Maternidade – uma saga

A subvalorização do papel de mãe é tão perniciosa quanto o mito do amor materno

Por Olga de Mello | artigo ods1 • Publicada em 20 de fevereiro de 2016 - 10:00 • Atualizada em 24 de fevereiro de 2016 - 12:26

Um dos quadros de Picasso sobre a maternidade: Masacre en corée, 1951
Uma das muitas obras de Picasso sobre a maternidade: Masacre en corée, 1951
Uma das muitas obras de Picasso sobre a maternidade: Masacre en corée, 1951

Uma jovem teve seu perfil fechado no Facebook, onde expôs seu tremendo desconforto com a maternidade, que conheceu há 40 dias. Outra moça reclamou da nova campanha da rede social, de convocar dez mães a publicarem fotografias que expressassem a felicidade por ter posto gente no mundo. O argumento desta mãe é que os momentos felizes são escassos, se comparados à trabalheira incessante que é cuidar da prole. Concordei com ambas e, mesmo assim, postei três fotos – com meus quatro filhos pequenos; ao lado deles, já grandes; de minha neta Helena e de sua irmã, Yasmin (que veio já crescida para a família).

Maternidade exige algum desprendimento, mas nem tanto assim. A maioria das brasileiras, com ou sem filhos, arranja tempo para ir ao salão de beleza.

Sempre soube que teria filhos, mesmo sem sentir paixão por eles desde a gravidez. Eu me reconheci no sofrimento descrito pela jovem mãe, que reclama das dores da amamentação, as pavorosas contrações uterinas, enquanto o bebê suga o leite. Além do sofrimento físico, a maternidade me apresentou à depressão pela perda de minha identidade. Eu deixara de ser alguém com vida própria e me tornara a maior responsável pela sobrevivência de outra pessoa. Isso não me levou a rejeitar as crianças ou a me arrepender de ser mãe. Jamais.

Está na moda resmungar da maternidade compulsória, um dever biológico cobrado pela sociedade, acredita uma corrente feminista. Defendo o direito de qualquer mulher rejeitar a maternidade. Que exige alguns sacrifícios, sim, nos primeiros tempos, compensados por descobertas instigantes, além de momentos deliciosos. Para cada insuportável festinha infantil com recreadores berrando canções da Xuxa, há fins de tarde tranquilos na praia. O desespero das enfermidades frequentes – com quatro crianças, duas delas asmáticas, tenho uma pouco invejável e vasta quilometragem de pronto-socorro – acaba na adolescência, a fase mais angustiante para os pais, temerosos das más companhias, das drogas, do sexo, do funk e do que rola. E um dia, temos a grata surpresa de perceber que aqueles pirralhos barulhentos tornaram-se adultos nem tão serenos assim, porém charmosos, inteligentes, amigos e sinceramente empenhados em melhorar o planeta.

A subvalorização da maternidade é tão perniciosa quanto o mito do amor materno, apontado pela francesa Elizabeth Badinter em Um Amor Conquistado (editora Nova Fronteira), lançado na França em 1980. Nesta era confessional, a exposição das sensações provocadas pelos filhos é até natural. Poucos são os que não exibem o que experimentam nas redes sociais. Talvez essas mães jovens padeçam de outra característica contemporânea, a eternização da adolescência. Como o termo “menina” é aplicável a quem passou dos 30, atualmente, tornou-se mais difícil compreender uma nova etapa da vida.  Maternidade exige algum desprendimento, mas nem tanto assim. A maioria das brasileiras, com ou sem filhos, arranja tempo para ir ao salão de beleza. E só abandona a profissão para cuidar de criança quem pode e quem quer. Quem tem o sustento da família e/ou a carreira como prioridade, jamais para de trabalhar.

Os aspectos controversos da maternidade existem, sim. A maternidade outorga um tremendo poder às mulheres, mas modifica os corpos. Em tempos de culto à juventude eterna, deixar a natureza dominar o organismo é quase falta de caráter.  Cuidar da família exaure, mas a convivência com gente jovem revigora o pensamento. Por causa de meus filhos, passei a me interessar por futebol, mesmo sem entender a lógica (já compreendo, só não vejo razão) do impedimento, a discutir seriamente a psique de Magneto e a assistir “Em busca do Vale Encantado” umas 485 vezes. Com eles, descobri novos ritmos e formas de expressão musical – porque a gente se desinteressa por essas coisas depois que envelhece. Perdi um show do Jerry Lee Lewis para ter minha caçula – foi na noite seguinte ao parto -, mas meus pais ficaram com o mais velho, que tinha apenas dez dias de nascido, para eu ver o B.B.King. Enquanto eles cresciam, fomos ao Canecão, onde envergonhei a todos, dançando nos shows do Paralamas e do Lulu Santos. E me emocionei ao lado deles, assistindo à Guerra nas Estrelas no cinema e Paul McCartney no Engenhão. Li Harry Potter, gastei fortunas em figurinhas, em Gogo’s e em Legos (esses, guardados, para deleite de crianças visitantes). Ainda arrumei cachorro, hamsters, tartaruga, peixes, passarinhos. Os que não morreram, foram doados. A última loucura foi comprar uma rã. Depois, vieram os gatos – que hoje são as crianças indisciplinadas da casa.

E chega o dia em que os filhos tomam seus próprios rumos. A síndrome do ninho vazio demora no Brasil, mas ela acontece. A sociedade espera, então, que as mães de adultos se recolham à invisibilidade, sem o direito de dar palpites nas vidas dos filhos, estando à disposição para olhar os netos. No Brasil, após os 50 anos, mulher só é lembrada para integrar estatísticas sobre óbitos em câncer de mama. Acontece que boa parte dessas mães continua na ativa, pagando contas, despertando para novas experiências. Sem filhos agarrados ao colo, algumas se dispõem a disputar o pior emprego do mundo – presidir países, por exemplo.  Porque nem só a maternidade confere poder. Ou prazer.

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Olga de Mello

É jornalista há mais de 30 anos. Carioca por nascimento, convicção e insistência, obsessiva-compulsiva por literatura, cinema, música e pelo Rio de Janeiro, passou pelas redações do Globo, Jornal do Brasil e O Dia, além de ter feito assessoria de imprensa para o Instituto Nacional de Câncer e a Petrobras, entre outras instituições.

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