Por que a França?

‘Liberté, egalité et fraternité’, um lema distante para os imigrantes

Por The Conversation | artigo ods1 • Publicada em 16 de julho de 2016 - 14:33

Uma mulher chora em frente ao memorial pelas vítimas do atentado que matou 84 pessoas esta semana, em NIce, no sul da França
Uma mulher chora em frente ao memorial pelas vítimas do atentado que matou 84 pessoas esta semana, em NIce, no sul da França
Uma mulher chora em frente ao memorial pelas vítimas do atentado que matou 84 pessoas esta semana, em NIce, no sul da França

(Por Philomena Murray*) – A semana de comemoração da queda da Bastilha, da folga em pleno verão, de estar com a família e os amigos, foi também a semana de mais um horroroso atentado na terra da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Um caminhão lançado contra uma multidão em Nice matou pelo menos 84 pessoas e feriu mais de duzentas. Logo, uma pergunta óbvia se impõe: por que a França?

A fraternidade é um tema muito abordado na sociedade francesa – incluindo os políticos – embora muitos jovens muçulmanos não tenham experimentado essa fraternidade ao crescer em guetos com pouca chance de obter emprego.

Sob o governo de François Hollande, o país continua resolutamente envolvido em ações militares, incluindo o bombardeio ao Estado Islâmico na Síria. Há 4,7 milhões de pessoas de origem muçulmana na França e 4,8 milhões na Alemanha. Este país não participou da guerra no Iraque. A Espanha sim. Uma estação de metro em Madri foi atacada em 2004, alegadamente pela al-Qaeda, o que provocou a morte de 191 pessoas e feriu outras 1.800.

A França é também o lugar onde o maior partido populista de extrema-direita continua a ganhar força com sua agenda anti-imigração. A Frente Nacional é uma séria protagonista para posições de destaque, até mesmo em relação às próximas eleições presidenciais. Sua líder, Marine Le Pen, referiu-se às “populações estrangeiras que buscam impor ao país seus próprios estilos de vida, religião e códigos”.

 No dia seguinte aos ataques à boate Bataclan e ao Stade de France, ela veio a público dizer que “a França e os franceses não estão mais seguros”. Essa linguagem de insegurança social quase sempre joga a culpa nos imigrantes. Há uma potente mensagem populista sobre uma sociedade ameaçada.  Como na Bélgica, atacada em abril no aeroporto de Bruxelas e na estação do metrô Maelbaek, há no país um número relativamente alto de jihadistas.

No 14 de Julho, a França celebrava a liberdade – o que inclui liberdade de expressão para a mídia, como  no caso do jornal satírico “Charlie Hebdo”.

O país se regozijava de seu compromisso com a igualdade – mesmo que ela seja apresentada como adesão estrita ao secularismo, termo usada para negar a qualquer organização religiosa um lugar especial na sociedade francesa, com rígida separação entre Igreja e Estado. São princípios seculares considerados mais importantes que crenças religiosas, vistas como algo da esfera privada.

E fraternidade é uma coisa da qual se fala muito na sociedade francesa – incluindo os políticos – embora muitos jovens muçulmanos não tenham experimentado essa fraternidade ao crescer em guetos com pouca chance de obter emprego.

Houve descontentamento maciço e mesmo protestos violentos na última década nesses cenários urbanos, áreas desfavorecidas – les banlieues -, com frequência chamados de subúrbios do exílio. É uma combinação de pobreza, problemas habitacionais e um senso de alienação em relação às vantagens usufruídas pela sociedade francesa.

Há um sentimento de falta de oportunidade na estrutura da sociedade francesa, com elevado desemprego e pouco acesso ao mercado de trabalho. Ao lado disso, são frequentes as violentas batidas policiais. O secularismo  tem sido a justificativa para a proibição dos véus muçulmanos e símbolos religiosos nas escolas da França há várias décadas. O país já debatia o assunto bem antes do 11 de Setembro e do terrorismo do Estado Islâmico. Há consenso entre os principais partidos políticos sobre o assunto.

A França, usando o secularismo como justificativa para a igualdade, tem estado na dianteira entre os países europeus em sua negativa ao direito de se usar o véu islâmico nas escolas públicas do país, e 85% das escolas francesas são públicas. A proibição do véu faz parte do debate na França desde 1989.

A França tem uma história de exigir igualdade ao esperar a integração de imigrantes ou cidadãos oriundos do Norte da África. O multiculturalismo não é celebrado no país. O que se espera é uma forma de integração que beira a assimilação. Não há muito espaço para o vive la difference quando se trata das comunidades do Norte da África, embora muitos membros dessas comunidades tenham estabelecido uma firme presença em várias esferas do país.  Não se pode esquecer que milhões de pessoas originárias do Norte da África vieram de países colonizados quando os franceses estenderam sua esfera de influência, no século XIX.

* Philomena Murray é professora de Ciências Políticas e Sociais na Universidade de Melbourne, Austrália.

(Tradução: Trajano de Moraes)

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