O valor de cada árvore e as motosserras tresloucadas

Derrubadas de árvores nos terrenos do antigo Bennett e do Clube da Light, no Rio, revelam falhas em medidas compensatórias e ignoram importância dos microclimas

Por Emanuel Alencar | ArtigoODS 15
Publicada em 22 de janeiro de 2026 - 08:28  -  Atualizada em 22 de janeiro de 2026 - 08:52
Tempo de leitura: 7 min

Árvore derrubada em terreno na Zona Sul do Rio: corte de dezenas de árvores na cidade revela falta de fiscalização para medidas compensatórias que também ignoram importância dos microclimas (Foto: Reprodução / Redes Sociais Flama)

Se o Cerrado segue com uma toada agonizante de destruição e a Amazônia enfrenta um risco para lá de vermelho em tempos de emergência climática, um assunto tem dominado as discussões ambientais urbanas neste já trepidante ano de 2026: o corte de árvores urbanas. No Rio, dois movimentos, quase ao mesmo tempo, geraram protestos e entupiram grupos de aplicativos de mensagens com indignações, cobranças e acusações: as supressões de 126 árvores em terrenos do Flamengo, Zona Sul, e do Grajaú, Zona Norte da cidade — todas autorizadas pela Prefeitura.

Não é difícil imaginar que, numa metrópole que derrete a cada verão escaldante, as árvores tenham ganhado centralidade na pauta social, urbana e ambiental. Quem vive em grandes cidades já notou um modus operandi amplo e irrestrito (e tragicamente irritante): saem frondosos vegetais, entram promessas de compensações que nunca saem do campo das ideias.

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No Flamengo, a gritaria começou no apagar das luzes de 2025: 71 árvores foram cortadas do terreno histórico do Pavilhão São Clemente, onde funcionou o Colégio Bennett (Marquês de Abrantes, 55). A ação, para a construção de prédios com 414 apartamentos pela dupla TGB Imóveis e BTG Pactual, foi rápida e agressiva: tudo ao chão nos dias 29 e 30 de dezembro. Alvo de duras críticas, o prefeito Eduardo Paes, numa rápida postagem na rede social “X”, jogou a responsabilidade para sua Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento — na capital, há cinco anos, a pasta de Meio Ambiente deixou de responder pelo licenciamento.

Infelizmente, desenvolvimento e modernidade ainda estão associados a arranha-céus e concreto. Temos um longo caminho para percorrer

Jeanne Trindade
Arquiteta, urbanista e doutora do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da UFRJ

Paes argumentou que tudo seguiu preceitos técnicos e se esqueceu de que um decreto assinado por ele mesmo (!), em janeiro de 2014, tornava o casarão do terreno tombado e as árvores imunes ao corte. É forçoso reconhecer que a derrubada das árvores passou também pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Replantem-se alguns paus-brasis, e está feito.

A 12,5 quilômetros da Rua Marquês de Abrantes, novos vegetais tombaram — mais uma vez com a anuência do poder municipal — com o fim da Associação Atlética Light, no número 2002 da Rua Barão do Bom Retiro. O adeus a um clube querido dos moradores da região. Dois enormes prédios surgirão, e 55 árvores já foram ou irão ao chão. O avanço do empreendimento, com 380 apartamentos em quatro blocos, só se tornou possível após a revogação do tombamento provisório do imóvel (de 2016), assinada pelo prefeito Eduardo Paes em outubro do ano passado. Filme repetido.

“Infelizmente, desenvolvimento e modernidade ainda estão associados a arranha-céus e concreto. Temos um longo caminho para percorrer”, comenta a professora Jeanne Trindade, arquiteta e urbanista, doutora do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Assim como as questões relacionadas à reciclagem e ao reaproveitamento de recursos naturais foram implantadas nos currículos escolares, penso que as questões relacionadas à fauna e à flora também deveriam ser estudadas desde a infância nas escolas”.

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Ignorado durante séculos, o assunto tem suscitado mais debates. Cidades brasileiras só têm estabelecido parâmetros para cortes de árvores urbanas muito recentemente. Em geral, há critérios de replantios de acordo com o diâmetro do tronco de uma árvore medido a 1,30 metro do nível do solo (o chamado DAP — Diâmetro à Altura do Peito). Na capital e em São Gonçalo, por exemplo, se um empreendimento corta uma árvore com DAP maior que 50 cm, ele deve plantar 20 novas árvores.

Quando você sabe que as árvores sentem dor, têm memória, vivem com seus familiares, não consegue simplesmente cortá-las e matá-las com máquinas grandes e furiosas

Peter Wohlleben
Engenheiro florestal, divulgador científico e autor de A Vida Secreta das Árvores

O problema é que há evidentes falhas na fiscalização do cumprimento dessas medidas compensatórias. Menos de uma dezena de profissionais, nas duas cidades, atuam na fiscalização dessas compensações. O “RJTV”, da Globo, mostrou que, somente na capital, de 2023 a 2025, grandes empreendedores deixaram de apresentar a comprovação do plantio de 300 mil árvores. Tudo acaba no esquecimento. Há ainda outro aspecto cruel: os microclimas formados por um conjunto de árvores, uma vez destruídos, não voltarão a ser restabelecidos — as compensações ocorrem, na maioria das vezes, em locais distantes. E mais: as autorizações para cortes de árvores estão divorciadas de Estudos de Impacto de Vizinhança (EIA), uma obrigação do Estatuto das Cidades. Mais prédios, mais caos, mais trânsito, menos ar respirável. Em tempos de urgência do clima, nada mais trágico.

Peter Wohlleben, engenheiro florestal e divulgador científico alemão, tem sido voz ativa na defesa de um novo paradigma para as árvores — sejam elas em florestas ou no tecido urbano. No dicionário do autor de “A Vida Secreta das Árvores” (livro que vendeu 3 milhões de exemplares), há termos que fazem tremer os defensores do concreto a qualquer custo. Peter tem argumentado, por exemplo, que árvores urbanas morrem cedo porque suas raízes não conseguem respirar ou encontrar água em solos compactados e pobres em oxigênio.

Que nos inspiremos em suas mensagens e deixemos de ver a árvore como um mobiliário urbano (como um poste de luz), e passemos a encará-la como um membro de uma comunidade biológica. Se bem cuidada, a árvore dará vida, sombra, mais frescor — e ajudará a vivermos em cidades bem melhores.

“Quando você sabe que as árvores sentem dor, têm memória, vivem com seus familiares, não consegue simplesmente cortá-las e matá-las com máquinas grandes e furiosas”. É isso, Peter!

Emanuel Alencar

Emanuel Alencar é jornalista formado pela UFF, mestre em Engenharia Ambiental pela Uerj e fundador do movimento Respira, Rio!; publicou os livros "Baía de Guanabara - Descaso e Resistência" e "Histórias do Mangue da Guanabara"

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