula para um melhor e maior desempenho, de forma a tentar amenizar os traumas causados pela violência que levam a dificuldades de aprendizado. O objetivo é levar a essas crianças e jovens uma educação de qualidade, que, ainda de acordo com ela, eles jamais teriam frequentando somente as escolas municipais e estaduais das comunidades onde residem, de forma que possam competir com mais igualdade no futuro mercado de trabalho onde ingressarão e, com isso, ter a chance de uma vida melhor. “No Uerê, meus alunos têm uma educação de cidadania, de tudo que a escola formal não ensina”, resume Yvonne.

Que o digam alunos como Luis Felipe da Silva Andrade e Claudio Lucas Araujo Cardoso, ambos de 17 anos e no 3º ano do Ensino Médio em uma escola particular da região da Maré, graças a bolsas de estudo conseguidas via Uerê, que frequentam no contrafluxo escolar há cerca de dez anos. Integrantes da Camerata Uerê, uma orquestra de cordas em que o primeiro é violinista e o segundo, violoncelista, os dois aprenderam inglês no projeto e já estiveram nos Estados Unidos mais de uma vez, por conta de um convênio do projeto com uma ONG americana.

Eu me vejo como um sortudo. Não consigo imaginar minha vida sem o Uerê, por todas as oportunidades que tive. Minha família não tinha condições de pagar uma escola, e pelo projeto consegui uma bolsa na Nossa Senhora do Bonsucesso

Luis Felipe
violonista

“Eu me vejo como um sortudo. Não consigo imaginar minha vida sem o Uerê, por todas as oportunidades que tive. Minha família não tinha condições de pagar uma escola, e pelo projeto consegui uma bolsa na Nossa Senhora do Bonsucesso”, conta Luis Felipe, cuja mãe é cozinheira numa creche da região e o pai, autônomo: “Aqui na Maré é muito difícil ter acesso às coisas. Eu só tive por causa do Uerê. Toquei no Teatro Municipal, na Sala Cecília Meirelles, num evento no Vale do Café… Tive a chance de ir para Connecticut, nos Estados Unidos, por três vezes, a última por um mês, num acampamento de verão que reúne gente de várias culturas”. O rapaz, que se prepara para estudar robótica ou engenharia (“Se não der certo, vou tentar veterinária ou biologia”), é grato especialmente à Yvonne. “No Uerê, os alunos não são separados por ano, mas por eles, em si. Dona Yvonne vê as dificuldades de cada um e ajuda no que ele precisa. Ela preza pelo retorno, mas vê muito futuro em todos os alunos”, diz o estudante.

“A partir do momento em que você entra no Uerê, você ganha outra família, algo para compor sua vida. Dona Yvonne é uma mulher completa. Fala sobre drogas, doenças sexualmente transmissíveis. A Maré é onde há mais casos de sífilis e aids no Brasil. O que para muitos é tabu ela conversa abertamente com a gente”, acrescenta Claudio, filho de pai instrutor de dança e mãe vendedora, que quer ser engenheiro civil e, no momento, está focado em estudar para o Enem e o vestibular. Frequenta o Uerê como aluno, mas, às vezes, também dá aulas de inglês para os colegas. O interesse pelo idioma surgiu por conta do videogame, mas foi no projeto que ele teve a oportunidade de aprender de forma diferenciada. “Em 2016, uma holandesa que visitou o projeto conversava em inglês com Dona Yvonne. Eu fiquei prestando atenção, e ela quis saber porque eu olhava tanto. Então, Dona Yvonne me chamou para a conversa, e eu me apresentei: ‘Hi,my name is Claudio, I´m 14 years old...’. Ela falou do projeto e me chamou para ficar duas semanas no acampamento de verão de Connecticut, convivendo não só com americanos (90%), mas latinos e europeus também”, relembra ele, que, por problemas burocráticos de documentação, só conseguiu viajar no ano seguinte. Lá, estudou não apenas a língua, mas aprendeu arco e flecha (tornando-se instrutor do esporte), escalou montanha, fez windsurf, visitou cidades como Boston e Nova York….

“Todos aqui aprendem inglês a partir dos 14 anos”, diz Yvonne, que desde 1998 já conseguiu bolsas de estudos para 210 de seus meninos e meninas. Mas o projeto vive ameaçado. Seja por falta de verbas (“Nos mantemos com doações cada vez menores. As pessoas têm casa vez menos condições de fazer filantropia”, observa), seja por conta da violência, que a fez colocar, em maio deste ano, um cartaz no telhado do Uerê depois que um helicóptero da polícia atirou contra a unidade: “Escola. Não atire”. Numa rede social, comentou na época: “É para ver se não nos matam em dias de confronto. “Nada evolui, os resultados são pífios. Hoje faço exatamente a mesma coisa, só que agora as crianças estão mais traumatizadas e com menos chances de aprender. O MEC não reconhece pedagogias alternativas, que são demonizadas. Mas se nem Paulo Freire reconhecem…”, constata. E segue em frente.


Escrito por Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha se completam. No trabalho e na vida. Juntos, têm umas quatro décadas de jornalismo. Ela, no texto, trabalhou no Globo por 17 anos, depois de passar por Jornal do Brasil, O Dia e Revista Veja, sempre cobrindo a cidade do Rio. Ele, nas imagens (paradas ou em movimento), há 20 anos bate ponto no Globo. O melhor desta parceria nasceu no mesmo dia que o #Colabora: 3 de novembro de 2015. Chama-se Pedro, e veio fazer par com a irmã, Maria.

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