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Cara gente branca

Série tira o racismo do armário e mostra que somos naturalmente preconceituosos


Cena do filme "Dear white people", de 2014, que inspirou a série do Netflix. Alguns atores do filme, como Marque Richardson e Ashley Baine Featherson estão nas duas produções. Foto Archives du 7eme Art / Photo12
Cena do filme “Dear white people”, de 2014, que inspirou a série do Netflix. Alguns atores do filme, como Marque Richardson e Ashley Baine Featherson estão nas duas produções. Foto Archives du 7eme Art / Photo12

“Dear white people”, aqui traduzido por “Cara gente branca” e recém-lançada no Netflix, está classificada como drama/comédia. Dez episódios de 30 minutos depois, é difícil encontrar os componentes cômicos da série dirigida por Justin Simien e protagonizada pela jovem e bela atriz Logan Browning, a provocadora radialista Samantha White. Seria preciso recorrer aos gregos e ao conceito de tragicômico para compreender que “Cara gente branca” fala do componente mais trágico das sociedades contemporâneas, a persistência do racismo mesmo lá onde ele se julgava superado ou, pior, se apresentava como tal. “Lá” é no campus de uma universidade fictícia do grupo Ivy League College que, fora da ficção, reúne oito das universidades mais prestigiadas dos EUA (Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Pensilvânia e Yale).

Um dos equívocos herdados da política identitária é o de que o racismo é problema dos negros; o machismo, problema das mulheres; o extermínio indígena, problema dos índios, e assim sucessivamente. Ou nós, brancos e brancas, assumimos o combate às discriminações como tarefa coletiva, ou estaremos condenados a reproduzir formas de violência que a suposta superioridade da razão branca nos julgava imunes

O reitor da universidade é negro, os alunos negros têm diferentes mecanismos de representação, um negro é democraticamente eleito para o diretório acadêmico. Não fosse a tragicômica festa “black-face” detonar a suposta convivência racial pacífica, o corpo de integrantes da universidade continuaria se comportando como se lá a discriminação racial já fizesse de fato parte do passado escravocrata que também marca a sociedade norte-americana. Alunos brancos “fantasiados” de pessoas negras, como se a negritude pudesse ser pensada como um dado animalesco do humano, surpreendem um ambiente que até ali se apresentava pacificado.

A exposição do racismo provocada pela “black-face” e suas consequências foi surpreendente. Na ficção, porque revela uma peripécia da protagonista; na vida real, porque a estreia da série nos EUA, em abril, levou a uma avalanche de cancelamentos de assinaturas do Netflix.  A partir daí, inúmeros textos estão tentando entender a persistência do racismo na sociedade norte-americana. Este artigo não quer ser mais um entre tantos destes textos. Minha intenção é tentar dar um passo além da constatação que “Cara gente branca” já faz: nós, queridas pessoas brancas, somos racistas. Alguns mais, outros menos; uns sabem do seu racismo, outros nem tanto; certas pessoas tentam se conter, seja em nome da tolerância, seja em nome do politicamente correto, outras nem isso; mas somos racistas porque não ultrapassamos ainda a origem da discriminação racial contida na pressuposição de superioridade da pele branca sobre a pele negra, na suposta racionalidade branca em oposição à suposta brutalidade negra, na hipótese de que a escravidão era um dado natural e não uma construção histórica, violenta e bárbara.

Logan Browning, atriz principal da série Cara gente branca. Jonathan Leibson/Getty Images for Netflix/AFP
Logan Browning, atriz principal da série “Cara gente branca”. Foto: Jonathan Leibson/Getty Images for Netflix/AFP

Meu passo além consiste em ver “Cara gente branca” como uma crítica ao fracasso do multiculturalismo e seus ideais de consenso para uma democracia deliberativa na qual a tolerância entre as diferenças seria o ponto alto da convivência entre as diversas identidades que formam as sociedades complexas contemporâneas. Sigo aqui o percurso de pelo menos dois autores: a filósofa Judith Butler e o filósofo Vladimir Safatle. Butler tem sido uma crítica importante do multiculturalismo e de sua associação com políticas liberais na sociedade norte-americana. Algumas de suas obras, voltadas para o debate sobre o papel da guerra contra o terror na sustentação de uma política de Estado violenta e discriminatória, consideram que o racismo é um dos componentes que nos divide entre aqueles que têm direito ao luto – e, portanto, direito a uma vida vivível – e os que não têm direito ao luto porque já são considerados vidas matáveis.

É o que se pode dizer, por exemplo, do extermínio de jovens negros no Brasil, assassinados como se desde o princípio suas vidas não pudessem ter nenhum valor social. Já com Safatle concordo em muitos aspectos do diagnóstico do esgotamento das políticas da diferença, esgotamento que se deu, entre tantas razões, porque, ao reivindicar direitos a partir de identidades, perdemos perspectiva de que a política se dá na tensa, complexa e por vezes contraditória articulação entre universal e singular.

“Cara gente branca” tem como ponto de partida uma vida comunitária de consenso, aqui entendido como modo de conciliação dos contrários. A festa opera como a provocação que faz explicitar o dissenso entre partes supostamente pacificadas por estratégias de diálogos e por reuniões forjadas para obter a neutralização dos conflitos, que não deixam de existir, apenas ficam guardados dentro do armário. É ao explicitar o racismo contido por esses falsos mecanismos que “Cara gente branca” traz seu melhor conteúdo. Do ponto de vista formal, um crítico de TV talvez possa dizer o quanto os episódios são cansativos, estratégia narrativa que serve, em certa medida, para fazer o espectador experimentar esse cansaço da repetição do racismo.

Assim, acho que o mais importante em “Cara gente branca” é tirar o racismo do armário para trazê-lo a um debate necessário, sem o qual não poderá haver superação dos inúmeros preconceitos de raça, mas também de classe e gênero, que, lá como aqui, marcam a hierarquia social.

Um dos equívocos herdados da política identitária é o de que o racismo é problema dos negros; o machismo, problema das mulheres; o extermínio indígena, problema dos índios, e assim sucessivamente. Desde seu título, a série anuncia que o problema do racismo está endereçado às pessoas brancas (para marcar esse endereçamento, eu preferia ter traduzido o título original por “Queridas pessoas brancas”). Ou nós, brancos e brancas, assumimos o combate às discriminações como tarefa coletiva, ou estaremos condenados a reproduzir formas de violência que a suposta superioridade da razão branca nos julgava imunes. Em certo sentido, a persistência do nosso racismo é a prova em si de que não somos os portadores disso que a feminista negra Lélia Gonzalez tão bem chamou de “Razão branca”. Se fôssemos, não precisaríamos ser racistas, classistas, machistas, porque já teríamos sido capazes de reconhecer que somos todos iguais.


Escrito por Carla Rodrigues

Carla Rodrigues

Professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ, mestre e doutora em Filosofia (PUC-Rio), e pesquisadora da teoria feminista. Coordena o laboratório “Escritas – filosofia, gênero e psicanálise” (UFRJ/CNPq). É autora, entre outros, de “Duas palavras para o feminino” (NAU Editora, 2013).

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3 Comentários

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  1. Todos nós somos humanos iguais, pois embaixo de pele de cima ou tirando como uma casca, todos somos iguais. A infelicidade da escravidão, deixou esse legado, que só atrapalha a vida de todos. Tem que se acabar com essas arrogância, somos todos iguais, vamos aprender a viver.

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