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Machismo na ponta da língua

O português é um idioma machista, mas já há um movimento para torná-lo mais inclusivo


Há um machismo embutido na língua portuguesa: mulheres frequentemente perdem a identidade. Jakob Helbig /Cultura Creative

É muito comum, nas minhas aulas de inglês, ouvir alunos brasileiros falarem de seus “fathers”. Na minha cabeça surge a imagem de dois homens, e me pergunto se, de repente, o aluno foi criado por um casal do sexo masculino. E quando falam de seus “brothers”? Pergunto se eles, além de “irmãos” também têm irmãs. Numa conversa em português, as mulheres, frequentemente, perdem a sua identidade: uma irmã pode virar um irmão, mas um irmão nunca vira irmã. Se você é irmã, mãe, tia, etc desaparece toda vez que falam de você no plural, se estiver com pelo menos uma pessoa do sexo masculino: os grupos são de irmãos, tios, pais… O fato é que há um machismo embutido na língua portuguesa. Na verdade, em todos os idiomas latinos.

Como se pode notar nas redes sociais, há um movimento para tornar o português escrito menos machista e mais aberto ao leque de gêneros

Na língua inglesa isso não acontece. E já existem termos para um plural de gêneros, sem especificar qual deles. Um grupo de irmãos e irmãs chama-se “siblings”. “Parents” é o plural de mães e pais. “Cousins” são primos e/ou primas. Há bastante tempo – pelo menos nos Estados Unidos –, estão surgindo (e sendo cada vez mais usadas) palavras que não definem o gênero, como parte de um esforço para combater o machismo. Quando eu era criança, se falava em “policeman”, fireman”, e “stewardess”. Como uma menina poderia sonhar em ser “fireman” quando crescesse?

Hoje, algumas dessas barreiras impostas pelo idioma estão sendo derrubadas. Independentemente do gênero, quem cuida da segurança nas ruas é  “police officer”. Quem combate incêndio é “firefighter”. E quem serve bebidas aos passageiros num avião é “flight attendant”.

Como se pode notar nas redes sociais, há um movimento para tornar o português escrito menos machista e mais aberto ao leque de gêneros. O artigo que indica o gênero é substituído por X, como nesta frase: “Amigxs, estão animadxs para a festa?”.

Até na língua falada começam a surgir maneiras de ser mais abrangente. É possível ouvir pessoas mencionando seus “amigues”, “querides”. Essas expressões sinalizam um momento em que a questão de gênero está mais no mainstream. A presença de pessoas trans na televisão é uma evidência disso.

Não digo que seja preciso abolir o gênero de substantivos e adjetivos em português, alterando os fundamentos da língua. Mas é interessante ter consciência do lugar do gênero nas nossas falas e textos. Palavras têm poder, e podem até limitar ou estimular sonhos.


Escrito por Lee Weingast

Lee Weingast

Lee Weingast é nova-iorquina e carioca de coração. Com mestrado em Pedagogia Bilíngue, ela vive no Rio desde 2003, trabalhando como professora de inglês, intérprete e tradutora. Como guia de Food Walks, Lee leva estrangeiros para conhecer a história e a vida da cidade, através de sua gastronomia. Ela adora compartilhar com amigos, de longe e de perto, seu amor pela terra que escolheu para morar. E se locomove pela cidade a bordo de sua bike, onde fica ainda mais feliz.

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