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Viagem ao fundo do mar de Salvador

A Baía de Todos os Santos vai ganhar um parque marinho, em local onde há destroços de três navios naufragados, próximo ao famoso Farol da Barra


Mergulhador observa Cardume no fundo da Baía de Todos os Santos: população de peixes vai aumentar
Mergulhador observa Cardume no fundo da Baía de Todos os Santos: população de peixes vai aumentar. Foto: Divulgação/Galeão Sacramento, Escola e Operadora de Mergulho

A capital baiana está prestes a ganhar um novo atrativo turístico. Será criado um parque marinho na Baía de Todos os Santos, entre dois monumentos históricos, o Farol da Barra e o Forte de Santa Maria. No local, há destroços de três navios centenários, que afundaram a no máximo 200 metros da praia e a 8 metros de profundidade. Aí está a particularidade desse parque no fundo do mar: não é preciso usar um barco para visitá-lo. Pode-se chegar às atrações (e não são poucas!) a nado.

Em breve a área estará sinalizada por boias e poderá ser vista por qualquer um que estiver passeando pela orla da cidade.  Um dos navios naufragados é o Maraldi, vapor inglês que afundou em 1875, quando vinha da Argentina, e está a uma profundidade de três a quatro metros e a apenas 100 metros da praia. O alemão Germânia chegava da Europa quando, em 1876, encalhou próximo ao Farol da Barra, a 200 metros da praia, a uma profundidade de cinco a oito metros. O terceiro é o Bretagne, que em 1903 naufragou quando saía de Salvador para a Europa, depois de bater nos destroços do Germânia.

É um patrimônio submerso ao lado das principais referências arquitetônicas da cidade

André Fraga
Titular da secretaria municipal de Cidade Sustentável e Inovação

Ou seja, são três naufrágios muito próximos. Depois de tanto tempo no fundo mar, os restos dos navios transformaram-se em habitat de diversas espécies marinhas, verdadeiros parques de diversões para mergulhadores, ou não! Não é preciso ser profissional ou saber mergulhar com tanque de oxigênio para apreciar as belezas do parque.  Dá para mergulhar apenas com um snorkel. Mas o parque também pode ser visitado por quem quer apenas nadar por ali, para admirar o movimento de peixes e as belezas do mar de águas claras.

Mergulho entre restos de um dos navios que afundaram perto da praia: atração do parque marinho
Mergulho entre restos de um dos navios que afundaram perto da praia: atração do parque marinho. Foto: Divulgação/ Galeão Sacramento, Escola e Operadora de Mergulho

Não será preciso sequer ir à praia para conhecer o projeto. “Ele prevê, ainda, a criação de uma sede, onde haverá exposição de fotos e vídeos, com informações sobre os patrimônios históricos que limitam a área do parque, sobre os naufrágios, as espécies presentes ali…”, diz Bernardo Mussi, um dos idealizadores do parque.

Segundo Francisco Barros, oceanógrafo mestre e doutor em Ecologia Marinha, pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA), esse tipo de projeto só traz benefícios à vida marinha. A literatura científica está repleta de exemplos para atestar o crescimento da quantidade de peixes e corais em áreas protegidas. A expectativa é que, em menos de cinco anos, a população de várias espécies aumente.

Em prazo mais longo, outros peixes voltarão a povoar as águas da Baía.  “Em até dez anos, o parque deverá funcionar como abrigo para muitas espécies visitantes de peixes comerciais”, completa Barros, deixando claro que esse crescimento de cardumes é bom para o parque, claro, mas também para pescadores, já que, consequentemente, também as áreas que extrapolam a preservada estarão mais povoadas.

Turismo ecológico aliado a uma comunidade consciente só pode gerar bons resultados

Bernardo Mussi
Um dos idealizadores do parque

As condições do mar da Baía de Todos os Santos, suas águas sempre claras, quentinhas e mansas, convidam ao mergulho. A temperatura e a visibilidade são muito boas na maior parte do ano. Só mesmo em época de muita chuva, do fim do outono ao fim do inverno, a  viagem ao fundo do mar da Baía de Todos os Santos pode, eventualmente, ficar prejudicada pelos ventos fortes e ressacas. “Mas justamente nessa época outros esportes aquáticos ganham força, a exemplo do surfe e do Stand Up Paddle Wave”, sugere Bernardo.

O projeto do parque nasceu de uma preocupação ambiental.  Aflito com a quantidade de lixo jogado nas praias – especialmente depois dos desfiles de trios elétricos que acontecem no Carnaval na orla da Barra -, um grupo organizou um ato simbólico de limpeza do fundo do mar. Assim, em 2009, foi criado o Fundo da Folia, que acontece todos os anos depois dos intensos dias de farra e muito lixo. Ao longo dos anos, a iniciativa foi ficando mais organizada e chamando mais a atenção, até que ganhou o apoio da Associação de Moradores da Barra (Amabarra).

Vida marinha: objetivo é a preservação. Foto: Galeão Sacramento, Escola e Operadora de Mergulho
Vida marinha: objetivo é a preservação. Foto: Galeão Sacramento, Escola e Operadora de Mergulho

Quando  surgiu a proposta de criação do parque marinho,  a prefeitura abraçou a ideia.  O projeto está previsto no Plano Diretor de Planejamento Urbano (PDDU) de Salvador desde 2016, inclusive já com previsão de limites mais amplos: ele iria até o Forte São Diogo e não apenas até o de Santa Maria, como está previsto, inicialmente.

Mas os idealizadores não deixam tudo nas mãos da gestão municipal, não. Os integrantes do Fundo da Folia uniram-se a especialistas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Instituto Federal Baiano (IFBaiano) para formar um grupo de trabalho junto à Secretaria de Cidade Sustentável e Inovação (Secis). Eles trabalham como voluntários e acompanham cada passo do processo.

O secretário municipal da pasta, André Fraga, diz que a meta é que o parque esteja pronto ainda no primeiro semestre de 2018. Segundo ele, não há ainda uma previsão exata do quanto custará a implantação completa, é exatamente isso que está em estudo, mas estima-se que só a sinalização custará entre R$ 150 mil e 250 mil.

O objetivo principal é a preservação do meio ambiente marinho em um lugar – o bairro da Barra -, onde a ocupação da capital baiana começou. “É um patrimônio submerso ao lado das principais referências arquitetônicas da cidade”, destaca o secretário. Exatamente por essa importância arquitetônica, histórica e ambiental, Bernardo lembra que algumas medidas restritivas terão que ser adotadas, como a proibição de qualquer tipo de pesca e do trânsito de embarcações motorizadas não credenciadas no local.

Os responsáveis pelo parque pretendem intensificar as campanhas de conscientização dos banhistas e foliões para que não joguem lixo na areia ou no mar. Mais do que nunca será preciso proteger, cuidar, preservar. Só assim os benefícios para a cidade e a população virão por várias frentes: ecológica, econômica, cultural e educacional. “A informação aliada à possibilidade dos cidadãos usufruírem daquele espaço, mesmo que apenas contemplando, acaba despertando o sentimento de pertencimento. Turismo ecológico aliado a uma comunidade consciente só pode gerar bons resultados”, afirma Bernardo.


Escrito por Simone Serpa

Simone Serpa

Jornalista carioca que há 10 anos fez de Salvador, BA, sua morada. Sempre trabalhou em revistas femininas e de decoração. Vive em busca de belas histórias de vida, lindas casas e bons exemplos de bem viver.

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